:: 20.03.07 ::

Velha Sudene nova Sudene


Pádua Ramos

O problema da Sudene encontra raízes remotas de vária natureza. Uma delas é esta: a antiga Sudene envelheceu sob o processo de oxidação de interesses imediatos, incidentes sobre a massa de incentivos fiscais

A Sudene que vem aí, ressurgindo, está sendo recebida com desconfiança sobre sua própria razão de ser. A fraqueza da vontade política da Região permitiu fossem concebidos mecanismos técnicos inócuos. Por exemplo, a circunstância de o próprio FNDE - Fundo Nacional de Desenvolvimento do Nordeste depender, em cada oportunidade, do arbítrio do poder público para ser alimentado, em vez de nutrir-se automaticamente, no dia-a-dia da administração financeira, sob o imperativo de mecanismo compulsório institucionalmente assegurado.

O problema da Sudene encontra raízes remotas de vária natureza. Uma delas é esta: a antiga Sudene envelheceu sob o processo de oxidação de interesses imediatos, incidentes sobre a massa de incentivos fiscais. Aquela Sudene de Celso Furtado não nasceu para administrar incentivos fiscais. Mas para coordenar no Nordeste ações nacionais entre si, ações locais entre si e, ainda entre si, as ações locais e as nacionais.

Os incentivos fiscais - fáceis como mecanismo e viáveis como interesses - logo converteram em principal o que seria apenas acessório. Lembrando aquela figura da cauda do cachorro balançando-lhe o corpo. O gabinete do superintendente adjunto encarregado de administrar os incentivos talvez fosse mais visitado que o do próprio superintendente. As cartas consultas acotovelavam-se frente à porta estreita que dava acesso à análise. E era imensa a pressão dos interessados - interessados, esclareça-se, legítimos - para que suas cartas consultas superassem aquela situação de engarrafamento. Não se pode tapar o sol com a peneira e negar que esse clima era propício a uma certa corrupção, ainda que estatisticamente (mas nunca, é claro, eticamente) desprezível.Para efeito externo, ficou injustamente esquecido o empenho, a dedicação, o entusiasmo, a competência da grande maioria de seus técnicos: das Tânia Bacelar, dos Leonildes Alves, do Paulo de Tarso Moraes Sousa, dos Geraldo Wanderley e de tantos outros.

Ficou velha a velha Sudene. E perdeu o fascínio que tanto motivava aquela geração de técnicos e de políticos de quando de sua criação. Sua missão coordenadora de esforços esmaeceu-se.Vazia de verbas. E de ideal vazia. Como o horizonte de um pôr de sol sem sol.Os governadores já não mais compareciam às reuniões do Conselho Deliberativo. Em tempo de murici, cada um cuidava de si.

O desenho técnico da nova Sudene, repita-se, está gerando desconfiança. Há dispositivos técnicos inócuos. E daí? Deve-se ou não apoiar essa Sudene? A resposta é sim por duas ordens de razões. Primeiro, razões psicológicas ou políticas, conforme se queira. A nova Sudene será o locus onde deve ser retomado, restabelecido, resgatado o princípio da colegialidade, o sentido de conjunto, o sentimento de pertencer a um todo - o todo regional nordestino - por parte dos governadores e, de resto, por parte de suas forças econômico-sócio-políticas, que através deles deverão para lá convergir. Em segundo lugar, pela necessidade da restauração de uma coordenação supra-estadual: regional. Será de bom alvitre fazer ressuscitar o antigo conceito de eixos de desenvolvimento.

No caso, eixos regionais de desenvolvimento. Poder-se-ia tomar como eixos regionais de desenvolvimento, por exemplo: todo o arco turístico da costa atlântica, que vai do Espírito Santo até o Maranhão. Os cursos dos rios: eixo de desenvolvimento do Rio Parnaíba; eixo de desenvolvimento do Rio São Francisco. Mais: eixo de desenvolvimento do etanol; eixo de desenvolvimento do biodiesel; e assim por diante. Esses eixos são quase sempre atravessam dois ou mais Estados. E hão de concorrer nessa escala supra-estadual justamente para soldar solidariedades regionais desfeitas com passar o tempo.

Vale à pena fazer renascer nova, a velha Sudene.

Pádua Ramos é administrador e ex-superintendente adjunto da Sudene


Fonte: O Povo

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