Trechos da entrevista concedida em dezembro de 2001 ao jornal
“Brasil de fato”.
P- Professor Celso Furtado, quais são os problemas
fundamentais da sociedade brasileira atual?
CF - O primeiro desafio é dar prioridade ao problema social e
não ao problema econômico. Os problemas econômicos
são aqueles que os economistas sabem equacionar razoavelmente,
se bem que tropecem com a idéia de que são problemas macro
ou micro, e às vezes raciocinam no plano micro e inferem soluções
no plano macro, o que faz com que seja tão difícil sair
de certas situações. Mas não creio que seja somente
por isso. O Brasil investiu muito e criou um sistema industrial dos
mais poderosos do mundo, sendo hoje uma economia que pesa no sistema
de decisões. Por outro lado, tem graves limitações.
A capacidade de se autodirigir, criar o seu próprio destino é
muito limitada, e isso tem a ver com o social e não com o econômico.
Se o Brasil partir da identificação dos problemas sociais,
conseguirá criar um tipo novo de opinião pública.
P - O senhor é considerado o mestre de todos
que sonhavam com um projeto nacional. Hoje, que contornos teria um projeto
nacional?
CF - Primeiramente teríamos de discutir, identificar o espaço
que existe para um projeto nacional, pois não basta falar em
projeto nacional, é preciso saber aonde se quer chegar. Um verdadeiro
projeto nacional tem de partir do social, mobilizar as forças
sociais, identificar os problemas que afligem a população,
e em primeiro lugar o sofrimento desses milhões de pessoas que
passam fome. Este é o maior drama da sociedade brasileira, que
se tentou ocultar por tanto tempo, até o dia em que se descobriu
que 50 milhões de brasileiros não ganham o suficiente
para matar a fome. Vamos percebendo que o Brasil é um país
de construção inacabada. Temos uma imensa dívida
externa, que tem de ser paga. Comparada com a de outros países,
nossa dívida não é tão grande, mas é
grande em relação à capacidade do Brasil de servi-la,
que é muito limitada...
P - Reduz-se a possibilidade de se autogovernar.
CF - Exato. Mas só se pode mudar esse quadro mudando o projeto
social, o estilo de desenvolvimento. Creio que as pessoas já
estão compreendendo. Fico pensando o que levou o Brasil a essa
situação. Recordo-me de que, na época em que tive
alguma importância no país, quando escrevia e era muito
lido, particularmente nos anos 50, ao publicar Formação
econômica do Brasil - livro que levou muita gente a “descobrir”
o Brasil --, tínhamos a idéia de que, se conseguíssemos
atingir certo grau de desenvolvimento industrial, de desenvolvimento
econômico propriamente dito, ganharíamos autonomia. O país
daria o salto enorme que significa sair de uma situação
de dependência econômica para uma de autêntica independência.
Era nada menos do que isso que estava em jogo. Foi nos anos 50, quando
houve o debate sobre Brasília etc, e que o país viveu
o seu período mais intenso de construção política,
de renovação do pensamento.A história do Brasil
tem um período extraordinariamente significativo, que vai do
fim do primeiro governo de Vargas até o começo da ditadura
militar, cerca de vinte anos. Foi uma ebulição política
na qual todas as idéias vieram a debate. Era empolgante,o país
se industrializando, se transformando, incorporando massas de população
à sociedade moderna. E grande parte disso veio abaixo. Não
porque a economia brasileira deixou de crescer, ao contrário,
houve anos em que o Brasil cresceu mais ainda, mas porque mudou o estilo
de desenvolvimento, e desapareceram as forças sociais que estavam
presentes. Hoje, eu me pergunto: o que fazer para tirar o Brasil desse
marasmo? Começamos enfim a sair dele, com essa promessa de que
haverá um país pensando nos seus problemas reais, nos
seus problemas sociais.
P - Que papel cabe à intelectualidade nessa
abertura de novos horizontes?
CF - Há bastante reflexão no Brasil sobre esses problemas.
Chega-se numa universidade e logo se é convidado para fazer um
debate com os estudantes. E todos estão mobilizados e preocupados
em entender os problemas. Mas não há propriamente repercussão.
A reflexão não se desdobra em ações. É
grande a distância entre o que se faz na universidade e o que
se faz na sociedade. Há também uma pobreza muito grande
no debate sobre a questão econômica, na abordagem de problemas
econômicos e sociais, naturalmente.
P - Na Universidade, diz-se que a reforma agrária
é importante, mas é uma política, digamos, compensatória,
secundária. Qual a importância da reforma agrária
para a construção da nação, para o desenvolvimento
nacional?
CF - Houve uma mudança muito grande nesse aspecto, porque a verdade
é que no passado a agricultura era a grande criadora de emprego.
Hoje não é mais. Nem no Brasil, nem em parte alguma. No
Brasil, nos últimos três anos, 5 milhões de pessoas
saíram do campo, o que mostra que o campo não cria emprego
nesse modelo. Não temos mais aquela agricultura mista, criadora
de emprego. A agricultura se mecanizou, se modernizou. A agricultura
só cria desemprego, mas, por outro lado, o mundo urbano não
cria emprego, ou cria pouco. Temos, então, um impasse, essencialmente
social. Do ponto de vista econômico, a agricultura está
bastante bem, os setores urbanos organizados vão se equilibrando,
mas do ponto de vista social vemos uma degradação de toda
essa parcela da sociedade que vive na beira das estradas, ou dorme debaixo
das pontes. É uma coisa vergonhosa! A doença brasileira
é muito grave, mas é social, pois deriva da incapacidade
de adaptar sua população às tecnologias modernas
a fim de continuarmos avançando economicamente.
