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O
futuro da energia elétrica no Brasil
Fonte: Estado de
São Paulo, 11.11.2001
Um grupo de gigantes da
indústria de mineração e metalurgia decidiu
apostar no leilão para a concessão da
Passaram-se
seis meses desde que publicamos aqui no Estado (6 de maio) um
artigo sobre a crise, a reforma e o futuro da energia elétrica
no Brasil.
Naquela época,
consideramos quase uma obrigação vir a público
com nossos comentários sobre a crise. Com a visão
de quem participou ativamente, seja da formulação,
seja da execução, seja ainda da operação
do sistema elétrico, segundo o modelo cujas bases foram
progressivamente construídas a partir da década
de 50.
O nosso texto
de então trazia um sentimento de tristeza com a subseqüente
evolução negativa, acentuada na segunda metade da
década de 90. Continha também a preocupação
com o futuro, diante das dificuldades que se apresentavam na implementação
da reforma, sobretudo porque não parecia que estivéssemos
conseguindo colocar de pé o novo modelo.
Hoje, ao escrevermos
este segundo artigo sobre o mesmo tema, a preocupação
se acentua, quando observamos que o País ainda não
identificou o caminho que possa assegurar o sucesso na implementação
do novo modelo. Requerem-se para isso opções e decisões
abrangentes de governo que dependem de coordenação
interministerial. Esta, infelizmente, faz falta no atual governo
e constitui uma das principais causas da dificuldade inicial da
reforma, marcada pelas desavenças entre os ministérios
da Fazenda e de Minas e Energia e a Eletrobrás e o BNDES,
em torno dos objetivos conflitantes, de cortar investimentos do
governo e de fazer a reforma do setor elétrico, e a reforma
patrimonial do Estado, por meio da privatização
de empresas.
A única
tentativa de elaboração de uma proposta de Política
Nacional de Energia de que temos notícia ocorreu no âmbito
da Secretaria de Energia do Ministério de Minas e Energia
(MME), sendo concluída em novembro de 1998.
Não
passou de um texto para discussão, que não chegou
a ser encaminhado ao Conselho Nacional de Energia, o qual, por
sua vez, ainda não havia sido constituído, embora
já estivesse criado por lei de 1997.
Contribuição
decisiva
Desde o tardio reconhecimento pelo governo, MME e Agência
Nacional de Energia Elétrica (Aneel), de que havia chegado
a crise, prevista por vozes abalizadas do setor elétrico,
da industria e da universidade, desde 1998, não foram na
realidade enfrentadas as dificuldades essenciais da transição
para o novo modelo institucional. O governo veio tomando tão
somente medidas de emergência para administrar o desabastecimento.
A crise não foi mais grave por dois motivos:
Em primeiro lugar, a pronta e positiva resposta da sociedade à
solicitação de auto-restrição do consumo;
Em complemento à retração econômica
do País, neste segundo semestre, que induziu crescimento
modesto da demanda de eletricidade pelo setor produtivo.
A contribuição da sociedade não parou aí,
e se intensificou sob a forma de críticas à condução
da política energética e de análises e propostas
construtivas, incluindo-se as do nosso já mencionado primeiro
artigo.
Ao se encerrar
o primeiro semestre de administração da escassez,
foi possível evitar medidas mais drásticas nas Regiões
Sudeste e Centro-Oeste, muito embora ainda sem perspectivas de
um possível reenchimento dos reservatórios. O mesmo
não aconteceu, infelizmente, no Nordeste, onde a situação
é gravíssima.
Enquanto isso,
o governo demonstra a maior dificuldade de resolver tempestivamente
os problemas de fundo que vêm se apresentando, com especial
destaque para a cadeia das questões do câmbio, do
preço do gás, da tarifa da eletricidade e de novas
definições para o papel da energia nuclear e do
carvão nacional, com desnecessário atraso nos programas
de termoelétricas.
Pontos críticos
Nestes seis meses desde que fizemos a nossa primeira revisão,
destacaram-se, a nosso ver, quatro questões na implantação
da reforma.
Acima de tudo
surge o imprudente encaminhamento da reforma sem atentar para
a advertência formal dos consultores, feita em 1996, segundo
a qual a implantação do mercado competitivo só
poderia se dar num quadro de ampla oferta de energia. Propuseram
inclusive um plano de emergência (Urgent Action Plan) que,
infelizmente e por vários motivos que não cabe aqui
recapitular, não foi executado. Procurou-se implantar a
reforma em clima de escassez de oferta. Deu no que deu.
