:: 23.12.2002 :: |
| Potência e Energia |
"Por definição a potência é a capacidade de produção de energia por unidade de tempo enquanto energia é a capacidade de realizar algum trabalho ao longo do tempo" João Carlos Cascaes, Colunistas A mídia técnica é perigosa e fácil de enganar os leigos, quando aplicada de forma inadequada. Sem maiores dificuldades pode-se criar expectativas falsas, criando imagens incorretas de processos ou decisões importantes. Os erros terminam facilmente em prejuízos proporcionais à responsabilidade do objeto afetado. No setor elétrico vimos, ouvimos e acabamos sentindo na pele o equívoco de se confundir potência com energia. Insistentemente autoridades de imensa responsabilidade fizeram discursos e autorizaram "releases", que diziam que o Brasil ganhava mais e mais megawatts. Não diziam quanto isso significava em energia, o resultado foi o racionamento que pesou no bolso e nos empregos dos brasileiros. Temos máquinas, existem muitas usinas no Brasil, somando-as teremos potência mais que suficiente para atender nossas cargas se dentro dos reservatórios tivermos água e no pátio das termoelétricas existir combustível suficiente para produzir energia, que o Brasil consome para a produção do que precisa. O problema é que as centrais geradoras de energia têm limitações na produção dos quilowatts hora que consumimos. O volume (útil) de água que as barragens retêm é equivalente à energia que poderão produzir. Isso significa que durante períodos de estiagem essa água desaparece, deixando-nos com os geradores parados. A maioria das centrais hidroelétricas retém pouca água, são sustentadas por reservatórios pequenos. As termoelétricas, por sua vez, dependem mais da taxa de falhas do que de São Pedro. Precisam de garantia de abastecimento de combustível. Geram, eventualmente, a dependência da importação de carvão, gás, petróleo, urânio etc. Essa fragilidade já produziu muitas guerras. Os países mais fortes não gostam de depender de nações eventualmente situadas em algum "eixo do mal". Felizmente ainda não tivemos que declarar guerra à Bolívia... A moda agora é o aerogerador. Poderemos ter uma quantidade imensa de centrais de produção de eletricidade a partir dos ventos; são caras e dependem da constância do vento. Mais uma vez sentimos a diferença entre energia e potência. A capacidade das fontes de energia, que dependem de fatores aleatórios para a produção básica, oferece números muito diferentes quando analisamos seu potencial instantâneo ou ao longo do tempo. Por definição a potência é a capacidade de produção de energia por unidade de tempo enquanto energia é a capacidade de realizar algum trabalho ao longo do tempo. Assim poderemos ter máquinas enormes trabalhando por algumas horas ou dias à plena capacidade e tê-las, em seguida, paradas por muito tempo enquanto seus reservatórios se recuperam ou esperam a volta dos ventos ou carregamento de combustíveis. Não podemos errar quando falamos de eletricidade. Qualquer eletricista sabe que não se erra incólume muitas vezes. Os elétrons são nervosos e agressivos. Talvez por isso não respeitem deputados, senadores, ministros e presidentes quando criam leis pouco inteligentes para a organização do setor de energia elétrica. O resultado da desinteligência apareceu na Flórida, Argentina e Brasil, criando falhas imperdoáveis. O Partido dos Trabalhadores tem profissionais excepcionais. No setor elétrico conta com pessoas de altíssimo padrão e de inteligência respeitada. As mudanças de comando deverão ter grandes reflexos na política energética brasileira. Vamos torcer para, pelo menos, termos gente com poder e capaz de discernir entre potência e energia. João
Carlos Cascaes é consultor e ex-presidente da Copel (Companhia Paranaense
de Energia) |
| Fonte: Do Canal Energia 23/12/2002 |