:: 18.09.10 ::

Para além das simplificações

"A ordem, a desordem e a organização, e, no seio da organização, o uno e o diverso". Edgar Morin descreve o paradigma da complexidade, abordado neste artigo do Professor Doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ Casemiro Silva Neto

Edgar Morin é um daqueles pensadores que fazem da desestabilização o principal ofício. Suas interpelações se dirigem, sobretudo, a um modelo de pensamento simplificador, do qual ainda parecemos ser legatários. Problematizando ideais como os de “ordem” e “assepsia”, esse pensador nos alerta para a necessidade de compreender o “real” de forma multidimensional, lançando mão – para tanto – da ideia de complexidade.

Para Morin, tal ideia exprime nossa confusão diante de uma tentativa de organizar, de ordenar o “real” de forma simples, que nunca se materializa. A complexidade, assim, se configura como algo que evidencia a mutilação advinda de um modo simplificador de conhecimento. É uma palavra que suporta uma pesada carga semântica por trazer em seu bojo a incerteza e a desordem, não tendo, portanto, as mesmas ambições de um pensamento simples (controlar e dominar o “real”). Ao contrário, visa a relacionar-se com ele, o “real”, de forma dialógica e dentro do âmbito das negociações.

Essa complexidade, que surgiu nos finais dos anos 1960, inspirada na Teoria da Informação, não conduz à eliminação da simplicidade, é importante destacar, ela aparece onde o pensamento simplificador falha. Assim, ela não nega aquilo que põe ordem, clareza, distinção e precisão, apenas ousa compreender a realidade utilizando um saber não parcelado, não fechado, não redutor. O que não quer dizer que advogue para si o direito de torná-la inteligível em sua plenitude, pois, a complexidade é animada pela tensão entre a tentativa de se contemplar a multidimensionalidade dos fenômenos e o reconhecimento do inacabamento, da incompletude de todo o conhecimento. Ela desliga-se e, ao mesmo tempo, religa-se ao seu sentido banal – de complicação, de confusão –, passando a ser algo que combina em si, como sinaliza o próprio Morin, “a ordem, a desordem e a organização, e, no seio da organização, o uno e o diverso”.

A vinda de Edgar Morin ao Ceará, nesse sentido, configura-se como uma excelente oportunidade para se pensar sobre um novo referencial, não significando, com isso, a recusa da realidade de um mundo de “monstros”, mas o voo para outro espaço, onde este mesmo mundo possa ser considerado sob outra ótica, sob uma nova lógica. 

Casemiro Silva Neto é professor do Departamento de Ciências da Informação e do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará. É doutor em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.


Fonte: opovo.com.br

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