:: 09.11.08 ::

Petrobras vai duplicar produção em terra

Estatal reforça a exploração terrestre, com perfuração de 120 a 130 poços por ano, em Fazenda Belém, no Ceará

Cavalinhos de pau trabalham 24 horas em Fazenda Belém, limite dos municípios de Aracati e Icapuí (Foto: Thiago Gaspar)

Icapuí. Apesar da euforia provocada pelo anúncio da descoberta de imensas reservas de petróleo em águas cada vez mais profundas, a Petrobras não relegou ao segundo plano sua atuação em terra firme. O Ceará faz parte da estatística de produção dos poços terrestres, com os campos de Fazenda Belém, localidade na divisa dos municípios de Aracati e Icapuí, a leste de Fortaleza.

"Trata-se de um dos maiores campos na área terrestre, e nós estamos iniciando um processo que busca a ampliação da sua produção", informa Jorge Amorim Pereira Filho, gerente do Ativo Mossoró da Unidade Rio Grande do Norte/Ceará. De acordo com Amorim, devem ser perfurados entre 120 e 130 poços, por ano, em Fazenda Belém, nos próximos cinco anos.

"É um forte incremento na atividade", completa. Em números, significa ampliar a produção dos atuais 2,2 mil barris/dia para 5,5 mil barris diários de óleo. "Vamos dobrar a produção pelo volume de óleo que se pode extrair deste campo", comemora. Os investimentos, ele calcula hoje serem da ordem de R$ 210 milhões.

In loco

Em Fazenda Belém, a equipe do Diário do Nordeste foi conferir o dia-a-dia de trabalho, sob o sol forte, calor de 35 graus e vegetação típica de semi-árido. Bem diferente da realidade do pessoal que atua ´off shore´, acompanhado na plataforma Atum 3, em Paracuru, no último dia 17/10. Nem por isso, deixou de ser uma "aventura", já que a exploração e produção do "ouro negro" envolve riscos em qualquer ambiente.

Os campos em Fazenda Belém têm característica de serem zonas e isso exige que a ampliação passe pela perfuração de novos poços e também pelo aumento das instalações. "Isso vai representar o lançamento de linhas de surgência, de coleta e de tratamento, ampliação da geração de vapor", completa Jorge Amorim.

O gerente do Ativo Mossoró faz questão de ressaltar que o campo de Fazenda Belém exige um processo de recuperação complementar. "O vapor passa pelo reservatório em superfície e aquece o óleo e, com isso, permite que nós possamos trazer mais óleo para a terra".

O campo de Fazenda Belém começou a produzir em 30 de junho de 1980. Conta com nada menos do que 788 poços em plena atividade desde então. "O Fazenda Belém I, conhecido como poço pioneiro, ainda produz", vibra o engenheiro cearense Francion Justino.

"Na verdade, o campo de Fazenda Belém recebeu este nome porque esta era a propriedade maior. Há extração de óleo também nas fazendas Retiro Grande e Olho d'Água", explica. De uma ponta a outra, o campo chega a ter mais de 15 km. "O último poço vai quase até Jaguaruana", informa.

Francion comenta que a exploração em terra no Estado resultou da determinação da Petrobras em ampliar a produção após a crise do petróleo de 1978. "Assim, foram descobertos Fazenda Belém, no Ceará, além dos campos em Alto do Rodrigues e em Mossoró, no Rio Grande do Norte".

Amorim destaca que o campo de Fazenda Belém produz água e óleo. "Aliás, tem muito mais água do que óleo". Por isso, a Companhia implantou instalações para separar esse óleo. "Fazemos a reinjeção dessa água no próprio campo produtor. A vantagem é que a água continua fazendo parte do processo operacional, dá energia novamente ao reservatório, num processo fechado, ou seja, que não causa nenhum tipo de dano ao ambiente".

A Petrobras atua no Estado por meio de duas unidades de negócios. A Unidade de Refino, Lubrificantes e Derivados de Petróleo do Nordeste (Lubnor), localizada em Fortaleza, no Mucuripe, processa diariamente 1.100 metros cúbicos de petróleo - o equivalente a 1 milhão e 100 mil litros. É líder nacional na produção de asfalto, destacando-se também como a única refinaria no Brasil a produzir lubrificantes especiais chamados naftênicos.

