Roberto Macêdo
O debate sobre a construção de um estaleiro na Praia do Titanzinho precisa considerar, antes de tudo, a importância estratégica desse projeto para o desenvolvimento do Ceará. Não pode haver qualquer dúvida sobre a sua necessidade. Eventuais carências no projeto apresentado não devem ser apontadas como obstáculos à sua execução, mas apenas como tarefas a serem cumpridas para a sua viabilização, de modo a minimizar qualquer impacto negativo sobre a vida da cidade. A dimensão estratégica a que me refiro decorre, entre outros, do fato de que 95% do comércio mundial é realizado por via marítima ou por hidrovias, dependendo, portanto, da produção contínua de navios dos mais variados portes e tipos. Essa relevância torna-se assustadora quando se observa que mais de 70% da produção mundial de navios está concentrada na pequena área geográfica circunscrita ao litoral chinês, sul-coreano e japonês.
Na economia naval do mundo, o Brasil representa hoje menos de 1%, o que significa que existe um enorme potencial para a indústria de construção de navios no nosso País e, nela, o Nordeste, enquanto esquina continental, tem tudo para ocupar uma posição de destaque. Para se ter uma ideia da consistência desta oportunidade, basta que se considerem as estimativas de investimentos em navios relacionados à indústria petrolífera, no montante de cerca de R$ 20 bilhões, com garantia de utilização de pelo menos 65% de componentes nacionais na fabricação dessas embarcações.
Para nós, cearenses, iniciar imediatamente o desenvolvimento de uma indústria naval com um estaleiro de médio porte é lançar uma plataforma de integração com o projeto da siderúrgica do Pecém. Se fizermos o uso correto do tempo, agilizando a construção do estaleiro do Titanzinho, quando a Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP) estiver na segunda etapa do seu projeto, tendo evoluído da produção de placas para a de chapas de aço, já estaremos preparados para avançar no processo de construção naval, em outros pontos do nosso litoral, fabricando navios de grande porte. Quando isto ocorrer já teremos o domínio de parte da tecnologia e mão de obra qualificada.
Em apresentação feita na Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), no dia 18 de fevereiro, pelo presidente da Agência de Desenvolvimento do Ceará (Adece), Antônio Balhmann, os industriais cearenses tiveram a oportunidade de conhecer dados e fundamentos que justificam o propósito do governador Cid Gomes, quando defende, com muita determinação, que o Ceará não pode perder a oportunidade de construção desse estaleiro na Praia do Titanzinho, sobretudo porque, diante das demandas do Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef ), da Petrobras, os investidores estão prontos para concretizar o empreendimento.
É certo que teremos que encontrar soluções para a mobilidade urbana, pois além das interferências que advirão do estaleiro teremos aquelas resultantes do aumento do fluxo do turismo por via marítima, decorrente da construção da nova estação de passageiros, e do maior volume de cargas, por conta do natural crescimento das exportações e importações, através do Porto do Mucuripe.
Do ponto de vista do turismo, do meio ambiente e do visual da nossa Fortaleza, não teremos prejuízos insuperáveis com a construção do estaleiro do Titanzinho. Pelo contrário, a pujança de indústrias limpas em uma cidade pode ser bem vista pelos que nela moram e pelos que a visitam. Além disso, a construção do estaleiro enseja que Estado e Município se unam em ações de urbanização que resolvam os graves problemas há tanto tempo sofridos pela comunidade do Serviluz.
Roberto Macêdo - Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec)