:: 20.09.03 ::

Empreendedor, empresário e executivo - I


Melhor do que as Faculdades de Administração, caso queira “aprender”, é montar uma empresa, aprender administrá- la como autodidata

Cleber Aquino é Professor da USP

O mundo dos negócios tem três grandes impulsionadores: o empreendedor, o empresário e o executivo, fortemente responsáveis pelo sucesso ou derrocada das empresas (sucesso quando trabalham entrosados), apesar de o êxito ou fracasso empresarial não depender unicamente deles. As condições macroeconômicas e institucionais do País favoráveis ou não, complicam ou ajudam o desempenho da gestão. Completando o tripé, as empresas decididas a continuidade são administradas por uma Governança Corporativa, integrada por Conselho de Administração, fiscalizando, avaliando a Diretoria, sobretudo, o Presidente Executivo (CEO). Portanto, todos são decisivos na perpetuidade ou desaparecimento das organizações e injeção dos ''valores'' nos empreendimentos a partir dos quais, as práticas organizacionais ocorrem.

Feliz a Nação possuidora de competentes empreendedores, empresários e executivos e que lhes proporcionam facilidade de realizar seus sonhos. Eles se completam e se diferenciam dos demais seres humanos por terem optado por um tipo de atividade - negócios - com características bem determinadas, exigindo aptidão e capacitação, sob pena dos empreendimentos fracassarem. Estão ligados pelo esforço de criar, desenvolver, conduzir empresas/grupos, novos projetos, cada um exercendo seus papéis, sob a chancela da governança corporativa. O futuro das empresas, mormente, as familiares, repousa neste modelo, principalmente na fase atual do Brasil na qual elas estão na transição da segunda a terceira geração, período crítico na sobrevivência delas.

O empreendedor exalta iniciativa, farejador de oportunidades, realiza o que gosta e sente prazer no ''fazer'', em testemunhar o surgimento de negócios. Um eterno criador, investidor ousado, dinâmico, convive com o risco, levando os empreendimentos a girar em torno deles. Faz e adora agir sozinho, cuidando do mercado, da produção, distribuição, contabilidade, vendas, RH, contatos, ida a bancos, a governo, enfim, mergulhando em todos os detalhes da organização. A empresa é a própria pessoa dele, geralmente um indivíduo de muitas idéias, vocacionado ao desconhecido, impulsionado pelo dinheiro, deleite de criar, pela auto-realização, vontade de tornar-se patrão, fruto do pavor de ser empregado, da penúria da rotina funcional, da escravidão de quem vive pendurado na folha de pagamento, ganhando pouco, na iminência de ser demitido a qualquer momento, sem critérios, por algum chefete emocionalmente desequilibrado, até em empresas que fazem propaganda de suas políticas de RH.

O volume de motivações do pioneiro é enorme, destacando-se o ''prazer'' de criar, como a mais importante, caso tenha vocação a essa atividade. O envolvimento dos empreendimentos é tão intenso, tornando-se difícil e até impossível dissociar os objetivos da empresa com os dos acionistas. É o herói, dono da verdade e, por cima, limitado diante da complexidade da conjuntura e a partir de certo tamanho da organização, momento dele evoluir a empresário, cedendo espaços aos executivos qualificados e não bajuladores dos donos. Quando essa evolução não acontece, a empresa quebra com o desaparecimento do fundador. O Ceará é exemplo, daí o elevado índice de mortalidade empresarial. O Brasil dispõe de um riquíssimo potencial empreendedor. O brasileiro almeja possuir o próprio negócio, até como conseqüência da infelicidade de ser empregado/escravo. E da falta de emprego.

Apenas a cultura e os fatores de socialização (família, educação/escolas, etc.), antagônicos a explosão do empreendedorismo. Outro inimigo ao surgimento de empreendedores, os cursos de ''iniciação empresarial'', ''como criar e gerir o novo negócio'', porque os instrutores não possuem experiência de ''management'', falta de afeição ao mundo dos negócios, bibliografia fraquinha, metodologias anti-criatividade, um conjunto de ingredientes pedagógicos bloqueando o ''prazer'', a ''iniciativa'' da pessoa se lançar no mercado. Se o Bill Gates tivesse frequentado esses cursinhos, certamente, não existiria a Microsoft. Se o Victor Civita (fundador do Grupo Abril), aluno dos docentes de ''como criar uma empresa'', não existiria a dita editora.

Assim, quem deseja implementar um negócio, basta verificar se esse caminho lhe é prazeiroso, lançar-se ao empreendimento, estudar como autodidata os fundamentos da atividade, acreditar na intuição e fugir das pesquisas de mercado (principalmente feitas por professores), plano de negócios teóricos, procedimentos impeditivos a volúpia do investidor. Victor Civita me disse na FEA/USP, que contratou consultores de pesquisa de mercado, todos concluíram pela inviabilidade do lançamento da ''Veja''. Rasgou os estudos, confiou na intuição, apostou na dedicação, persistência e a revista um sucesso editorial e comercial. O empreendedor cercado de cursos, palestras, planos, precauções, não se lança, torna-se inseguro, medroso, porque o talento dele reside na liberdade de ousar, em ser um Fernão Capelo Gaivota.

No Ceará conheço dois empreendedores simples, porém, vitoriosos. Eles me disseram que a sorte deles (e o êxito) foi não terem participado dos citados cursinhos, nunca ouviram pesquisa de mercado, plano de negócios, distanciados do governo, acreditando somente no talento e enorme vontade de vencer, escrevendo suas próprias histórias, aprendendo no contato direto com a realidade. Distantes da burocracia, das faculdades de administração, das entidades promotoras dos mencionados cursinhos e estudos, das consultorias superficiais, longe da badalação, explorando o apetitoso tema do empreendedorismo. A picaretagem está excitada com esse assunto, pela oportunidade de explorar os incautos com treinamentos, assessorias, tirar dinheiro do governo, etc.

E, o empresário, quem é ele? Também um fundador de empresa, no entanto, raro o empreendedor ser empresário, a não ser quando o pioneiro rompe as limitações de mero fazedor de negócios. Possui outras características usualmente inexistentes no fundador. Uma delas, é crescer acima do empreendedor, começando a evolução na maneira de ver o mundo, no estilo de liderança/gestão, formas de pensar, de inovadoras concepções da atividade empresarial, no relacionamento com o trabalhador, de avaliar a conjuntura, a concorrência e do seu papel na vida e no mundo. O empresário lidera a empresa/grupo empresarial, sintonizado com a época e o ambiente em que ele opera. Seu esforço transcende as fronteiras da organização, sinalizando com o entorno, onde se localizam as oportunidades e ameaças.

O empresário profissionaliza a empresa, desgrudando-se do papel convencional e infantil de ''dono'' (Satisfação de controlar tudo, imiscuindo-se nos pormenores da organização), praticando relações de trabalho civilizadas, dando espaços e poderes aos funcionários, notadamente, aos executivos, evitando tratá-los como escravos ou subalternos inferiorizados. No próximo artigo daqui a 15 dias (domingo, 30.11) continuarei respondendo a pergunta, quem é o Empresário?

Source: O Povo

Voltar