:: 04.05.03 ::

A Sudene e o Dragão


Alexandre Pereira
Empresário


A solenidade foi pensada para causar impressão. No relançamento da Sudene vieram além de parte do staff do governo federal, o próprio presidente Lula e Celso Furtado, um dos idealizadores do órgão ainda no seu nascimento, em princípio da década de 1960.

O argumento da criação emergiu para justificar seu relançamento. A Sudene seria um instrumento alavancador do desenvolvimento, uma ferramenta de combate à mazela das diferenças regionais.

Um ano solar decorrido e tudo não passou de protocolo de intenção. A Sudene está burocraticamente agonizante. A pompa e as personagens que prestigiaram a solenidade de relançamento fizeram o papel do dragão da cultura chinesa. Impressionam, mas não assustam. Ou, como todo bom factóide, virou manchete sem acontecer. O dinheiro que financiaria empresas, empregos e renda foi parar no caixa dos governos estaduais como compensação por perdas de incentivos fiscais. Ou seja, em vez de financiar desenvolvimento, vai financiar a folha de pagamento dos estados.

Dentro da bancada nordestina no Congresso há quem defenda a recriação da Sudene como mero fórum de discussão. Debater estratégias é importantíssimo. Mas sem ação tudo vira empulhação. E de promessas e metáforas, o Brasil segue capitalizando o superávit primário em detrimento da geração dos empregos prometidos, do crescimento e da redução das desigualdades regionais.

A má conduta no gerenciamento e aplicação do dinheiro - e que motivou o fechamento da Sudene em 2001 - estigmatizou o órgão e, conseqüentemente, jogou no lixo o que foi, em princípio, uma alternativa pensada para fazer frente às desvantagens competitivas do Nordeste em relação ao resto do Brasil. Era o Estado agindo para regular as diferenças. FHC optou por fechar em vez de enfrentar com rigor os que se beneficiaram impropriamente. A Sudene que Lula simulou reabrir era a único olhar lançado pelo governo petista para as bandas de cá. Sem Sudene, sem transposição, e com os recursos federais minguando, o presidente Lula ainda não mostrou ao Nordeste a que seu governo veio.

Alexandre Pereira é empresário e presidente do Centro Industrial do Ceará
 

Fonte: Diário do Nordeste

Voltar