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PORTUGAL: Brasil ou Leste Europeu?


““Nunca perca o governo de vista que poderemos estar de mal com todo o mundo, menos com o Brasil e Inglaterra”. Estas palavras, pronunciadas pelo Rei (*) num momento cruciante de atrito com o Brasil(**) , traduziam perfeitamente as realidades da nossa vida externa, desde muito antes de D. Carlos e para aquém do seu reinado até os nossos dias. Realidades históricas, indiscutíveis, uma imposta pela necessidade secular de um apoio externo, que nos garantisse a liberdade nos mares, outra criada na fraternidade do sangue e da língua...”

Citação do livro Nobreza de Portugal, obra editada em 1960 pela Editorial Enciclopédia Lda, sob a direção, coordenação e compilação do Doutor Afonso Eduardo Martins Zuquete.

(*) SM El Rei D. Carlos I (1863 – 1908).
(**) Caso da corveta Mindelo (1894)

E assim tem sido...

Sanado o incidente da Mindelo, ignorada a campanha orquestrada contra os portugueses no Rio de Janeiro por O Jacobino (“a letra mais infeliz do alfabeto é o P! Com p se escreve: piolho, percevejo, pulga, praga, prostituição, perigo, pústula e ... português!!! Que letra ruim!” – O Jacobino, nº 12, 24/10/1894, p.2), ultrapassados alguns atritos provocados pela presença de Plínio Salgado em Portugal, esquecidos alguns amuos provocados por declarações de Jânio Quadros, Brasil e Portugal têm cultivado uma diplomacia paralela, comportando-se no cenário internacional como nações irmãs que são!

O Brasil abriu as portas aos imigrantes portugueses. Apesar de tudo, estes vieram e, aqui, se nem todos puderam construir impérios econômicos, e muitos o fizeram, todos ajudaram a construir uma sociedade, com defeitos e qualidades como todas as obras do Homem! O português, se alvo favorito de piadas, é sempre reconhecido como trabalhador e honesto!

E, assim, platonicamente, foi implantado um modus vivendi em que, por um lado, se reconhecia no Brasil a maior Nação de língua portuguesa e, por outro lado, se reconhecia em Portugal uma espécie de “avôzinho” deixado para trás!

Economicamente, o Brasil tinha algum significado como origem de remessas de imigrantes! As trocas comerciais, incipientes, refletiam o “mercado da saudade” (azeite,vinho e jornais, por um lado, café e alguns outros por outro lado)!

Até 1995,as trocas comerciais entre Portugal e Cabo Verde eram maiores do que aquelas entre Portugal e o Brasil!!!

Em Portugal, falava-se do Brasil como o gigante onde havia um português em cada esquina!... No Brasil... falava-se em Portugal quando se contava uma piada, ou quando se recordava um determinado prato, comido em mesa hospitaleira e regado com o bom vinho da casa!

Em tempos do Senhor D. João I, Portugal, “entalado entre o Mar e Castela, escolhe o Mar”!

Em tempos de Cavaco e Silva, Portugal dá as costas para o Mar! Finalmente somos Europeus, deixamos de ser uma Nação marítima!

Mas seria este o melhor caminho? Entre uma Europa que obrigaria, desde logo a adotar sistemas de produção, ou de trabalho, altamente competitivos ou a implantação em mercados emergentes, porque não estes?

Pessoalmente, seria esta a minha aposta! E se na época eu fosse um investidor, ao escolher um mercado emergente, teria de optar entre o Leste Europeu, a China, a África, a Índia e a América Ibero-americana. Analisando um por um, veria o seguinte quadro:

  1. Leste Europeu – Um conjunto de países com um potencial de crescimento notável mas afetados por algumas décadas de regime “socialista não democrático”, sendo de prever dificuldades de adaptação às regras de uma economia de mercado;
  2. China – Uma economia notável, um potencial de crescimento espantoso, mas a necessidade de conviver com um povo com uma matriz cultural completamente diferente da nossa. Por outro lado haveria que resolver o problema de ter uma empresa capitalista num regime “não capitalista”! Quais os riscos que isso envolveria?
  3. África – Ainda com uma notável instabilidade. Angola, o país que mais atrairia os portugueses, pelas profundas ligações históricas, continua dilacerado pela guerra! Há que esperar para ali fazer investimentos de raiz!
  4. Índia – A Índia de nossos sonhos, a Índia misteriosa, a Índia de incomensuráveis riquezas que atraiu os nossos maiores! Ou uma Índia com problemas sócio políticos, uma Índia com estruturas sociais anacrônicas e em situação de permanente pré beligerância com o Paquistão!
  5. América Latina – Uma região em paz e aparentemente com democracias solidamente instaladas. Dentre o conjunto de países, de destacar a Argentina e o Brasil, ambos com moeda estável e com regimes democráticos consolidados.

