Para o futuro ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio,
não há ilusões. ''O ano de 2003 será de
controle das contas públicas'', adianta Luiz Fernando Furlan,
empresário que, após 40 anos de atividades no setor privado,
insere-se agora no serviço público. Furlan anuncia: ''Agora
há vontade política para as exportações''
Sonia Racy e Mariana Barbosa
da Agência Estado
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O empresário
Luiz Fernando Furlan aceitou ser ministro do governo do PT com
a garantia, dada pelo presidente eleito, Luiz Inácio Lula
da Silva, de que ''pela primeira vez a exportação
passa a ser uma prioridade de governo'' e acreditando que hoje
''existe vontade política'' para isso.
Ele se diz ciente de que 2003 ''será
um ano de controle das contas públicas'' e de que ''o único
meio de dar sustentação à retomada do crescimento
é por meio do mercado externo''. Por isso, assume o Ministério
de Desenvolvimento, Indústria e Comércio disposto
a ''trabalhar a marca Brasil'' e aprofundar iniciativas já
em andamento. ''Tivemos uma mudança substantiva durante
o segundo mandato do governo Fernando Henrique que foi a introdução
de um discurso consistente contra protecionismo''.
O desafio não é fácil.
Ele assumirá um pasta que, rebatizada de Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior no início do
segundo mandato de Fernando Henrique, com status de ''superministério'',
teve três ministros em quatro anos. Por lá passaram
o chanceler Celso Lafer, o empresário Alcides Tápias
e o embaixador Sérgio Amaral. Originalmente, ela havia
sido redesenhada para o tucano Luiz Carlos Mendonça de
Barros, mas este nem chegou a assumir devido ao escândalo
do grampo do BNDES.
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Furlan,
futuro ministro do Desenvolvimento:
"O único meio de dar sustentação a
uma retomada
do crescimento é por meio do mercado externo"
(Foto: Victor Soares/ABr)
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A radical guinada na vida de Furlan, que inicia uma carreira
pública depois de 40 anos no setor privado, 30 dos quais à
frente da Sadia, não surpreende. Ele é um freqüentador
assíduo de colóquios internacionais como o Fórum
Econômico Mundial, em Davos, na Suíça - sempre defendendo
os interesses do Brasil e sempre envolvido com associações
de classe, como a Federação das Indústrias do Estado
de São Paulo (Fiesp), onde pretendia concorrer à sucessão
do atual presidente, Horácio Lafer Piva.
O desligamento total da Sadia - suas ações
estão sendo colocadas em um fundo - e de outros compromissos
privados, como o conselho da Telefonica, ajudarão a suportar
as dificuldades políticas que vierem a surgir para seguir em
frente na vida pública ''sem poder voltar para trás. Nesta
entrevista, a primeira desde o anúncio do ministério,
Furlan fala das suas prioridades para o ministério.
Pergunta - A exportação sempre foi prioridade desse ministério,
ao menos no discurso. Vai continuar?
Luiz Fernando Furlan - A exportação não tem sido
prioridade de governo. Pode ser de um ministério ou secretaria.
Mas a orquestração da equipe nunca trabalhou por metas
de exportação. Agora existe vontade política. Há
um comprometimento dos integrantes do governo Lula de apoiar um esforço
de exportação, de diversificação de produtos
e mercados, de agregação de valor e de engajar pequenas
e médias empresas no esforço exportador.
P - Seus antecessores sempre reclamaram da falta de apoio
político e de recursos. Estavam certos?
Furlan - Como as novas autoridades econômicas prevêem que
2003 será um ano de grande controle das contas públicas,
há uma convicção de que o único meio de
dar sustentação a uma retomada do crescimento é
por meio do mercado externo. Pela primeira vez a exportação
passa a ser uma prioridade de governo. Essa ênfase nas exportações
pode dar certa tranqüilidade durante o ano, permitindo um mínimo
de crescimento enquanto o governo conquista credibilidade perante os
investidores para poder ter melhores condições de recursos.
E quando isso acontecer, acredito que o dólar vai ameaçar
a barreira dos R$ 3.
P - O senhor fez alguma exigência para aceitar
o ministério?
