:: 18.09.10 ::

Os Sete Saberes e as urgências de nosso tempo

O desafio da educação do presente está na busca da cidadania planetária. "Hominizar" o homem, protegendo a diversidade, no compromisso de obedecer e guiar a vida

A cada manhã passamos os olhos pelos jornais, hábito que nos conecta ao mundo, ao nosso País, à nossa cidade. As notícias, em sua maior parte, nos assombram e apontam um descompasso entre a paz e a felicidade que almejamos e o que lemos. É como se existisse um espaço a ser preenchido entre a realidade vivida e nossos sonhos de uma sociedade com mais liberdade, igualdade, fraternidade, para lembrar os ideais da Revolução Francesa, que, como sabemos, trouxe essas ideias há mais de dois séculos.

Pois é ainda da França, de Edgar Morin, que nos vem uma obra – Os Sete Saberes necessários à Educação do Futuro, que articula ideias que se propõem a nos auxiliar a repensar a educação, a reformar o pensamento.

Qual a essência dos Sete Saberes?Edgar Morin, seu autor, nos aponta: na educação, trata-se de transformar as informações em conhecimento, de transformar o conhecimento em sabedoria. Desta forma, ele nos faz um convite à compreensão, à busca da lucidez. 

 Voltando às notícias, não será exatamente lucidez o que nos falta? A palavra lucidez tem em sua origem o sentido de iluminar, trazer luz. Os Sete Saberes, acreditamos nós, têm o intuito de iluminar o pensamento, o sentimento, a consciência para encontrarmos caminhos – que não estão a priori traçados – em direção à hominização na humanização, para o acesso à cidadania planetária.

Edgar Morin nos convida, nessa obra, a percebermos as cegueiras e os limites do conhecimento, os erros e ilusões inerentes ao ato de conhecer. Nos alerta para a necessidade de pensarmos globalmente e agirmos localmente, lembrando que é preciso situar as informações e os dados em seu contexto, para que adquiram sentido. Apresenta-nos sua visão da condição humana, múltipla, complexa, englobando a condição cósmica, física, terrestre, e também cultural, social, histórica. Chama-nos a atenção para o que já sabemos: o mundo torna-se cada vez mais um todo e o que ameaça um povo, ameaça a todos nós. Habitamos a mesma biosfera e somos todos responsáveis pela manutenção da unidade e da diversidade humana.

Em tempos de comunicação acelerada pelas tecnologias da informação, percebemos que a comunicação não traz em si a compreensão. Eis um grande papel da educação: ensinar a compreensão entre as pessoas como condição e garantia da solidariedade intelectual e moral da humanidade. A conjunção das incompreensões, a intelectual e a humana, a individual e a coletiva, diz-nos Morin, constitui obstáculos maiores para a melhoria das relações entre indivíduos, grupos, povos e nações.

Com a consciência de que o progresso é possível, mas incerto; que o novo, por ser novo, não pode ser previsto, com Morin nos sentimos imersos numa aventura desconhecida. Segundo ele, a humanidade deixou de constituir uma noção apenas biológica e deve ser, ao mesmo tempo, plenamente reconhecida em sua inclusão indissociável na biosfera; a Humanidade deixou de constituir uma noção sem raízes: está enraizada em uma “Pátria”, a Terra, e a Terra é uma Pátria em perigo.

Eis o desafio da educação do presente. Na busca da cidadania planetária, hominizar o homem, por uma ética pela vida, resguardando e protegendo a diversidade, no compromisso de efetuar a dupla pilotagem do planeta: obedecer à vida, guiar a vida. 

Rosamaria de Medeiros Arnt é pós-doutora pela Universidade de Barcelona; doutora em Educação pela PUC (SP). Pesquisadora do CNPq do grupo de pesquisa Ecotransd: ecologia dos saberes, transdisciplinaridade e educação. Professora visitante da Uece.


Fonte: opovo.com.br

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