:: 10.06.03 :: |
Fórum Brasil-África |
O Ceará é uma demonstração viva de que cada vez mais há uma interação entre o local e o mundial, com sua ênfase no turismo e sua abertura para o exterior Pedro Motta Pinto Coelho Estão dadas as condições para que o Fórum Brasil-África: Política, Cooperação e Comércio, que termina hoje em Fortaleza, seja um êxito e possa atingir os objetivos para os quais foi concebido. Originalmente calculado para albergar cerca de 250 participantes, o Fórum contou com muito mais do que isso, obrigando os organizadores, por uma mera limitação dos espaços físicos disponíveis, a restringir, de algum modo, o universo de inscrições. Propondo-se a oferecer uma ocasião para um debate aberto e atual sobre as relações Brasil-África, o Fórum recebeu ampla resposta da sociedade brasileira. Impressionante resposta também dos países africanos, de onde convergiram para Fortaleza delegações compostas de diplomatas, acadêmicos, peritos nas diversas áreas temáticas incluídas no programa, ademais de empresários. Muitos destes participarão igualmente da II Reunião do Fórum Empresarial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), evento distinto, porém simultâneo com o Fórum Brasil-África. Algumas delegações são encabeçadas por chefe de Estado (o presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, é convidado especial), por chanceleres ou ministros de Estado. Fortaleza, por certo, com sua graça nordestina, recebe os participantes de braços abertos. O Ceará é uma demonstração viva de que cada vez mais há uma interação entre o local e o mundial, com sua ênfase no turismo e sua abertura para o exterior. O governador Lúcio Alcântara, dentro dessa boa tradição, ofereceu Fortaleza para sediar os dois eventos e desde então tem prestado inestimável apoio à sua realização. A ampla disponibilidade e o total compromisso oferecidos pelo governo do Ceará à organização dos eventos espelham muito bem a sensibilidade da sociedade cearense para a temática da atual política externa brasileira, onde a África, conforme estabelecido pelo presidente Lula desde o seu discurso de posse, é tema prioritário. De igual modo, podemos falar do apoio que tem prestado o Banco do Nordeste do Brasil. O BNB ofereceu, gratuitamente, suas magníficas instalações, palco já de outras reuniões internacionais de vulto levadas a cabo em Fortaleza. Mais, destacou, sem medir gastos, equipe altamente qualificada para trabalhar junto com os organizadores dos dois eventos, colocando à sua disposição todos os recursos materiais e de sofware do Banco. Essas são, sem dúvida nenhuma, receitas para o sucesso de qualquer empreendimento. Mas, o que mais sensibiliza é a aguda percepção da dimensão política e alcance social do Fórum, por parte do Governo do Estado e do Banco do Nordeste do Brasil, ao prontificarem-se para uma parceria que, sim, movimenta os hotéis de Fortaleza, mas, muito além disso, nos desperta para a importância da diplomacia federativa, aquilo que outros chamam de ''paradiplomacia'': o trabalho consistente das unidades federativas no plano das relações externas, em função de seus interesses, em coordenação com o Governo Federal. Hoje as relações internacionais se dão de forma matricial, com uma multiplicidade de atores. E é com esse trabalho conjunto que se alcançarão os melhores resultados. No Brasil, são amplos os espaços de ação, no plano externo, por parte dos Estados e das regiões. Ao dar guarida ao Fórum Brasil-África, o Ceará cumpre mais uma etapa de plena integração nesse movimento. O que podemos, a partir desse enquadramento positivo, esperar objetivamente do Fórum Brasil-África? Nossa proposta é a de que a temática das relações com a África seja melhor conhecida e atualizada, a partir das conclusões dos debates realizados. Com um debate aberto, conduzido por participantes brasileiros e africanos, especialmente convidados por serem expoentes de primeira linha nas suas áreas de atividades, esperamos contribuir para a formação e consolidação de uma visão comum afro-brasileira, coerente com nossa história, nossas raízes, nossa cultura. O potencial para o desenvolvimento de relações plenas e intensas, em nível de igualdade, entre brasileiros e africanos, é alto. Já temos, no momento, um comércio de 5,5 bilhões de dólares. Os países africanos procuram desenvolver esforços próprios para vencer suas enormes dificuldades. Muitos consolidam suas democracias e eliminam os focos de conflitos armados internos. O Brasil é solidário com esses esforços, mesmo porque tais dificuldades, como a pobreza, a fome, e as endemias, são também nossas. O principal produto do Fórum será contribuir para despertar essas empatias na sociedade brasileira, decorrendo daí uma forma inovadora de construir uma agenda de trabalho comum, voltada para o social, mas ciente de que o potencial para o aproveitamento de recursos e para o desenvolvimento econômico a partir de uma base sul-sul está ao alcance de nossas mãos. Lancemos os dados! Pedro Motta Pinto Coelho é diretor-geral
do Departamento da África e Oriente Próximo do Ministério
das Relações Exteriores |
| Fonte: Jornal O Povo |