Já a Unidade de Exploração e Produção do Rio Grande do Norte e Ceará (UN-RNCE), sediada em Natal (RN), atua nos dois estados e desenvolve atividades em terra e no mar. Responde pela produção de 10 mil barris/dia de petróleo e 240 mil metros cúbicos de gás natural no Ceará, através de seis campos produtores: dois entre Aracati e Icapuí e quatro em Paracuru, com nove plataformas marítimas. A produção diária total da UN-RN/CE é de 80 mil barris de petróleo e 3,2 milhões de metros cúbicos de gás natural.

FIQUE POR DENTRO
Exploração começou nos EUA, com poços terrestres

A moderna indústria petrolífera surgiu nos Estados Unidos, no século XIX, com a perfuração dos poços rasos em terra, com até 20 metros de profundidade. O Brasil precisou ir mais longe e mais fundo.

Para consolidar a indústria petrolífera nacional, a Petrobras avançou mar adentro, vencendo lâminas d´água de até 1.800 metros, além de perfurar até cinco mil metros abaixo do fundo do mar.

Na atividade petrolífera, exploração é o termo utilizado para o mapeamento, a análise e a interpretação dos dados geológicos da subsuperfície, para a identificação de áreas com potencial para a produção de petróleo e gás.

Nos idos de 1953, quando foi criada, a Petrobras continuou buscando petróleo em terra, com sucesso principalmente na Bahia. E ampliou os horizontes, indo também para o mar.

SAMIRA DE CASTRO
Repórter

Campo é esforço de exploração

Sete geradores de vapor são utilizados em Fazenda Belém, para garantir a extração do óleo pesado

O petróleo sai da terra a uma temperatura de 120 graus, junto com água e, em alguns casos, gás. Fazenda Belém não tem reserva de gás (Foto: Thiago Gaspar)

Icapuí. A chegada em Fazenda Belém, por volta de 13 horas, no último dia 30, foi tranqüila, não fosse a pressa para estar lá no horário marcado pelo Assessoria de Imprensa da estatal. Paramos em um restaurante à entrada de Icapuí e, em quanto o repórter fotográfico Thiago Gaspar e o motorista almoçavam, encontro o engenheiro Francion Justino e a assessora, a jornalista Ana Luiza. Depois de receber os equipamentos de proteção individual (EPIs) - desta vez, as botas além de confortáveis são do tamanho 35 -, partimos de carro para o campo, a cerca de 100 metros da entrada de Icapuí, na BR-304, sentido Mossoró. A paisagem é seca, nesta época do ano, e se pode ver muitos pássaros.

"Deve ter bicho à noite", brinca Thiago Gaspar. Francion leva a equipe para a Estação Coletora VIII. E explica: "o poço é perfurado e, em seguida, instala-se a unidade de bombeio. O óleo sai pela linha de surgência até o manifoud, e, em seguida, para os tanques". Logo na primeira parada, ele comenta: "aqui, há muita mata nativa. Quem pega turno à noite já viu veado, raposa, gato do mato, macaco..."

O engenheiro cearense, um entusiasta da exploração terrestre, revela que o petróleo sai da terra a uma temperatura de 120 graus, junto com água e, em alguns casos, gás. "Os poços, em Fazenda Belém têm, em média 400 metros de profundidade". O local, que funciona desde 1979 - mas com operação apenas a partir de 1980 -, recebeu este nome por conta da propriedade, uma fazenda de caju que pertence ao Grupo J. Macêdo.

A equipe vai até a Estação de Testes II, onde fica um dos sete geradores de vapor utilizados no local. "O vapor d'água é produzido, vai para a tubulação e é injetado no poço. O procedimento tem de ser feito porque o óleo é muito pesado", explica. Na Estação Coletora VII, acompanhamos um teste de produção, para saber, por amostragem, qual a quantidade de óleo e água retirados de determinado poço. Por ali, a presença feminina se faz notar com maior freqüência do que em alto-mar: conhecemos as contratadas Arikele e Júlia, técnica de manutenção e engenheira de processo, respectivamente.

A última parada é no poço pioneiro: o Fazenda Belém I. Com direito a placa e tudo, representa um marco para o Ceará e o esforço da Petrobras em garantir a continuidade do segmento que gera emprego e movimenta a economia: a indústria petrolífera.

Óleo dá origem a lubrificante

Por conter um óleo mais grosso, o campo de Fazenda Belém teve um desenvolvimento muito lento

O óleo pesado de Fazenda Belém vai para a Lubnor, onde é transformado em lubrificantes especiais (Foto: Thiago Gaspar)

Icapuí. O óleo extraído em Fazenda Belém é considerado relativamente nobre - explica o engenheiro da Petrobras Francion Jacinto de Pádua. Por ser muito pesado, não serve para a fabricação de combustível. "Nada aqui é queimado", comenta, utilizando termo designado pelos técnicos da área para a produção de derivados como gasolina e diesel.

