:: 04.05.02 :: |
| Produtores de Cera da carnaúba agonizam |
É impressionante a falta de sensibilidade de alguns segmentos governamentais com relação aos produtores de cera de carnaúba do Nordeste Bergson Farias É impressionante a falta de sensibilidade de alguns segmentos governamentais com relação aos produtores de cera de carnaúba do Nordeste - um setor que já produziu muitas riquezas para a região, mas agoniza devido à falta de uma política de incentivos para seu desenvolvimento sustentável. Os produtores se queixam da crise que atinge o setor e buscam junto às autoridades governamentais ações efetivas para retomar o crescimento. O Sindicato dos Produtores de Cera de Carnaúba do Ceará, com o apoio do Deputado Roberto Pessoa, tentam marcar audiência pública com o Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e outras autoridades envolvidas no processo com o objetivo de encontrar uma solução para o problema. A carnaúba pode ser encontrada em várias partes do mundo. Entretanto, o clima seco e úmido da Região Nordeste favorece sua cultura, principalmente nos estados do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte. Países como Alemanha, Índia, Japão e Estados Unidos têm investido na tentativa de cultivar essa palmeira em virtude da importância da cera extraída de suas folhas. O aproveitamento da carnaúba é múltiplo e integral. Suas folhas são utilizadas na confecção de chapéus, bolsas e tapetes comercializados no país e no exterior. Em época de estiagem, seu fruto serve de alimento tanto para consumo humano como animal. A carnaúba também é utilizada na construção de casas para o sertanejo, fabricação de cosméticos e, atualmente, contribui para o avanço tecnológico, sendo usada no revestimento de chipes de computadores. Com vasta aplicação industrial, a cera da carnaúba também é aproveitada na embalagem de medicamentos, como cera polidora de automóveis, calçados, vernizes, cosméticos, filmes fotográficos e papel carbono, entre outras. A consciência dos tempos modernos nos exige maior preocupação com a preservação do ecossistema. Nesse sentido, é importante destacar que a obtenção da cera da carnaúba não agride o meio ambiente, pois as folhas extraídas na colheita renascem na safra seguinte. Vale lembrar também que no passado, a produção do pó cerífero contava com o incentivo do governo na aquisição, armazenagem e comercialização em períodos de safra desfavorável, sem prejuízo para nenhuma das partes. Pode-se exemplificar a crise atual do setor da seguinte forma: 1 libra/peso (medida como é vendida internacionalmente o produto que corresponde a 454g da cera tipo 3, mais comercializada, em 1995, era vendida pelas indústrias cearenses a U$ 4; em 1999/2000, por U$ 1,50; atualmente os importadores impõe U$ 0,75. A situação é difícil e os produtores se submetem a força do mercado, pois têm compromissos sociais a honrar com sua folha de pagamentos. Por outro lado, há aqueles que não suportam a pressão e a forte desvalorização nos preços e fecham suas portas. Alguns endividados, outros não. É preciso dizer que o fechamento dessas indústrias no Ceará, no Piauí e no Rio Grande do Norte, intensifica problemas sociais como o êxodo rural, fenômeno que contribui para o aumento do desemprego nas grandes cidades. Os produtores querem que o governo atual financiem o pó cerífero. Na época dos governos de Geisel e Figueiredo, havia a Cibrazem, órgão que tinha armazéns nos principais centros das cidades que produziam a cera. "O governo comprava o pó do produtor na safra e vendia na anti-safra aos exportadores através de leilões na Bolsa de Valores Regional. O presidente do Sindicato dos Produtores de Cera de Carnaúba do Ceará, Carlos Augusto Almada, denuncia: o importadores - geralmente dos países ricos - sabem que o produtor está falido e o empresário descapitalizado. "Eles impõe o preço que querem. Nesta hora quando precisamos aumentar as exportações, o nosso país está perdendo divisas vendendo um produto nobre como é a cera da carnaúba por um preço bem inferior ao que ela realmente vale". E diz mais: com apenas R$ 100 milhões, daria
para o governo comprar e financiar toda a safra que é de aproximadamente
25 mil kilos de pó cerífero no período da safra que
vai de setembro a dezembro. Nesses quatro meses, os estados produtores
empregam cerca de 100 mil trabalhadores rurais. "Se houvesse um incentivo
e ajuda do governo, surgiriam no ano todo 200 mil postos de trabalho,
o que diminuiria o êxodo rural, a fome e a miséria do sertanejo",
assegura. É preciso ampliar a discussão sobre o tema com
a perspectiva de propor medidas que possam revitalizar a cultura da carnaúba
na Região Nordeste. |
| Fonte: Jornal “O Povo” |