:: 14.10.03 ::
RESPONSABILIDADE SOCIAL
Ações podem transformar País

 
Peter Nadas

Os empreendimentos sociais podem unir empresários e representantes de Organizações Não Governamentais em torno de um objetivo comum: a transformação social e a inclusão de grupos, etnias e regiões no acesso a direitos básicos

A reunião dos esforços de empresários, terceiro setor, sociedade civil organizada e poderes públicos pode gerar ações de responsabilidade social. Para o diretor executivo do Instituto Telemig Celular, Francisco Azevedo, estas ações podem ser uma alavanca do crescimento do País, desde que tenham perfil transformador da ordem social. ''A maioria dos empresários atua junto a comunidades de baixa renda, com ações assistencialistas, doando cestas básicas ou recursos'', avalia Azevedo. O executivo ministrou, ontem, a palestra de abertura do Fórum Nacional Empresa Cidadã e Responsabilidade Social, na Federação das Indústrias do estado do Ceará (Fiec).

Com mudanças ao longo dos anos, o conceito de responsabilidade social, hoje, não é sinônimo de grandes investimentos e, para obter as ações transformadoras da sociedade, o novo vocabulário dos empreendedores é recheado com termos da gestão corporativa. ''Os empresários podem levar o modelo de gerenciamento, com as devidas adaptações, para o terceiro setor'', diz Azevedo. Para investir no social sem deslocar recursos, os empresários têm inúmeras opções. Uma delas é estimular os empregados a realizar trabalhos voluntários, de acordo com a disponibilidade de tempo e qualificação de cada um.

Azevedo recomenda, para obter o envolvimento e participação dos funcionários, escolher um projeto específico, para um período bem determinado, porque muitas pessoas temem se comprometer por um longo período e não dar conta do recado. ''Pode ser o mutirão para consertar uma escola ou um centro comunitário, em um final de semana.'

Desta forma, a participação da comunidade no planejamento estratégico, deixando claras as necessidades e potencialidades da área. As parcerias são essenciais para o resultados. '' Reunir parcerias é agregar competências e novos valores'', diz Francisco Azevedo, com a experiência de quem quase dobrou o número de conselhos tutelares em Minas Gerais, em dois anos. Marco Túlio Lustosa, da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), reforça que os esforços comuns entre segmentos da sociedade são fundamentais para resolver problemas antigos, como o trabalho doméstico infantil.


O QUE É

Balanço Social é um demonstrativo publicado anualmente pela empresa reunindo um conjunto de informações sobre os projetos, benefícios e ações sociais dirigidas aos empregados, investidores, analistas de mercado, acionistas e à comunidade. É também um instrumento estratégico para avaliar e multiplicar o exercício da responsabilidade social corporativa. No balanço social a empresa
dá transparência às atividades que buscam melhorar a qualidade de vida para todos.


Funcionários em 1º lugar

''A responsabilidade social é hoje um fator competitivo para as empresas e as que não adotarem programas de responsabilidade social estruturados não vão sobreviver''. A afirmação é do doutor em Sociologia e coordenador de desenvolvimento do Departamento Nacional do Serviço Social da Indústria (Sesi), Elizeu Calsing, que fala hoje no Fórum Nacional Empresa Cidadã e Responsabilidade Social sobre Marketing de Resultados do Investimento Social Privado. Para ele, empresa cidadã, socialmente responsável, é aquela que primeiro cuida da qualidade de vida do seu trabalhador.

Além disso, a empresa cidadã é mais aceita pelos consumidores de todo o mundo. No Brasil, cerca de 25% dos consumidores estão direcionando suas compras para produtos de empresas que executam programas de responsabilidade social. ''Isso mostra que o consumidor é crítico às empresas que atuam no mercado e valoriza a que empresa cidadã e penaliza a que ainda não está nesse caminho'', completa, ressaltando que a consciência dos brasileiros está aumentando.

Para o sociólogo, os programas bem estruturados de responsabilidade social trazem muitos benefícios para empresas, trabalhadores e a sociedade em geral. Entre eles cita a lucratividade das ações de empresas que adotam esses programas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). A maior produtividade do trabalhador que é incentivado, que recebe mais benefícios sociais, e que por isso trabalha motivado e produtor mais também é fonte de lucro. Outro fator de lucratividade pode ser medido pela redução de doenças e acidentes de trabalho. Segundo Calsing, no Brasil hoje gasta-se cerca de R$ 25 bilhões com a recuperação de acidentados, reinserção de trabalhadores no mercado de trabalho, horas de trabalho perdidas e pagamento de pensões.

''Uma empresa que tem um programa de responsabilidade social vai cuidar para que seus trabalhadores tenham um ambiente de trabalho saudável'', reforça, ressaltando que esse é o primeiro passo. Depois dele é que a empresa deve adotar ações sociais fora da empresa. Calsing lembra ainda que a cada ano de escolaridade a mais que o trabalhador conquista o impacto é de aproximadamente 20% no Produto Interno Bruto Industrial. Ou seja, uma pesquisa nacional revela que a produtividade cresce com a escolaridade. (Artumira Dutra)
''Ética é crescer com a sociedade''

A maioria das empresas brasileiras se encontra hoje num estágio em que consideram que ter ética é cumprir a lei. É que mostram pesquisas realizadas pela Fundação Instituto de Desenvolvimento Empresarial e Social (Fides). O presidente do Conselho de Curadores dessa entidade de São Paulo, Peter Nadas, diz que isso é muito pouco porque a lei tem suas falhas. O segundo problema dessa visão, de acordo com ele, é o entendimento ''eu sou ético porque tenho medo da polícia''. Ou seja, os outros é que impõem quando a ética não é isso. ''A ética são valores meus que eu escolhi'', diz, ressaltando que os que seguem a lei estão no começo do processo e precisam começar a caminhar para a ética do bem comum.

Nadas explica que o bem comum seria a preocupação em fazer com que toda a sociedade possa crescer para a empresa crescer junto. Ao contrário, a ética do interesse próprio prega fazer só o que vai beneficiar a empresa mesmo que os outros não seja beneficiados. Ele acrescenta que os empresários que agem dessa forma estão cada vez mais sendo cobrados para mudar. Adianta que a mudança de comportamento também porque a convivência da globalização impõe que as empresas devem atuar de forma mais ética. ''No comércio internacional se você faz alguma coisa de errado, você não vai vender nunca mais'', comenta, ressaltando que isso cria uma responsabilidade maior com a ética.

Para Peter Nadas, incluir ética nos negócios é ter uma visão de longo prazo. ''É o que vai dar sustentabilidade a empresa no longo prazo'', diz. Enfatiza que a empresa que não se preocupar com o bem comum não sobreviverá por muito tempo. O presidente do Conselho de Curadores da Fides lembra que existe o perigo de se praticar ética para criar uma imagem. ''Mas o que não vem de dentro das pessoas envolvidas logo é descoberto. O mercado não é bobo e descobre rapidamente o que se faz por interesse genuíno e o que se faz por interesse próprio'', completa, considerando que essa é mais uma razão para as empresas que agem assim não sobreviverem.



Fonte: "O Povo"

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