Mas, além
da cronologia inadequada, a própria concepção
do mercado atacadista de energia MAE, constitui ponto crítico
de todo o projeto. Não foi feliz esta parte da reforma,
inclusive em virtude da controversa definição dos
valores normativos para as contratações e pela norma
de fixação do preço do mercado "spot"
de energia.
Além
disso, a sua dimensão inicial ficou muito restrita em decorrência
dos contratos iniciais compulsórios entre geradores e distribuidores.
Finalmente sobre o Mercado Atacadista de Energia (MAE) incidiram
ainda as conseqüências do atraso de Angra 2, agravadas
pelo tratamento dado às restrições de oferta
na redação do anexo 5 dos contratos iniciais. Tornou-se
necessária, por fim, uma intervenção da Aneel
no MAE, que veio abalar o próprio princípio do mercado
livre.
Não
foi resolvida também a adaptação do nosso
original sistema hidrotérmico para o novo modelo. No anterior,
assegurava-se, de forma centralizada, disponibilidade térmica
a carvão e óleo para compensar parte das variações
da pluviometria, através da diluição dos
gastos com combustíveis na tarifa de todos os consumidores
do sistema integrado.
Optou-se pela
supressão progressiva desse sistema, mas não se
colocou outro em seu lugar, apesar de se saber que, em qualquer
hipótese sobre a expansão da capacidade geradora,
as hidrelétricas ainda serão dominantes, por muito
tempo.
Finalmente,
e em conseqüência de várias indefinições
do novo modelo, mas principalmente por causa da descentralização
das responsabilidades, antes assumidas pela Eletrobrás,
quanto aos riscos hidrológicos, cresceram as incertezas
para as empresas, o que vem limitando a uma escala insuficiente
a entrada do capital privado.
A crise de
desabastecimento veio dramatizar essa deficiência, que ainda
não mereceu proposta prática de solução.
Vinculada à contingência de caráter permanente,
encontram-se outras, de caráter emergencial, compreendendo
a da forma de promover o reenchimento dos reservatórios,
a quem atribuir a responsabilidade e o custo da produção
da energia a ser estocada. Não estão, enfim, definidas
com clareza as responsabilidades dos agentes na garantia do atendimento
das necessidades dos consumidores.
Devemos registrar
que a todas essas dificuldades intrínsecas da transição
se sobrepõe a incapacidade de se alcançarem, na
administração pública, as decisões
operacionais na hora oportuna. Assim é que persistem há
mais de ano as indefinições sobre a conclusão
da obra da Usina Eletronuclear Angra 3, cujos equipamentos já
estão comprados e estocados e da Usina Termoelétrica
Candiota 3, em semelhante situação. Envolvidas em
indefinição estão também as instalações
a gás prontas e sem condição comercial de
operar, como é o caso das Usinas Macaé Merchant
e Eletrobolt, no Rio de Janeiro.
Além
da emergência
Diante das atribulações decorrentes da crise, são
poucos e sem grandes resultados os esforços no sentido
de se pensar além da emergência.
As tentativas
do Poder Legislativo estão concentradas na discussão
do Projeto de Lei n.º 2.905 de 2000, que introduz muitas
novidades em contra-corrente ao próprio espírito
de reforma e alterações no modelo ainda em fase
difícil de implantação. O projeto tem sofrido
sucessivas emendas, e não trata das questões essenciais
do impasse em que nos encontramos.
As tentativas
do Poder Executivo de pensar além da emergência,
de que o público tem conhecimento, foram três:
A primeira foi a instituição da "Comissão
de Análise do Sistema Hidrotérmico de Energia Elétrica",
em maio de 2001, que concluiu o seu relatório em julho,
do qual só foram divulgadas as conclusões. Não
se conhece a evolução subseqüente dos temas
ali tratados nem se tornaram públicas iniciativas de implementação
das correspondentes propostas.
A segunda é a iniciativa do grupo de trabalho "Revitalização
do modelo do setor de energia elétrica", a cargo do
BNDES. O que publicamente se conhece é o abandono da idéia
de contratar consultoria específica para o tema.
A terceira decorreu da tardia instalação do Conselho
Nacional de Política Energética, que havia sido
regulamentado em novembro de 2000, depois de três anos no
limbo. Tem-se notícia, por meio do site do MME na Internet,
de resoluções tópicas, tomadas na terceira
reunião, de agosto de 2001, entre as quais estudos sobre
a integração com países vizinhos. Não
há nenhuma menção à elaboração
de política nacional de energia.
Os que lidaram com o setor elétrico e outros serviços
de infra-estrutura física de um país que precisa
desenvolver-se sabem que é fundamental pensar no longo
prazo. No entanto, tornou-se difícil manter esse rumo em
um ambiente dominado pela visão financeira, que procura
sempre encurtar o prazo. É por esse motivo que consideramos
indispensável, antes de tudo, adquirir coerência
nas definições que atendam, na medida do possível,
aos diversos objetivos estratégicos nacionais.
Revisão
de diretrizes
Antes de se considerarem aperfeiçoamentos da reforma do
setor elétrico e as características que deverá
assumir uma futura política nacional de energia, será
necessário admitir que algumas diretrizes gerais da reforma
geral do País, desenvolvida na década de 90, devam
ser revistas. Torna-se necessário adequá-las à
nova realidade, em razão da rica experiência recentemente
vivida.
Entre as diretrizes
nacionais que maior influência têm sobre a política
de energia, cabe registrar a intransigente opção
pela redução do Estado, sem o mesmo cuidado com
a sua substituição, bem como pelo exagero na extensão
possível dos mercados competitivos.
Da conjugação
dessas diretrizes decorreu a proibição de investimentos
em geração e, principalmente, em transmissão,
com recursos próprios, de Furnas, Chesf e Eletrobrás,
que poderiam ter contribuído para assegurar aquela abundância
de oferta requerida pela implantação de modelo crescentemente
privado e competitivo, no período cheio de incertezas da
transição. No entanto, a existência de empresas
estatais não é incompatível com o regime
de livre mercado energético, como observado em vários
exemplos externos.
A insistência
na redução da presença do Estado resultou
também em artifícios para a construção,
pelo setor privado, de empreendimentos de transmissão com
recursos do próprio Estado.
Em reforço
a essa orientação ideológica da política
econômica, oriunda da batalha contra a inflação,
foram privilegiados os aspectos monetários e fiscais, relegando
a segundo plano as questões da economia física,
nelas incluída o suprimento de energia elétrica.
Manteve-se, todavia, uma estreita visão restritiva em relação
a investimentos públicos mesmo depois de atingida a estabilidade.
Dela resultou que, por causa das metas de superávit fiscal,
estabeleceu-se uma cadeia de eventos compreendendo insuficientes
investimentos em geração e transmissão, insuficiente
oferta de eletricidade, desabastecimento, racionamento, redução
do produto físico e da própria arrecadação
fiscal, com efeito final negativo sobre a meta inicial do superávit
intransigentemente defendida.
Conclusão
Como resultado da revisão que ora fizemos não nos
parece ter havido progresso na definição de novos
rumos da reforma com visão de longo prazo. Estamos ainda
presos às providências de emergência, e mesmo
nesse domínio são muitas e graves as questões
pendentes.
Parece-nos
urgente corrigir a dispersão de autoridade, reduzindo o
excessivo número de órgãos governamentais
e revitalizando o MME e a Eletrobrás, hoje restringidos
na sua capacidade de ação. Mas isso pode ser feito
dentro das linhas gerais da reforma do próprio Estado,
que está em curso, porém sem os exageros dos conceitos
de Estado mínimo e dos mercados competitivos, que acabaram
por acarretar elevados riscos para o setor privado. Há,
portanto, que admitir que o Estado deverá intervir nos
projetos de geração hidrelétrica de grande
porte, especialmente na fase de pré-investimento, e nos
troncos de interligação que visam principalmente
à segurança operacional e à garantia de suprimento.
Há
que se aprovar com urgência uma política energética
nacional que sinalize, para as agências do governo e para
o setor privado, o rumo que se deseja seguir. Em pauta, deverão
estar a matriz energética, com as fontes interna e importada,
a estrutura e a organização do mercado e a atribuição
de responsabilidades pela garantia final do atendimento à
sociedade.
Simultaneamente,
há que se dedicar atenção prioritária
do mais alto escalão do governo federal, em estreita colaboração
com as lideranças do Legislativo, no sentido de dar solução
aos conflitos internos que estão dificultando o aperfeiçoamento
do sistema elétrico.
Tudo isso
será imediatamente necessário se quisermos diminuir
o risco do desabastecimento além de 2003, principalmente
para que o Brasil possa retomar a rota do crescimento econômico,
como a maioria da sociedade espera.
Assinam este
artigo, especial para O Estado de S. Paulo: Antonio Dias Leite
e Mauro Thibau, ex-ministros de Minas e Energia, e Mario Penna
Bhering e José Luís Alqueres, ex-presidentes da
Eletrobrás. Os autores agradecem as contribuições
do prof. Adilson de Oliveira e de Túlio Cordeiro de Melo,
bem como as sugestões de Evaldo Melo da Paz e Getulio Lamartine
de Paula Fonseca.
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