Toda a produção do campo terrestre cearense vai para a refinaria da Petrobras em Fortaleza, a Lubnor (Lubrificantes do Nordeste). "Ali, o óleo dá origem a lubrificantes especiais chamados naftênicos, utilizados em equipamentos de corte da indústria metalúrgica, isolante para transformadores elétricos, óleo para amortecedores de veículos e asfalto", diz.

Por conter um óleo grosso, o campo de Fazenda Belém teve um desenvolvimento muito lento, em relação a outros descobertos praticamente na mesma época, como Alto do Rodrigues, no Rio Grande do Norte. "Este óleo é muito sensível ao vapor. Para desenvolvermos isso aqui, tivemos de compatibilizar equipamentos", ressalta.

Reservas

Dados da Agência Nacional do petróleo (ANP), referentes a dezembro de 2007, mostram que as reservas provadas de petróleo em terra no Estado são de 1,34 milhão de metros cúbicos. Isso equivale a 8,40 milhões de barris. Já as reservas totais são de 4,36 milhões de metros cúbicos de óleo, ou cerca de 27,45 milhões de barris. O Estado não possui reservas de gás.

Segundo Jorge Amorim, a vida útil de um poço de petróleo varia de acordo com as condições de exploração. "Aqui, na Bacia Potiguar e Fazenda Belém, não é diferente, os poços produzem durante muito tempo. Fazemos o controle de produção para utilizá-los os durante muitos anos", resume o gerente do Ativo Mossoró, da Unidade Rio Grande do Norte/Ceará.

Setor movimenta Mossoró

Com o efeito multiplicador de empregos, a indústria petrolífera ajudou a desenvolver o município

Em Mossoró, onde era para jorrar água, acabou brotando petróleo e suas riquezas (Foto: Kiko Silva)

Arikele e Júlia acompanham teste de produção de um poço, para ver o quanto sai de óleo e de água. Os poços serão, em breve, automatizados (Foto: Thiago Gaspar)

Icapuí. Eles sugam a riqueza da terra, trazem à superfície cerca de 2,2 mil barris de petróleo por dia em Fazenda Belém. Os cavalinhos de pau - como são conhecidos os equipamentos que bombeiam o óleo a uma profundidade de até 400 metros - trabalham dia e noite, em silêncio, em meio aos cajueiros. Do lado de cá, os "bichinhos" até que são poucos. A presença deles faz mesmo a diferença no estado do Rio Grande do Norte, em cidades como a vizinha Mossoró e em Alto do Rodrigues.

O Rio Grande do Norte é o maior produtor de petróleo em terra do País. Descoberto por acaso há 30 anos, o "ouro negro" alterou as paisagens e a vida das pessoas do sertão potiguar. Tornou-se sinônimo de riqueza para alguns, mas também é mais um símbolo dos contrastes presentes no Nordeste brasileiro. Um grande número de empresas migrou para a região com o objetivo de prestar serviços ligados à exploração de petróleo.

Nem tanto pelo pagamento de royalties e mais pelo efeito multiplicador de empregos, a indústria petrolífera ajudou a desenvolver o município de Mossoró. "Quando a Petrobras começou a exploração naquela área, praticamente não havia empregos. Hoje, a cidade tem cinco universidades. A massa salarial paga aos trabalhadores próprios e contratados faz girar o comércio", enfatiza o engenheiro cearense Francion Justino de Pádua, que mora lá.

Mão-de-obra

Cerca de 70% dos operadores de produção em Fazenda Belém são cearenses. Entre os 40 trabalhadores próprios da Petrobras lotados na unidade, 80% são do Estado. Os demais vieram de Mossoró, Natal e outras cidades.

"O problema é que faltam escolas de formação profissional em Icapuí e Aracati", avalia Francion. Ele comenta que hoje a estatal está com mais de 300 pessoas contratadas, via prestação de serviços, por conta dos investimentos na perfuração de novos poços já em andamento.

Luzinete Soares de Lima, proprietária do restaurante Santa Luzia, na BR-304, confirma que a atividade de exploração acabou ajudando mais a Mossoró do que a Icapuí ou Aracati. "Tanto que a gente aqui tem conta em banco lá e não em Icapuí. Para abastecer o comércio, a gente vai fazer compras em Mossoró". Aliás, foi ali que tudo começou: em 1977, quando perfuravam poços para construir um balneário de águas quentes, o que encontraram foi um líquido preto viscoso. Onde era para jorrar água, jorrou petróleo.