P -- Como criar emprego hoje na cidade?
CF - Trata-se de saber que possibilidades existem de se criar emprego
de boa produtividade, que assegure a subsistência. Já trabalhei
sobre isso, e penso o seguinte: o Brasil terá de pensar numa
sociedade diferente, em empregos diferentes. Por exemplo, por que não
fixar muito mais população no campo, por meio da criação
de empregos industriais? Se você interioriza a indústria,
reforça o sistema econômico do país, em vez de fragilizá-lo.
Não é criar emprego por criar, sem nenhum sentido econômico.
A economia tem suas exigências. Veja-se lá no interior
do Nordeste, onde tem tanta gente desempregada, mas vivendo com uma
pequena subvenção. Instala-se, assim, uma cultura da miséria,
da mendicância, da semi-miséria. E isso é um crime
num país tão rico, com tanto potencial, com tanta terra,
mas onde não se planta. E como transformar a agricultura numa
agricultura viável para uma sociedade com demanda diferente?
Esse é o desafio. Investir no campo com critério e habilidade
pode criar manchas novas na economia moderna no Brasil, de um tipo novo.
Vi em países da Escandinávia como o mundo rural sobrevive.
Não é propriamente uma economia “primária”,
pois ali se criam milhares de empregos dos setores secundário
e terciário, como a agroindústria, o turismo rural, etc.
P - Uma de suas grandes lições é
como aproveitar o progresso técnico para o desenvolvimento nacional.
É possível ser diferente na ordem global?
CF - Não se trata de ser diferente, trata-se de ser racional.
A ordem global é uma coisa, a ordem de cada país é
outra. Queiramos ou não, haverá uma ordem para cada país.
Mas como será administrada? Internamente ou segundo a programação
estabelecida lá fora? Todos os países têm seus próprios
problemas, a começar pelos Estados Unidos, como demonstra o cuidado
que têm em proteger suas indústrias. O Brasil tem, como
os outros, características próprias. É um país
com uma grande massa de subemprego, um enorme potencial de recursos
naturais não utilizados, um Estado com certa tradição
de exercer o poder. Dadas essas circunstâncias, esses fatos concretos,
cabe-nos definir um rumo para o nosso país.
P - Qual a sua opinião sobre a OMC?
CF - A Organização Mundial do Comércio é
importante. Não se pode imaginar que o mundo caminhe senão
no sentido de desenvolver formas de cooperação. Mas essa
cooperação deve, em primeiro lugar, se dar no âmbito
das Nações Unidas. Mas até hoje essa organização
é muito conflitiva, há grandes interesses contraditórios
dentro dela. É evidente que muitos países não querem
ceder a autonomia de decisão que têm hoje. O próprio
Brasil resiste. Mas, ao mesmo tempo, quer avançar em certas áreas
que seriam importantes. Tem-se essa situação curiosa de
cada país precisando avançar e recuar, fazer concessões.
Qual será a evolução a longo prazo? Mais provavelmente
vamos prosseguir na administração de algo imperfeito,
que é o sistema de mercado controlado. Portanto, temos de aceitar
a idéia de participar dessa organização, mas com
poder de decisão, para preservar nossa própria autonomia.
P - A era do dólar como moeda está
chegando ao fim?
CF- Está ameaçada. É possível que os americanos
se corrijam, compreendam isso e estabeleçam um outro sistema
de relações internacionais. Eles têm muito poder.
Mas reconhecemos que quem cresce mesmo na economia internacional é
a China. A China foi que mais cresceu nos últimos anos e hoje
é de longe o maior centro de atração de capitais
internacionais. Outro país que também tem muita importância
é a Índia. Então, o poder está se distribuindo,
o que é um bom sinal. Há um mistério: o Japão,
uma economia enorme, mas sem dinamismo. É que durante muito tempo
se beneficiou, para crescer, de um espaço vazio que havia no
sudeste da Ásia. Aí foi fácil crescer e expandir
enormemente seu comércio internacional. Mas hoje os países
dessa região estão meio saturados de investimento japonês.
O Japão não tem mais onde colocar o dinheiro. Há
vários anos vem crescendo pouco, nem parece mais a economia japonesa
do passado.
P - No livro “Brasil, a construção
interrompida”, o senhor termina um capítulo dizendo que
é a hora e a vez do Brasil, que estamos num momento de decisões
fundamentais. Como essa afirmação se traduz em mudanças
concretas para o povo?
CF - A primeira questão que eu privilegiaria é a
criação de emprego, bem como a a eliminação
da fome endêmica pela integração ao sistema produtivo
dessa população que hoje é marginal. Há
muitos passos fundamentais a dar. O Nordeste tem hoje uma capacidade
de exportação bastante grande, o que pode beneficiar todo
o Brasil. Cabe uma compensação em troca disso? É
uma questão a ser debatida. E assim por diante. A luz que tem
de iluminar tudo é a idéia de que queremos uma sociedade
em que o homem tenha trabalho e possibilidade de abrir o seu caminho
por conta própria.