:: 18.09.10 ::

Conhecer o conhecimento

Que tipo de conhecimento se procura na atualidade? A obra de Morin convida à reflexão sobre a produção do conhecimento científico, diante da urgência de uma nova racionalidade

Que tipo de conhecimento é requerido pelo contexto atual? A resposta de Edgar Morin a esta questão aparece condensada em Os sete saberes necessários à educação no futuro. Ao aprofundar a visão transdisciplinar da educação, o autor abre espaço à reflexão sobre o paradigma mutilador que orienta a produção do conhecimento científico, diante da urgência de uma nova racionalidade capaz de garantir às futuras gerações um mundo sustentável.

A educação do futuro deve saber o que é conhecer, encarar o fato de ser o conhecimento resultado de reconstruções permanentes, subjetividade, emoções, incertezas racionais, ilusões racionalizadoras etc. Contra erros e ilusões, a atividade racional da mente, a racionalidade, atua corretivamente, pela crítica e autocrítica.

Os diálogos epistemológicos que estão implícitos nas propostas de Morin dizem da necessidade de refletir sobre os fundamentos da ciência moderna e a concepção de mundo desta originada, o que inclui pensar as consequências do processo de fragmentação dos saberes, compartimentados em disciplinas. A hiper especialização que disto se deriva impede de ver que os problemas essenciais da atualidade, como os que dizem respeito às questões ambientais, são globais, planetários, transnacionais e multidimensionais. Por seu turno, os problemas particulares de cada campo do saber, como aqueles que são caros à educação, devem ser remetidos ao contexto no qual as doutrinas, as ideologias dominantes, os determinismos de convicções e crenças submetem os seres humanos ao conformismo cognitivo.

Durante o século XIX e no começo do século XX, se acreditou na promoção de ideias laicas, no triunfo das verdades científicas, racionais e positivas, na evolução necessária e progressiva do mito à razão, da religião à ciência, incluindo o desaparecimento gradual dos mitos bio-antropomórficos e o estreitamento do campo religioso. Para Morin, não foi isso que ocorreu. As teorias científicas comportam em seu núcleo uma zona cega que transforma a ideia em mito. Por isso, quaisquer que sejam as sociedades, todas comportam seus erros e ilusões. Ao serem degradadas mitologias antigas, são criadas e regeneradas outras. Podemos vê-las na experiência afetiva, na arte, na poesia, do mesmo modo que na mitologia do Estado-Nação, no messianismo político e religioso. Além de persistirem e parasitarem as modernas, as formas noológicas antigas adquirem força pelo domínio ideológico. Em síntese, os mitos ideológicos atuam no sentido de reduzir a crença nos mitos e religiões que os precederam, mas, ao mesmo tempo em que são afastados os antigos mitos, são produzidos os neo-mitos, como, por exemplo, os mitos da certeza, da razão e do progresso. À ciência foi atribuída uma missão providencial de conduzir a humanidade na direção da salvação terrestre. Entretanto, depois de 1945, a bomba atômica é o ícone de ameaças maiores que pairam sobre a humanidade; a destruição da Terra-Pátria e da espécie humana.

Morin se refere ao “mito da razão primordial” e à “religião do progresso” para dizer da crença alimentada pela sociedade ocidental de ser dona da racionalidade, vendo só erros, ilusões e atrasos nas outras culturas, que julga sob a medida do seu desempenho tecnológico. A obra moriniana é um convite à reflexão sobre as crenças, fazeres e saberes da sociedade ocidental, que separa o homem da natureza, quando ele é 100% natureza e 100% cultura; tem dificuldade de lidar com a diversidade cultural e a unidade da espécie humana; compreende mal que o homem é sábio e louco, trabalhador e lúdico, empírico e imaginário, econômico e consumista, prosaico e poético; separa problemas e compartimentaliza soluções.

Ninguém, em sã consciência, diria que a ciência moderna, incluindo seus diversos métodos e técnicas, livrou a humanidade de erros e catástrofes. A história não nos é dada a conhecer a priori, a incerteza do futuro nos foi legada. Ainda que tenhamos progredido em tantos aspectos, basta olhar o fenômeno das guerras contemporâneas, seu potencial de destruição, a ameaça de aniquilamento que nelas está implícita, para que comecemos a pensar sobre os saberes, fazeres e “certezas” construídos.

Buscar a lucidez, domesticando e relativizando ideias e teorias, é tarefa primordial da razão, entendida como racionalidade, isto é, dispositivo de diálogo entre a ideia e o real.

É fato que o progresso científico nos conduziu a uma diversificação de possibilidades de inter-relação, mas isto não significa dizer que a incompreensão intelectual e humana, individual e coletiva, não mais se constitua em obstáculo às relações entre indivíduos, grupos e sociedades. A revolução da informação e da comunicação que foi operada em poucas décadas, comparativamente à revolução agrícola e à revolução industrial, tornou mais complexas as estruturas e os problemas sociais, desafiando as possibilidades de apreendê-los, de conjugar aspectos globais e locais que lhes são peculiares, utilizando os métodos tradicionais de análise a de ação legados pela ciência moderna.

Difícil imaginar que estamos preparados para o desafio de lidar com fenômenos cada vez mais multidisciplinares, transversais, multidimensionais e planetários, quando cultivamos saberes desarticulados, compartimentados, estanques. Diante da complexidade, nosso raciocínio permanece analítico, nossa visão de mundo é disciplinar e nossos conhecimentos são de natureza enciclopédica. Continuamos raciocinando linearmente, fragmentando o conhecimento em disciplinas. Conforme a hiper especialização progride, mais o global se fragmenta, o essencial se dissolve, o senso de responsabilidade decai (cada um é responsável por sua parte), a solidariedade se esvai (as pessoas não se imaginam vinculadas entre si, concidadãos). Ademais, os métodos e ferramentas intelectuais inspiradas no século XIX que foram úteis para lidar com um mundo estável, no qual as mesmas causas pareciam produzir os mesmos efeitos, dificultam a percepção do que está “tecido junto”, do complexo. Num mundo em rede, de sistemas emaranhados, os efeitos retroagem sobre as causas, as qualidades forçam a atenção, a interpretação é requerida, a realidade nos é revelada, como uma construção ativa da qual participamos, em inter-relação.

Por isso, Morin entende que a educação do futuro deve ensinar a enfrentar incertezas; estudar as raízes da incompreensão, sua modalidade e efeitos; buscar o conhecimento pertinente, ou seja, aquele capaz de explicitar o contexto que dá sentido às informações, a relação entre o todo e as partes, a indissociabilidade entre ambos. Há uma crise planetária e todo ser humano se vê diante de um destino comum. Habitamos a Terra-Pátria, dividindo espaços com outras espécies. Mobilizar a inteligência geral do educando é condição indispensável à democracia cognitiva. É tarefa primordial da educação do futuro, sem a qual não se pode alimentar a esperança de uma antro-poética, consciência e cidadania planetárias. 

Marinina Gruska Benevides é professora doutora em Sociologia da Uece, psicóloga e coordenadora do Núcleo de Estudos da Complexidade da Universidade


Fonte: opovo.com.br

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