Royalties

O Ceará recebeu, em outubro, R$ 6,705 milhões em royalties pela produção de petróleo e gás natural - valor 15,82% superior à igual mês de 2007(R$ 5,789 milhões) e 7,09% inferior à setembro/08(R$ 7,217 milhões). No acumulado do ano, o Estado recebeu R$ 55.518 milhões pelo pagamento dos royalties, 47,11% a mais, em comparação ao período de janeiro a outubro do ano passado(R$ 37,738 milhões).

Do total recebido em setembro, o Estado arrecadou R$ 1.620 milhão e 82 municípios foram beneficiados com R$ 5.084 milhões. As cidades localizadas nas áreas de produção receberam R$ 4.094 milhões. Entre os municípios produtores, Aracati segue na 1ª colocação, com R$ 827,82 mil. Caucaia vem em 2º lugar com R$ 723,36 mil e São Gonçalo do Amarante com R$ 717,86 mil em 3º. A Capital arrecadou R$ 153,46 mil, apesar de não ser produtora, por ter instalações de embarque e desembarque de petróleo e gás.

MULHERES NA PRODUÇÃO
Emprego conquistado por competência

Icapuí. A presença feminina se faz notar mais fortemente na exploração petrolífera em terra, ao contrário do que acontece na produção em mar, como acompanhado em Paracuru, na plataforma Atum 3 (PAT-3), no último dia 17 de outubro. Na Estação Coletora VII, em Fazenda Belém, a reportagem encontra Arikele de Araújo, 27 anos, e Júlia Dantas, 26 anos. Elas são, respectivamente, técnica de manutenção e engenheira de processo. Acompanhavam, no local, um teste de produção dos poços.

Para elas, o ambiente de trabalho na Petrobras é muito bom. Há um certo cavalheirismo da parte dos colegas, uma educação no trato com as moças. No entanto, Arikele revela que, por terem "carinha de menina", elas precisam impor respeito aos marmanjos. "A gente tem de ser mais rígida, um pouco mais bruta do que normalmente seria numa situação", completa Júlia.

Preconceito

A engenheira, atualmente responsável pelo processo de automação dos poços em Fazenda Belém, conta que chegou a ser recusada em várias entrevistas de emprego por ser mulher. "Na Petrobras, hoje, tem mais mulher no campo do que há dez, vinte anos", completa Arikele, que nasceu na cidade de Natal (RN).

Para Arikele, atualmente, as empresas não estão mais escolhendo os seus quadros apenas pelo gênero, ou levando em conta habilidade inerentes a alguns. "Dizem que a mulher é mais sensível e o homem, mais racional. O fato é que estamos preparadas". A amiga, que é natural de Mossoró, concorda: "é preciso ter competência para qualquer cargo".

ESCOLHA PROFISSIONAL
Entusiasmo continua mesmo após décadas

Icapuí. Apaixonado por fotografia - e que ainda não se rendeu à era digital -, o engenheiro pleno Francion Justino de Pádua, 50 anos, sabe de cor todas as estradas, trilhas e caminhos pelos quais o petróleo brota do solo até a superfície, em Fazenda Belém. Tem 22 anos de Petrobras e entusiasmo de quem acabou de entrar no primeiro emprego.

Francion já trabalhou em alguns outros campos da Unidade do RN e também em Urucu, na Amazônia. Neste último caso, foi de 1994 a 1997. "A filosofia da empresa é a mesma. O que muda são as condições. Em Urucu, trabalhava sob sistema de confinamento e tinha de ficar embarcado por até 14 dias". Agora, mora em Mossoró e visita a família uma vez por semana, em Fortaleza.

O engenheiro, que é cearense, diz que fez a escolha profissional aos 15 anos. "Na época, bom mesmo era trabalhar no Banco do Brasil. Mas eu escutava um engenheiro da Petrobras falando e acabei desejando atuar na empresa". Sobre a pressão do ramo, ele recorda que já teve de passar 36 horas acordado, para fazer um equipamento parado funcionar. Hoje, momentos ruins ficaram só na lembrança. E ele investe no futuro. "A Petrobras está vivendo um momento esplendoroso. Uma refinaria no Ceará vai agregar valor à economia local. A sociedade precisa visualizar isso como grande oportunidade. O que seria do Estado sem Fazenda Belém? Cerca de 150 pessoas estariam trabalhando no cabo da enxada".
Fonte: Diário do Nordeste

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