:: 20.12.03 ::

Biodiesel e o resgate do mérito


João Bosco Furtado Arruda
Professor

A política para ciência e tecnologia do governo Lula tem mostrado que existe a consciência da necessidade de se resgatar anos de dependência tecnológica de nosso país em relação aos países ricos

O editorial do O POVO, de 24/10, discute de forma clara um problema que tem ocorrido nas últimas décadas no Brasil e em outros países não desenvolvidos: a indiferença ao esforço de pesquisa e o descaso com iniciativas e produtos desenvolvidos por cientistas nativos. Ao relatar a importância do biodiesel e ressaltar a saga de seu criador, o eminente professor e pesquisador Expedito Parente - que publicou o irônico livro Uma Aventura Tecnológica em um País Engraçado - O POVO mostra estar realmente engajado no processo de construção da sobrevivência com sustentabilidade em plagas nordestinas.

Quem milita na universidade em países como o Brasil tem alta probabilidade de estar sujeito a várias formas de desprezo e impedâncias ao seu trabalho por parte de colegas, autoridades e membros da classe empresarial - os donos do poder e do vil metal, sem o qual muitos projetos de excelência científica e tecnológica, inovadores e vitais ao desenvolvimento sustentável de suas regiões, não saem do papel.

Nas duas últimas décadas no Brasil (denominadas ''perdidas'' por vários analistas), tem sido comum a desilusão de pesquisadores, principalmente das regiões pobres que não têm incentivo ou apoio, apesar de dispensarem inúmeras horas de suas vidas em busca de soluções para os problemas que subjazem à necessidade de sobrevivência com qualidade de vida e compromisso com as futuras gerações.

Isso é tanto mais grave quanto se sabe da evasão de cérebros dos países pobres do Sul para os ricos do Norte, em especial para os EUA. Quantos dentre os cientistas da Nasa (a agência espacial dos Estados Unidos) são americanos de origem? São incontáveis os casos de cientistas, cuja formação foram bancados por seus países e, quando estão no potencial ótimo de produção, recebem excelentes ofertas de trabalho, irrecusáveis para aqueles cujo compromisso ético com suas origens nativas são frágeis o suficiente para optarem pelo canto da sereia.

A política para ciência e tecnologia do governo Lula tem mostrado que existe a consciência da necessidade de se resgatar anos de intensificação da dependência tecnológica de nosso país em relação aos países ricos. A dificuldade está em resolver o ingente problema da dependência financeira (dívidas) que se alimenta das (e traz a reboque) as demais dependências: a tecnológica, a política e a cultural. Não foi sem razão que Foster Dulles, secretário de Estado Americano em 1948, disse que a nova forma de perpetuação da colonização se dava pela dependência econômica; não era, já então, preciso invadir e ocupar as colônias com homens e armas.

A saga do professor Expedito Parente, que perdeu a patente do biodiesel pelo descaso para com o fruto de seu magnífico trabalho, demonstra o que tem sido, infelizmente, regra, em vez de exceção, no nosso país e explica o fosso crescente da nossa dependência em relação aos países ricos. A armadilha da dívida é também a armadilha tecnológica.

Que o reconhecimento da importância do biodiesel da mamona para o desenvolvimento sustentável do semi-árido, já sinalizado por ações dos governos federal e estadual, possa servir de primeiro passo para a valorização dos verdadeiramente produtivos membros da Academia nativa.

João Bosco Furtado Arruda é professor titular da Universidade Federal do Ceará (UFC)

Fonte: O povo

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