:: 29.06.03 ::

Falta uma elite de gestão no Brasil (III)
Cleber Aquino

Cleber Aquino é Professor da USP

Terminei o artigo, domingo, 14 de junho, dizendo: ''O único problema da empresa é de gestão. As demais mazelas são conseqüências''

E, acrescentei: ''No Brasil não há preparação eficaz de Executivos profissionais''. Hoje, comentarei alguns bloqueios na capacitação de um quadro diretivo, habilitado a assegurar o êxito do parque empresarial. Com exceção de casos isolados, todos os setores da economia estão em dificuldades e uma das razões é a péssima qualidade das elites e da administração. Assim, o enorme desafio é a sucessão, formação e desenvolvimento de ''novas'' lideranças e gestores, na medida em que ocorre a transição do Brasil a maturidade institucional e das empresas familiares a segunda, a terceira e a quarta geração, períodos críticos de sobrevivência, de profissionalização, separando a propriedade da gestão, sob pena delas implodirem.

Por que o Brasil é tão pobre de executivos, não chegando a quinze, parte atuando no exterior e o restante nos grandes centros, mormente, em São Paulo? Por que a elite é da pior qualidade, responsável pela miséria da maioria do povo? Até início do século XX, não tivemos empresas, as poucas existentes desapareceram. Quatrocentos anos de monocultura, de um lado o senhor feudal, do outro os escravos e no meio deles, produtos lucrativos de fácil comercialização. Tanta moleza que o BNDES publicou estudo acusando empresas de não saberem exportar. Na monocultura, os homens de família não trabalhavam. Ficavam na rede, não faziam nada, nem sequer conheciam a agricultura. Tinham capatazes, negros, dando duro e os fazendeiros encantados com a montanha de dinheiro e a vida fútil.

O poder no Império concentrado nos latifundiários, dos barões do café, da borracha, cacau, etc. Machado de Assis, analisando os costumes do Rio de Janeiro, não fala de empresário, apenas de funcionários públicos, homens ricos, escritores. O solitário Barão de Mauá quebrou, não teve apoio do Imperador. Pelo contrário foi perseguido, porque queria realizar, empreender. Os barões do cacau, em Ilhéus, sul da Bahia, dormiam até o meio dia, a tarde beber no Versúvio, a noite dançar no Bataclan com prostitutas importadas, final de semana, férias, no Rio, na Europa, especialmente Paris. A instrução da elite daquela época era literária, um pouco jurídica, nada de empresa e referente ao Brasil, produzindo uma geração de alienados, de conversadores e não de fazedores.

O século XX, também nocivo a preparação de uma elite empresarial, incluindo-se os executivos e a liderança política. Desde 1930, fruto da revolução do Getúlio Vargas, predominaram as estatais, a fortíssima interferência governamental na incipiente industrialização. Em 45, após a queda do Getúlio, assume, o Gal. Dutra, figura apagada que nem sabia o que era empresa, uma continuidade medíocre do GV. E mandado pela D. Santinha sua esposa. Em 1956, a invasão das multinacionais, porque o JK, no sonho de desenvolver o Brasil 50 anos em cinco e sem acreditar no empresariado, recorreu ao capital estrangeiro. Nesse rumo, executivos importados, negócios girando em torno do governo, usufruindo de subsídios e mercados protegidos, não ensejando aos dirigentes serem desafiados, isso sem falar nos lucros financeiros fáceis oriundos da inflação, da sonegação.

A revolução de 1964, sufocou a iniciativa privada, os militares realizaram o movimento com a UDN, partido conservador atrelado as elites agrárias e ao Poder dominante. Só no governo Geisel foram criadas umas 600 estatais e os generais de 64, carregavam a visão do tenentismo e getulismo (década de 30), ou seja, descrentes do empresariado. Herança ainda presente, apesar do esforço da privatização e de se injetar no País a mentalidade do empreendedorismo, mesmo com o Lula aumentando o Estado por causa de sua estratégia de conciliação. Assim, brotaram lideranças anti-iniciativa privada, inexpressivas, ancoradas em organizações imaturas nas quais predominavam - e, continua predominando - a voz dos Donos do Poder (Vide Raimundo Faoro), do Presidente da República, enfim dos chefões, gerando uma Administração (pública e privada), sem autonomia.

E, conseqüentemente, os executivos sem estímulos ao aprendizado e com baixa estima, limitando-se ao salário no final do mês, fazendo a dramaturgia da ineficiência, legitimar seu papel e mordomias. Por outro lado, os gestores não foram educados ao mundo dos negócios, muito menos para a competitividade e a enfrentar as ameaças da vida, a começar pela educação familiar: o excesso de paternalismo, domínio dos genitores plantando a semente da imaturidade no futuro administrador, tornando-o inseguro e sem iniciativa diante das turbulências do entorno e da agressividade da concorrência. Os pais impedem o crescimento, desenvolvimento, autonomia e maturidade dos filhos, pois, politicamente, é mais conveniente a eles. E, tudo isso, em nome de um pseudo amor.

Acrescente-se ao fato do executivo atuar num Brasil maravilhoso, imenso litoral (no Ceará 600 quilômetros de praias), clima magnífico, vocacionado ao lazer, sem sofrimentos marcantes, estimulado pelo Hino Nacional, ''deitado eternamente em berço esplêndido'', diferente do Japão, pobre de recursos, pequeno, esmagado em 1945 pelos americanos, restando a eles unicamente: excelência de gestão e de mão de obra, duas carências no Brasil. Em cima dessa geografia, o Brasil é uma eterna festa a começar pelos índios que estavam sempre dançando. Executivos estrangeiros - exceção dos japoneses - lotados aqui, não querem voltar aos países de origem para continuar curtindo as maravilhas desse País, único no planeta a preencher as necessidades informais do ser humano.


No dia da publicação desse artigo, o Nordeste está afogado nas festividades juninas, forrós por todos os lados, julho, mês de férias e carnaval fora de época. Fortaleza terá o Fortal, o mesmo ocorrendo em várias capitais. O segundo semestre uma frustração. Não haverá feriados em dias úteis. A esperança agora, as comemorações natalinas, passagem do ano e em 2004, volta-se a operar depois da Semana Santa, da alta estação e o Carnaval e, outro divertimento, as eleições para as prefeituras e início da sucessão do Lula. E a alegria continua. Nesse contexto, torna-se um executivo laborioso, estudioso, leitor voraz, batalhador, competente, dedicado a empresa (não aos patrões, isso ocorre com freqüência), amante da dureza, adorar desafios é difícil, porém, não é impossível como mostrarei no final desta Série. Afinal, o potencial do brasileiro é um dos melhores do mundo. Apenas bloqueado pelas elites predatórias.

Cair na gandaia é mais motivador. A informalidade, um atrativo maior do que a formalidade estressante dos negócios. Enquanto isso, o Carlos Ghost, Presidente mundial da Nissan, lutando para os empregados tirarem pelo menos 11 dias de férias, uma pista para se entender o Japão, o segundo PIB do mundo, dispondo apenas da motivação, qualidade e patriotismo dos japoneses. Domingo, daqui a 15 dias, continuarei minhas reflexões, porque o Brasil é tão escasso de executivos competitivos, de uma Elite de Gestão e de Liderança.

''Os gestores não foram educados ao mundo dos negócios, muito menos para a competitividade e a enfrentar as ameaças da vida, a começar pela educação familiar: o excesso de paternalismo''

Fonte: O Povo 29.06.03

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