:: 23.11.03 :: |
CARNAÚBA:
Cadeia produtiva aposta na modernização
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Árvore da vida, por muitos chamada, a Carnaúba faz jus ao título. Dela, de tudo se aproveita. No Ceará, a árvore já se tornou símbolo do Estado por decreto governamental. Em várias regiões, onde a Carnaúba está sempre presente, diversas são as utilidades da planta. Entre as mais conhecidas estão os produtos da palha, dos tradicionais chapéus ao inovador artesanato originado desta matéria-prima. Do pó, surge a cera, comercializada até para exportação. Todas atividades de longa data, mas que resistem ao tempo, comprovando o forte potencial de geração de renda da Carnaúba. Por isso mesmo, trabalhos no sentido de modernizar tais atividades são pensados pela Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Carnaúba, criada em 2003. Talvez outro símbolo o Ceará não poderia ter. Como o homem forte do sertão, a árvore da Carnaúba resiste bravamente a chuvas e secas, florescendo o ano inteiro pelos interiores cearenses e nordestinos.
Cristiane Vasconcelos
sucursal Sobral
Entre a série de produtos que a Carnaúba pode originar, o chapéu de palha é o mais tradicional deles. Mas isso não quer dizer que este precisa parar no tempo e se restringir a palha bruta e mal acabada, como era quando tudo começou. Em Sobral, a tradição de produção e venda de chapéus sempre foi muito forte, resultando na criação de algumas fábricas que, durante anos, comercializaram o produto. Atualmente, quem inovou na atividade vem se mantendo. Como é o caso de Jacinto Braga Paiva. Ele começou como funcionário de uma dessas fábricas e, hoje, 16 anos depois, tem sua própria empresa onde produz mais de um milhão de chapéus ao ano.
O diferencial dos chapéus de Seu Jacinto estão no acabamento e no valor agregado inseridos nos produtos. Por meio de diferentes acessórios, como elástico, plástico, nylon e cores, ele vai criando novos modelos que atraem públicos específicos. Cada festa ou época tem seus chapéus temáticos, seja São João ou Copa do Mundo, todos feitos essencialmente da palha da carnaúba. Para chegar ao chapéu final, com qualidade até para exportação, o trabalho começa com a compra do chapéu bruto. Aquele feito ainda da forma tradicional, pelas chamadas feiteiras. Atualmente, Paiva compra chapéus de feiteiras de toda região próxima à Sobral. Gerando assim, milhares de empregos indiretos.
Ao chegar na fábrica, o chapéu bruto é cortado e limpo, prensado uma primeira vez para ganhar firmeza e para a palha ficar lisinha, sem arranhar, e uma segunda para adquirir a forma. São mais de 140 formas na fábrica de Jacinto. Depois disso, o produto está pronto para ganhar os devidos acessórios. Somente na ante-safra da Carnaúba, no primeiro semestre do ano, são cerca de 300 mil chapéus de palha estocados na fábrica. Todos bem secos, já que este é critério imprescindível para qualidade do produto. Nada de água ou ambiente úmido. Com todo o cuidado e entendimento do negócio, o investimento tem retorno garantido.
Com a melhora no produto final, Jacinto Paiva conta que tem como principal mercado atualmente, São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná. E os negócios não páram. Uma mostra de que a atividade, quando modernizada, ainda tem muito futuro, é que o empresário foi um dos que despertou interesse de uma empresa de exportação, durante a Feira de Negócios do Vale do Acaraú (Fenaiva). A proposta, de acordo com o Sebrae Sobral, que intermediou a negociação, é que sejam exportados 40 mil chapéus para Europa.
Com a tradição do beneficiamento do chapéu já existente em Sobral, ficou mais fácil investir na atividade. A palha é matéria-prima que não falta. E, como diz Jacinto, “chapéu tem que ser muito”. Os preços, confessa o empresário, ele ainda consegue manter num nível bom. Os mais baratos são vendidos a R$ 0,20. Valor que varia até R$ 1,95 para o produto mais caro. Mas Paiva revela um detalhe importante, “O segredo está na qualidade do produto. Não adianta só a quantidade”. Fator que faz todo o diferencial da produção modernizada de chapéus de carnaúba. |
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TRADIÇÃO
Artesanato feito da palha de carnaúba é a nova profissão.
Há quem diga que o artesanato feito da palha de carnaúba é a evolução dos tradicionais chapéus. Há poucas décadas, essa nova possibilidade de uso da palha começou a ser descoberta pelas comunidades que viviam da produção do chapéu. Atualmente, muitos são os grupos que se organizaram e investiram na produção de artesanato da carnaúba como nova profissão. Atividade esta que
resulta num aumento significativo da renda de trabalhadores e trabalhadoras.
Um dos grandes parceiros no desenvolvimento dessa atividade na zona Norte vem sendo o Sebrae e a Central de Artesanato do Ceará (Ceart), desde a oferta de cursos para capacitação até a compra dos produtos dos artesãos. No distrito de Ipaguassu-Mirim, em Massapê, o grupo Raiz da Palha mostra bem como se deu essa evolução. Formado por 13 mulheres e dois homens, há apenas três anos, eles eram pessoas que até então viviam da produção de chapéus e camisas de palha para vestir garrafas. Com o investimento do Sebrae e da Ceart, eles ganharam uma nova profissão e, hoje, são artesãos da palha de carnaúba.
A partir das técnicas que eles já utilizavam na produção dos chapéus, foram dados cursos de designers, além de gestão, empreendedorismo e atendimento. Daí, começaram a surgir uma série de produtos, como bolsas, cestas, peças decorativas e tudo mais que os artesãos imaginem. Tudo feito da palha de carnaúba e totalmente manual. Os preços também melhoraram, os novos produtos são vendidos a partir de R$ 10,00. Bem diferente dos R$ 0,20 conseguidos com os chapéus e camisas de garrafas. Mas no processo evolutivo, digamos assim, a qualidade passa a ser fator principal. Com a palha bem escolhida e seca, elas começam a trançar e inserem acessórios como pano, arame, acabamentos feitos também da própria palha e até o talo da carnaúba, também utilizado em algumas peças para dar mais firmeza.
Outra novidade, é o tingimento natural da palha. Por meio do uso de plantas existentes na região, como aroeira, urucum ou cajueiro, eles criam a tinta e dão coloridos sofisticados à palha. Com o crescimento sustentável da atividade - pois os artesãos participam de feiras para apresentar os produtos e fazer novos negócios - as mulheres se tornaram também instrutoras de cursos pela região.
foto: MARIA EDITE trabalhava com a palha de carnaúba desde a infância. Hoje, é uma das associadas do grupo Raiz da Palha, que inovou com outros produtos artesanais |
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DE GERAÇÃO A GERAÇÃO
Feiteiras mantêm forte a tradição na zona Norte
Apesar da modernização e necessidade de agregar valores ao chapéu feito da palha de carnaúba, a atividade antiga das feiteiras é que ainda sustenta toda essa cadeia. Trabalhando dia e noite, em casa ou na vizinha, as mulheres que se dedicam à profissão de feiteira são as grandes fornecedoras da matéria-prima para as fábricas de chapéu. A atividade vem há muitos anos passada de geração a geração e se mantém forte em boa parte da zona Norte.
Na localidade de Várzea Redonda, no distrito de Bonfim, em Sobral, elas são muitas. “A profissão das mulheres aqui é essa”, diz a feiteira Claudiana Rodrigues Linhares, de 25 anos. Ela faz parte de uma família que já entra na quarta geração a trabalhar na atividade. Esta quarta é justamente a filha de Claudiana, de apenas 10 anos. A pequena Camila Linhares de Sousa já vê sua profissão se desenhando. Tradição que herda da bisavó, Raimunda Muniz Farrapa, dona Mundica, de 83 anos, que continua firme e forte na profissão. Trabalho este, que dona Mundica, por sua vez, aprendeu ainda pequena com a mãe.
Nesse entrançado de gerações, elas continuam demonstrando um manuseio preciso da palha, mesmo as mais novas. Por dia, elas dizem que fazem uma média de seis chapéus. E, para isso, a palha da carnaúba não sai de perto delas. Seja em casa assistindo à novela ou indo visitar a vizinha, o chapéu por fazer e as palhas para o trabalho são sempre carregados debaixo do braço. Mas apesar de sempre serem vistas em grupo, elas dizem que o trabalho é sério. Por isso, mesmo juntas, a conversa fica para depois. “Quando a gente tá trabalhando não pode conversar porque se não se distrai”, explicam.
Acostumadas com a tradição da atividade e acreditando que essa é uma profissão que ainda vai ficar para gerações futuras, elas admitem que a renda não é muita. Cada chapéu é vendido a uma segunda pessoa, um tipo de atravessador, que revende o produto para as fábricas. Em Várzea Redonda, Elenice Mota de Azevedo é quem faz esse papel. Ela compra das feiteiras a peça a R$ 0,20 e revende a R$ 0,22 para a fábrica de Jacinto Paiva. Ela revela que dali saí uma média de 2 mil chapéus por semana, que compra de cerca de 100 feiteiras da localidade. É Elenice também quem vende as palhas para as feiteiras produzirem. Ela é dona de um carnaubal e dele tira ainda o pó, para fazer cera. Exemplo que prova o potencial de uso da Carnaúba. (C.V.)
Foto: As mulheres TÊM a produção de chapéu como profissão, passando de mãe para filha |
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ZONA NORTE
Setor da cera de carnaúba busca revitalização
Pouco falada, mas ainda muito produzida, a cera de carnaúba é outro produto que há muitos anos cria oportunidade de emprego e renda para o homem do campo. Com longa tradição, a extração do pó da carnaúba acontece, principalmente, nos meses de setembro a dezembro. É ele a matéria-prima para a produção da cera. Esta, segue para venda em Fortaleza e daí para exportação, que de acordo com o secretário executivo da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Carnaúba (CSCPC), Eduardo Neves, ainda continua tendo a exportação como principal destino. A grande diferença está no fato de que somente três Estados do Nordeste investem na produção, Rio Grande do Norte, Piauí e Ceará.