Furlan - Minha única exigência foi respaldo político
para levar adiante as iniciativas que estão sendo confiadas.
O presidente me deu autonomia para formação da equipe
e recomendou a valorizar quadros técnicos do ministério
e do BNDES na composição dos cargos de chefia.
P - Já há alguma definição
para o BNDES?
Furlan - A decisão do BNDES é política e combinamos
que ela será compartilhada entre o presidente e o ministro. O
presidente do BNDES será conhecido no dia 2 de janeiro, juntamente
com o secretário da Câmara de Comércio Exterior.
P - Que mudanças o senhor pretende fazer?
Furlan - Vamos levar adiante iniciativas já em andamento. Não
há nenhum interesse em zerar o que foi feito, mas há várias
iniciativas que precisam ser aprofundadas. Penso que terei uma vantagem
relativa, inicial, por vir do setor, por ter uma experiência de
campo.
P - Há condições econômicas
para isso?
Furlan - Tenho várias idéias que independem de recursos
orçamentários. Uma delas poderia ser a parceria com o
Itamaraty para estabelecer exposições permanentes de produtos
brasileiros em locais estratégicos como fazem Formosa, Coréia,
Cingapura, Estados Unidos e Canadá.
P - De que maneira?
Furlan - Por meio de patrocínios. Eu soube pelo primeiro-ministro
de Cingapura que lá as instituições financeiras
patrocinam esses showrooms por entenderem que eles são geradores
de negócios. No primeiro momento, eles não ganham nada.
Mas depois as empresas utilizam os serviços financeiros do patrocinador.
Será preciso usar a criatividade para promover produtos e melhorar
nossa imagem lá fora. Temos que trabalhar a marca Brasil, o que
já começou a ser feito pelo atual governo. É surpreendente,
mas não temos marcas conhecidas mundialmente. Nossas marcas são
pessoas: Pelé, Tom Jobim. É difícil transformar
isso em negócio. Vamos estabelecer ainda um programa agressivo
de missões comerciais. Vamos trazer compradores de setores específicos,
aproveitando a experiência do setor privado.
P - Como o senhor pretende combater o protecionismo?
Furlan - Já tivemos uma mudança substantiva no segundo
mandato do governo Fernando Henrique, que foi a introdução
de um discurso consistente contra protecionismo de outros países.
Antes, a luta contra o protecionismo não era uma prioridade da
política externa brasileira. Estávamos sempre nos defendendo
daqueles que diziam que o Brasil transgredia regras na Organização
Mundial do Comércio (OMC). Saímos da defensiva e passamos
a ser um acusador do protecionismo dos outros países. Este foi
um processo do qual participei. Conseguimos convencer várias
pessoas dos setores privado e público que deveríamos ser
agressivos no fronte externo, colocando nossas prioridades, ao mesmo
tempo exigindo dos parceiros que diminuíssem suas barreiras.
Não conseguimos grandes progressos aí, mas saímos
da defensiva. Essa política será intensificada. Grandes
compras governamentais, a definição do padrão digital,
tudo isso será usado como barganha para tentar diminuir o protecionismo.
P - O foco do ministério continua sendo a área
externa?
Furlan - Acho que tenho experiência para contribuir nessa área.
Essa será, se não a principal, uma das principais prioridades
do ministério.
P - Haverá necessidade de criar uma secretaria
de Comércio Exterior, como Lula prometeu durante a campanha?
Furlan - As estruturas de comércio exterior vão ficar
dentro do Ministério do Desenvolvimento. Ainda não tenho
proposta de modificação e de formatação
da secretaria. Um tema que me atrai muito é a promoção
comercial, as rodadas de negócios e a inclusão de pequenas
empresas. Pelo que tenho estudado sobre o ministério, não
existe um escaninho para essas coisas. Não se descarta, portanto,
uma adaptação da estrutura para adequação
a nova política.
P - Como será feita a articulação
com o Itamaraty?
