Responsabilidade Social na Perspectiva Dialógica

Responsabilidade Social no Brasil está diretamente associado à falência do modelo intervencionista de caráter estatal e ao processo de redemocratização que se consolidou durante os anos 80, período em que os sindicatos se fortaleceram e diversas organizações da sociedade se consolidaram, aumentando o poder de pressão em relação a diversas instituições, incluindo-se as empresas.

A sociedade passou por áureos períodos de participação, organização e atuação efetiva: diretas já, lutas relacionadas às questões étnicas e raciais, conquistas femininas, embates ambientalistas, dentre outros, caracterizando o renascimento da sociedade civil e o crescimento de sua participação, incluindo-se os empresários e suas corporações.
A discussão em torno da atuação social das empresas e da construção de uma ética empresarial acabou tendo conseqüências concretas: muitas empresas começaram a investir em áreas sociais, tradicionalmente ocupadas somente pelo Estado. Na tentativa de adaptar-se aos novos tempos, cambiaram também algumas formas tradicionais de se relacionar com funcionários e fornecedores, iniciando, ao mesmo tempo, mudanças na atuação em relação ao meio ambiente e às comunidades mais próximas.

Paoli(2002) realiza uma análise da inserção do empresariado brasileiro no campo social pela via do Terceiro Setor, como espaço público de atuação não estatal, considerando que o centro do contexto das idéias nas quais se desenvolve e emerge a ação responsável e solidária dos empresários é o da ‘disputa’ por uma forma de regulação social.

Ao inserir valores e princípios de participação ética e responsável, a empresa cria espaços de diálogo, nos quais podem ocorrer juízos críticos para o reconhecimento de limites à sua atuação. Para Martin Buber (1982), a responsabilidade não é um dever desconectado da realidade concreta. Responsabilidade é um conceito que existe somente no domínio da vida vivida, quando há um responder verdadeiro àquilo que nos acontece, ao que nos é dado ver, ouvir e sentir. Para Buber, a responsabilidade pode ser compreendida como prestar contas daquilo que nos foi confiado.

Essa prestação de contas é uma relação interpessoal que se estabelece entre mim e quem a mim algo confiou. A responsabilidade pressupõe a existência do outro independentemente da minha vontade. E é a mim que esse ente dirige um apelo, uma presença-palavra que cobra resposta. A responsabilidade implica uma resposta à palavra a mim dirigida pela alteridade, pelo outro que não sou eu.

Freire (2005) afirma que o diálogo é um fenômeno expresso na ação-reflexão da palavra de forma solidária e interativa. O encontro entre pessoas que dialogam é mediatizado pelo mundo para pronunciá-lo e conquistá-lo e não para estabelecer relações de conquista ou de dominação. Nele, encontra-se presente o caráter que possibilita a superação da relação eu-tu, para constituir-se em um encontro de homens e mulheres que pronunciam o mundo e criam a partir dessa relação.

Parte-se do princípio de que o conceito de responsabilidade social empresarial associa-se ao fato de que uma organização é responsável pelos impactos que suas práticas e ações gerenciais produzem no universo situado além do mercado, que não se referem somente ao âmbito da empresa em si.
Vale ressaltar que reforçamos a crença de que o que provoca mudanças e possibilita o desenvolvimento não é a simples incorporação de conceitos e metodologias nas organizações e sim a visão de mundo das pessoas.
Segundo Júlio Torres, estudioso da Teoria da Complexidade’, ‘vivemos hoje, uma crise de percepção’, pois não só deixamos de reconhecer como diferentes problemas estão inter relacionados, mas também nos recusamos a reconhecer como as nossas ações (pró-ativas e reativas) afetam as outras pessoas e as gerações futuras.
Para este autor o que está em questão, portanto, é a nossa visão de mundo, compreendida como uma janela conceitual, através da qual percebemos e interpretamos o mundo, tanto para compreendê-lo com para transformá-lo.
Para Roberto Bartholo (2000), durante boa parte do trajeto histórico da civilização industrial, a racionalidade econômica subjugou o social, o cultural, o político e a natureza às conseqüências do desenvolvimento econômico, com um esquecimento freqüente de que, na verdade, a esfera das atividades econômicas é apenas uma parte das atividades humanas e, estas estão incluídas nas dinâmicas da biosfera.
O grande desafio é traduzir para a prática os conceitos e medidas da sustentabilidade e da responsabilidade social. Para Bartholo, o processo inicia-se com atenção ao ambiente interno da organização; é necessário avaliar a situação interna para conhecer as condições e os recursos já existentes e, a seguir, serem definidas as estratégias, os planos de ação e os programas para incorporação das práticas e das ações sustentáveis e socialmente responsáveis.
Porém, o caminho para uma empresa tornar-se socialmente responsável e sustentável é uma busca contínua. O que torna-se fundamental para iniciar este processo é a criação de valores na corporação, a percepção, análise e visão crítica sobre o que é dito pela administração e o que é efetivamente feito. É imprescindível criar uma ambiente que propicie o diálogo e facilite o fluxo de informações, aumentando a confiança e as participações efetivas dos diversos interessados.