“A Carnaúba é única no mundo. E esse tipo de produção só existe aqui”, ressalta Neves. Daí a necessidade urgente de um trabalho de modernização e pesquisa que permita a revitalização da atividade da cera no mercado interno e externo. Quem já trabalha há tempos com isso, concorda que os rendimentos não são mais os mesmos de antigamente, mas demonstram que o trabalho ainda é, sim, possível. Francisco Lourenço Vasconcelos, de 77 anos, há 50 vive da produção de cera de carnaúba. Ofício que herdou do pai e já passa para filho e neto. Ele confirma que houve tempos áureos da cera, quando esta era usada como componente de vários produtos, como o antigo disco de vinil e baterias. “Com o plástico, a cera foi substituída”.
Hoje, as utilidades podem não ser as mesmas, mas ainda existem. Por isso mesmo, a fábrica de cera de Chico Lourenço não pára. Ele produz três tipos: a arenosa (com 10% de água), a preta (líquida) e cera branca ou olho (feita da olho da carnaúba - palha que nasce no centro da planta), em valores que vão de R$ 3,00 a R$ 7,00. Tudo vendido semanalmente para um corretor em Fortaleza, que revende ou exporta o produto. Ainda por conta da cera Chico Lourenço é o maior comprador de pó da região. Na cadeia produtiva da Carnaúba, mais uma vez, a geração de emprego, diretos ou indiretos, é sempre uma conseqüência.
Como Lourenço, na região próxima a Sobral, outros produtores de cera ainda mantém a profissão. Mas tudo ainda feito de modo quase artesanal. Primeiro, o pó é cozinhado. Daí, levado para uma prensa onde, do melado produzido pelo cozimento do pó, se retira uma espécie de caldo. O caldo, bem encorpado, é levado agora para a caldeira feita de cimento e aquecida por carvão. Na caldeira, o que sobrou da prensa é aquecido e um novo líquido que se forma com o derretimento já é a cera pronta. Depois de todo o processo, é só secar. Para todo esse trabalho, os rendimentos são, em média, de R$ 105,00 a arroba - 15kg -de cera.
Foto: PARA CHEGAR à cera, o pó da carnaúba passa por prensa e cozido numa caldeira |
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CSCPC
Câmara Setorial deve impulsionar setor
Para investir em toda cadeia produtiva da carnaúba, numa tentativa de revitalizar esse setor produtivo, foi criada em novembro de 2003, a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Carnaúba (CSCPC). A idéia veio com solicitações feitas pela Sindicarnaúba à Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado (SDE), que elaborou um diagnóstico para conhecimento das condições de toda cadeia no Ceará. A descoberta foi de um setor estagnado, precisando de revitalizações. Problemas emergenciais que decorrem de 40 anos de abandono da atividade, acredita o secretário executivo da CSCPC e coordenador de desenvolvimento setorial da SDE,
Eduardo Henrique Cunha Neves.
Para adotar ações visando a revitalização da cadeia da carnaúba, que responde hoje pela 10º lugar na pauta de exportação do Estado, foi formada e instituída por decreto a Câmara Setorial. Três anos depois, várias ações concretas já foram praticadas. De acordo com Eduardo Neves, o investimento em pesquisas que incrementem a produção, seja da palha ou da cera, já acontecem. A Embrapa é uma das empresas que realizam hoje duas pesquisas na área. Uma delas é para produção de uma parafina natural feita essencialmente da cera de carnaúba. Segundo Neves, muitos produtos, como o batom e remédios, utilizam a cera apenas como um composto, e não há produtos que tenham a cera como componente principal.
Na outra pesquisa, a Embrapa Caprinos, de Sobral, estuda a possibilidade de melhoramento da bagana da planta, para uso na alimentação de animais, principalmente no período de estiagem. Já em outro projeto, está sendo experimentado um secador solar para palha da carnaúba. Tecnologia que faz com que o aproveitamento na extração seja superior a 100%. Conforme Neves, com a técnica de secagem e extração atual, mais de 40% do pó se perde. Ainda no mesmo projeto, está sendo testado a produção de celulose da carnaúba para produção de um papel artesanal. Esse projeto, adianta o secretário executivo, já está sendo implementado em 12 municípios do Ceará.
“A tecnologia e a pesquisa são necessárias para gerar um aumento da produtividade e reduzir os custos para o produtor”, explica Eduardo Neves. Para ele, a cadeia precisa se modernizar. Como esclarece, a Carnaúba é extrativista e renovável, de onde mais se tira, mais cresce. Segundo Neves, cerca de 150 mil pessoas vivem dos produtos da carnaúba no Ceará. (C.V.)
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| Fonte: Diário
do Nordeste |
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