Furlan - O Itamaraty deve continuar a ser a ponta negociadora da equipe
de governo, mas a parte de formulação das negociações
e de participação na estratégia passará
a ser mais compartilhada. Devo dizer que considero muito positiva a
minha relação com o Itamaraty. Tenho amizade pessoal com
muitos integrantes do ministério. Inclusive com o futuro ministro,
Celso Amorim. Isso se estende ao novo ministro da Agricultura, Roberto
Rodrigues, com quem vou trabalhar de forma estreita.
P - A falta de uma política industrial tem sido
uma crítica constante da indústria. O País precisa
mesmo de uma política industrial?
Furlan - Não é válido dizer que o Brasil não
tem política industrial. Temos a Zona Franca de Manaus, temos
programa de atração de investimentos em infra-estrutura
e o próprio programa de privatização: são
fragmentos de política industrial.
P - fn45> Mas o senhor defende uma política
industrial de longo prazo, elegendo setores prioritários?
Furlan - Acredito que o governo deve utilizar ferramentas de indução
de política industrial, sim. É ingênuo imaginar
que o mercado vai resolver. Mesmo países considerados liberais
têm instrumentos de política industrial e exercitam isso
com muita freqüência. Mas não significa que devemos
ter uma recaída protecionista. A competição é
estimulante e gera benefícios. Existem graduações
que podem ser conseguidas. Não podemos avançar nas negociações
internacionais e pôr todo o nosso parque de produção
exposto a uma competição predatória de um momento
para outro. Não tenho ainda, porém, uma proposta setorial.
Estou procurando ler relatórios e diagnósticos e entender
casos de setores que foram amplamente reciclados, que se sentiam ameaçados
e que, de repente, deram a volta por cima.
P - O BNDES cumpre seu papel de banco de fomento?
Furlan - O BNDES deve ser um executor de políticas de governo,
não um formulador. Quem formula são o presidente e sua
equipe.
P - Vai haver um choque de iniciativa privada no ministério?
Furlan - Pretendo levar algumas pessoas da iniciativa privada. Mas elas
vão exercer atividades mais de campo do que burocráticas.
P - O diálogo do governo com a iniciativa privada
foi satisfatório no governo FHC?
Furlan - Houve um avanço importante e a participação
dos empresários nas negociações externas se intensificou.
A chamada coalizão empresarial, coordenada pela Confederação
Nacional da Indústria, tem apresentado resultados positivos.
Nas reuniões da Alca, o Brasil também tem tido uma representação
muito coordenada e preparada, diferentemente de outros países
que vão lá sem ter feito um trabalho de base. Mas isso
tem de ser acentuado.
P - Como aconteceu esse convite do PT, sendo o senhor
um representante da Fiesp?
Furlan - Entendi que fui convidado dentro de uma cota pessoal do presidente
no campo dos especialistas. O presidente queria um núcleo de
pessoas que fossem conhecedoras de determinado setor e ao mesmo tempo
tivessem reconhecimento da opinião pública. Nessa cota
entra o Márcio Thomaz Bastos (Justiça), Roberto Rodrigues
e Celso Amorim.
P - Como parte da cota individual de Lula, o sr. teme
alguma ação do PT?
Furlan - Nos contatos que tenho tido com Antônio Palocci e José
Dirceu, tenho sido muito estimulado a levar adiante políticas
de fortalecimento do parque industrial nacional e de exportação.
Só aceitei o convite por haver uma convergência entre o
que pensa o presidente eleito e aquilo que acredito. Sou portanto uma
pessoa da equipe que vai executar política de governo. Não
tenho medo de não ter apoio do PT ou de qualquer outro partido.
P - O que o levou a aceitar esse convite, a deixar para
trás a vida de empresário?
Furlan - São as coincidências e as circunstâncias.
Estou completando 40 anos de trabalho, sendo quase 30 na Sadia. Há
um ano eu venho me preparando para uma outra etapa e isso iria culminar,
em 2004, no meu desligamento da empresa. Meu plano era concorrer à
presidência da Fiesp. A decisão de me desligar da empresa
para ingressar em atividades institucionais já estava amadurecida
na minha cabeça. Ela implica no desligamento de todas as minhas
funções no setor privado. Vou me colocar de corpo inteiro
nesta nova missão que, para mim, é um desafio extraordinário.