E confiança pressupõe transparência, equidade entre as partes interessadas, prestação de contas e responsabilidade.
Para Borger (2002), a resposta efetiva de uma empresa às solicitações de seus diversos interlocutores não está garantida pela formalização e pela manifestação de princípios em suas políticas, valores e crenças, como declarado pela alta administração. É necessário um comprometimento efetivo e concreto com as carências e as demandas da sociedade.

Não há um modelo específico e único para implementação da responsabilidade social nas empresas. O modelo a ser implementado deve estar enraizado e vinculado ao tamanho, ao setor e à cultura da empresa, devendo ter como base:

uma visão integrada e sistêmica;
a melhoria contínua;
uma perspectiva de atuação de longo prazo e sustentabilidade na operação dos negócios, abrindo-se mão de resultados de curto prazo, à medida que esses interfiram na relação com os stakeholders;e
comunicação aberta e transparente com as partes interessada, implicando adotar transparência, honestidade, integridade e padrões de conduta éticos.

Na abordagem comunitária (GÓIS, 1994), o objetivo é a transformação do estado de alienação, individual e grupal, para o de criticidade dos atores comunitários, de transformação do indivíduo objeto em sujeito capaz.

Ximenes (2005 apud LIMA, 2005) inclui o vocabulário ‘libertadora’ na abordagem comunitária por considerar sua função política e transformadora, tanto da realidade quanto dos sujeitos aí envolvidos. A troca de conhecimentos entre os agentes internos e externos possibilita o desenvolvimento da consciência crítica e o aumento do compromisso para resolução conjunta de problemas que promovam melhorias na comunidade.

Nesse sentido, a hipótese é de que os projetos sociais empresariais não estão alcançando o seu objetivo maior de transformação por desconsiderarem o poder das pessoas buscarem e criarem seus próprios caminhos para superação de suas carências. As empresas de certa forma incorporaram o paradigma das políticas sociais brasileiras, as quais são caracterizadas pela relação de dependência entre os responsáveis pelos programas e os ‘beneficiados’.

Para Góis (1994), a Psicologia Comunitária encontra-se atenta a formação do sujeito comunitário na perspectiva de sua autonomia e liberdade. Para tanto, seu campo de atuação é o próprio espaço geográfico, social, econômico e político comunitário. Para este autor, há um debate em torno da temática onde se estabelece uma discussão sobre se os projetos de desenvolvimento comunitário devem ser realizados por agentes externos ou internos às comunidades. Valendo destacar que normalmente e com poucos resultados positivos, as iniciativas são provenientes do governo e de agências externas e não centradas na comunidade.

Acredita-se também que existem outras características que impedem o pleno desenvolvimento humano na realização de atividades sociais, sejam elas advindas do poder público governamental ou privado, como, por exemplo, a forte cultura hierárquica estabelecida durante todo o processo histórico da sociedade brasileira, o que impede a plena participação das pessoas.

Esta cultura influenciou diretamente a estruturação de políticas sociais, as quais partiam do princípio de que as pessoas são carentes e precisam de ajuda, em contraponto à visão moderna de capital humano concebida como empoderamento das pessoas e dos grupos que se formam a partir de então.

Augusto de Franco, autor da metodologia ‘Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável – DLIS’, bem como Ana Norões, terapeuta ocupacional que concebeu a tecnologia social ‘Teia da Vida’, são exemplos de referenciais, tendo em vista que há, a partir deles, uma clara mudança de paradigma: o ser humano é fonte de criatividade e deve ser nutrido de experiências que resgatem valores individuais para posteriormente serem capazes de construir redes de colaboração e solidariedade para busca de soluções próprias e não advindas do governo ou das empresas.

Pela dificuldade que os atuais projetos sociais estão enfrentando no tocante ao alcance de indicadores de transformação do quadro social, a pergunta que se faz é: ‘por que o governo com tanto investimento social e as empresas com seu crescente movimento de cidadania empresarial não estão conseguindo os indicadores esperados’.

Cybelle Borges de Sousa

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