Cleber Aquino é
Professor da USP
Terminei o artigo, domingo, 14 de junho, dizendo: ''O
único problema da empresa é de gestão. As demais
mazelas são conseqüências''
E, acrescentei: ''No Brasil não há preparação
eficaz de Executivos profissionais''. Hoje, comentarei alguns bloqueios
na capacitação de um quadro diretivo, habilitado a assegurar
o êxito do parque empresarial. Com exceção de casos
isolados, todos os setores da economia estão em dificuldades
e uma das razões é a péssima qualidade das elites
e da administração. Assim, o enorme desafio é a
sucessão, formação e desenvolvimento de ''novas''
lideranças e gestores, na medida em que ocorre a transição
do Brasil a maturidade institucional e das empresas familiares a segunda,
a terceira e a quarta geração, períodos críticos
de sobrevivência, de profissionalização, separando
a propriedade da gestão, sob pena delas implodirem.
Por que o Brasil é tão pobre de executivos, não
chegando a quinze, parte atuando no exterior e o restante nos grandes
centros, mormente, em São Paulo? Por que a elite é da
pior qualidade, responsável pela miséria da maioria do
povo? Até início do século XX, não tivemos
empresas, as poucas existentes desapareceram. Quatrocentos anos de monocultura,
de um lado o senhor feudal, do outro os escravos e no meio deles, produtos
lucrativos de fácil comercialização. Tanta moleza
que o BNDES publicou estudo acusando empresas de não saberem
exportar. Na monocultura, os homens de família não trabalhavam.
Ficavam na rede, não faziam nada, nem sequer conheciam a agricultura.
Tinham capatazes, negros, dando duro e os fazendeiros encantados com
a montanha de dinheiro e a vida fútil.
O poder no Império concentrado nos latifundiários, dos
barões do café, da borracha, cacau, etc. Machado de Assis,
analisando os costumes do Rio de Janeiro, não fala de empresário,
apenas de funcionários públicos, homens ricos, escritores.
O solitário Barão de Mauá quebrou, não teve
apoio do Imperador. Pelo contrário foi perseguido, porque queria
realizar, empreender. Os barões do cacau, em Ilhéus, sul
da Bahia, dormiam até o meio dia, a tarde beber no Versúvio,
a noite dançar no Bataclan com prostitutas importadas, final
de semana, férias, no Rio, na Europa, especialmente Paris. A
instrução da elite daquela época era literária,
um pouco jurídica, nada de empresa e referente ao Brasil, produzindo
uma geração de alienados, de conversadores e não
de fazedores.
O século XX, também nocivo a preparação
de uma elite empresarial, incluindo-se os executivos e a liderança
política. Desde 1930, fruto da revolução do Getúlio
Vargas, predominaram as estatais, a fortíssima interferência
governamental na incipiente industrialização. Em 45, após
a queda do Getúlio, assume, o Gal. Dutra, figura apagada que
nem sabia o que era empresa, uma continuidade medíocre do GV.
E mandado pela D. Santinha sua esposa. Em 1956, a invasão das
multinacionais, porque o JK, no sonho de desenvolver o Brasil 50 anos
em cinco e sem acreditar no empresariado, recorreu ao capital estrangeiro.
Nesse rumo, executivos importados, negócios girando em torno
do governo, usufruindo de subsídios e mercados protegidos, não
ensejando aos dirigentes serem desafiados, isso sem falar nos lucros
financeiros fáceis oriundos da inflação, da sonegação.
A revolução de 1964, sufocou a iniciativa privada, os
militares realizaram o movimento com a UDN, partido conservador atrelado
as elites agrárias e ao Poder dominante. Só no governo
Geisel foram criadas umas 600 estatais e os generais de 64, carregavam
a visão do tenentismo e getulismo (década de 30), ou seja,
descrentes do empresariado. Herança ainda presente, apesar do
esforço da privatização e de se injetar no País
a mentalidade do empreendedorismo, mesmo com o Lula aumentando o Estado
por causa de sua estratégia de conciliação. Assim,
brotaram lideranças anti-iniciativa privada, inexpressivas, ancoradas
em organizações imaturas nas quais predominavam - e, continua
predominando - a voz dos Donos do Poder (Vide Raimundo Faoro), do Presidente
da República, enfim dos chefões, gerando uma Administração
(pública e privada), sem autonomia.
E, conseqüentemente, os executivos sem estímulos ao aprendizado
e com baixa estima, limitando-se ao salário no final do mês,
fazendo a dramaturgia da ineficiência, legitimar seu papel e mordomias.
Por outro lado, os gestores não foram educados ao mundo dos negócios,
muito menos para a competitividade e a enfrentar as ameaças da
vida, a começar pela educação familiar: o excesso
de paternalismo, domínio dos genitores plantando a semente da
imaturidade no futuro administrador, tornando-o inseguro e sem iniciativa
diante das turbulências do entorno e da agressividade da concorrência.
Os pais impedem o crescimento, desenvolvimento, autonomia e maturidade
dos filhos, pois, politicamente, é mais conveniente a eles. E,
tudo isso, em nome de um pseudo amor.
Acrescente-se ao fato do executivo atuar num Brasil maravilhoso, imenso
litoral (no Ceará 600 quilômetros de praias), clima magnífico,
vocacionado ao lazer, sem sofrimentos marcantes, estimulado pelo Hino
Nacional, ''deitado eternamente em berço esplêndido'',
diferente do Japão, pobre de recursos, pequeno, esmagado em 1945
pelos americanos, restando a eles unicamente: excelência de gestão
e de mão de obra, duas carências no Brasil. Em cima dessa
geografia, o Brasil é uma eterna festa a começar pelos
índios que estavam sempre dançando. Executivos estrangeiros
- exceção dos japoneses - lotados aqui, não querem
voltar aos países de origem para continuar curtindo as maravilhas
desse País, único no planeta a preencher as necessidades
informais do ser humano.
No dia da publicação desse artigo, o Nordeste está
afogado nas festividades juninas, forrós por todos os lados,
julho, mês de férias e carnaval fora de época. Fortaleza
terá o Fortal, o mesmo ocorrendo em várias capitais. O
segundo semestre uma frustração. Não haverá
feriados em dias úteis. A esperança agora, as comemorações
natalinas, passagem do ano e em 2004, volta-se a operar depois da Semana
Santa, da alta estação e o Carnaval e, outro divertimento,
as eleições para as prefeituras e início da sucessão
do Lula. E a alegria continua. Nesse contexto, torna-se um executivo
laborioso, estudioso, leitor voraz, batalhador, competente, dedicado
a empresa (não aos patrões, isso ocorre com freqüência),
amante da dureza, adorar desafios é difícil, porém,
não é impossível como mostrarei no final desta
Série. Afinal, o potencial do brasileiro é um dos melhores
do mundo. Apenas bloqueado pelas elites predatórias.
Cair na gandaia é mais motivador. A informalidade, um atrativo
maior do que a formalidade estressante dos negócios. Enquanto
isso, o Carlos Ghost, Presidente mundial da Nissan, lutando para os
empregados tirarem pelo menos 11 dias de férias, uma pista para
se entender o Japão, o segundo PIB do mundo, dispondo apenas
da motivação, qualidade e patriotismo dos japoneses. Domingo,
daqui a 15 dias, continuarei minhas reflexões, porque o Brasil
é tão escasso de executivos competitivos, de uma Elite
de Gestão e de Liderança.
''Os gestores não foram educados ao mundo dos negócios,
muito menos para a competitividade e a enfrentar as ameaças da
vida, a começar pela educação familiar: o excesso
de paternalismo''