Para mim a opção pareceria clara! E não só para mim, pois em 1996 começa a modificar-se o panorama. Se sob o comando de Cavaco e Silva a opção teria sido a Europa, sob o comando do Primeiro Ministro Socialista António Guterres, a opção será Brasil!

Para mim, Português no Brasil há 20 anos (em 1997) a escolha parecia-me a mais correta!

Voltávamos a seguir a nossa vocação histórica: o sermos ponte entre a Europa e a América do Sul!

Portugal, agora um Portugal Europeu, já não o “avozinho”, já não o imigrante de calças de cotim, botas de carneira e bolsa de fustão, Portugal, um moderno executivo, vestido em Saville Row e Mestrado em Negócios, desembarca no Brasil e, de repente, passa a ser o terceiro investidor estrangeiro!!!

Era um Portugal diferente! Era um Portugal para apresentar ao Brasil! Não precisaríamos mais de citar os Portugueses de Quinhentos para restaurar o orgulho pátrio nos jovens luso descendentes. Agora poderíamos apontar os Portugueses do Século XX! Paradigmas de um Portugal moderno, um Portugal ativo no mundo de negócios, um Portugal já não emissor de emigrantes mas receptor de imigrantes!

As empresas portuguesas vieram e começaram a instalar-se.
No genérico poderíamos dizer que o seu comportamento não era mau! Algumas exceções, um ou outro erro de gestão!...

11 de setembro de 2001: a Terceira Guerra Mundial começou! Não uma guerra declarada, uma guerra em que se saiba quem é o inimigo, uma guerra em que lutem os militares! È uma guerra de não uniformizados atingindo não beligerantes!

E esta guerra perturba a economia mundial!

Esta guerra agrava a crise da Argentina! O Brasil é atingido por ataques à sua estabilidade monetária e económica! A economia portuguesa é abalada! O governo socialista de António Guterres cai! É eleito o Dr. Durão Barroso para Primeiro Ministro!

Em sua primeira visita oficial ao Brasil, afirma: “ Portugal continua apoiando o Brasil”!

Três meses depois, o ex Primeiro Ministro Cavaco e Silva, sai do seu retiro e afirma: “Investir na América Latina foi um erro! No Leste Europeu está o nosso destino!”

Erro investir na América Latina?
Se o foi, foi erro cometido por americanos, alemães, franceses, espanhóis, italianos, etc.!

E se me permitem, não se devem avaliar resultados a curto prazo para investimentos que se requerem a longo prazo!

Mais. Deixemos os nossos irmãos do Leste Europeu entender-se entre si! Nós Portugueses somos muito mais afeitos aos povos do ultramar do que ao trato com eslavos ou magiares!

È no Brasil de hoje e na África de amanhã que devemos investir! A isso nos obriga o bom senso, as nossas tendências históricas e um vago senso de obrigação para com as Nações Irmãs!

Uma crise econômica não é motivo para desistência de investimentos! Pelo contrário, é na crise que se consegue melhor investir!

Haverá que proceder a ajustes? Há que rever critérios de análise? Nada de mais natural em processos de planejamento com cenários mutáveis!

Confiança no Brasil!, confiança no futuro, é tudo o que se pede!

Tenho um respeito profundo pelo Professor Doutor Cavaco e Silva, e aqui o deixo registrado, mas entre a sua opinião e a de Sua Majestade El Rei D. Carlos, ainda fico com esta: “Nunca perca o governo de vista que poderemos estar de mal com todo o mundo, menos com o Brasil e Inglaterra”!

José Augusto Forte de Lemos Rebelo
Membro da Rede de Conselheiros para a Internacionalização da Economia Portuguesa
Vice Presidente do Conselho das Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil
Presidente da Câmara de Comércio Luso-Brasileira em Minas Gerais
Diretor da Planneg Consultoria



Fonte: www.cmecp.org/

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