:: 22.10.02 ::

Portais Corporativos e Gestão do Conhecimento
 

BATE-PAPO PROGRAMADO

Bate-papo com José Cláudio C. Terra - consultor do IPT na área de Gestão do Conhecimento e Diretor-presidente da Terraforum, empresa dedicada a desenvolver soluções estratégicas nessa área. Doutor e Engenheiro de Produção pela POLI/USP, Mestre em Administração e bacharel em Economia pela FEA/USP. Professor de programas de pós/MBA (na USP, PUC-PR e Senac). Palestrante e consultor no Canadá, E.U.A. e Brasil. Tem exercido funções gerenciais e executivas em empresas de e-business e mídia, como Helix Commerce, Organic, Rogers, Globocabo e Editora Abril. Teve papel fundamental no lançamento pioneiro de Internet banda larga no Brasil (Virtua) e no portal Excite@Home, Canadá. Foi consultor em projetos de estratégia e reorganização corporativa pela McKinsey & Company. Possui inúmeros artigos em revistas e congressos, tratando de gestão do conhecimento, inovação, criatividade, administração de P&D e política industrial e tecnológica. Autor dos livros "Gestão do Conhecimento: o grande desafio empresarial" e "Portais Corporativos: a revolução na gestão do conhecimento".
22/10/2002

Entrevistado: Bom dia a todos! Bem vindos!

Entrevistado: Voces gostariam de se apresentar?

Deep Fritz: Na sua opinião o que exatamente são "Portais Corporativos e Gestão do Conhecimento"?
Entrevistado: Bom, portais corporativos envolvem na sua concepção mais moderna envolve o uso de um portal server e um aplication server para dar acesso a todos os aplicativos e conteúdos tanto para públicos internos como externos da empresa de forma segura e personalizada.

Carmem: Bom dia. Gostaria de saber o seu conceito de Gestão do Conhecimento.
Entrevistado: Oi Carmem. Gestão do conhecimento envolve uma revisão dos processos políticas e tecnologias da empresa a partir de uma melhor compreensão do capital intelectual da empresa e dos fluxos mais importantes relacionados a criação, identificação, organização, dessiminação e uso de conhecimento estratégico para a organização.

Deep Fritz: Que tipo de aplicativos e conteúdos?
Entrevistado: Exemplos de aplicativos: ERP, CRM, sistema financeiro, sistema contábil, aplicativos legados etc. Exemplos de conteúdos: notícias internas, notícias externas, documentos em Word, Excel etc.

Carmem: O que são aplicativos e conteúdos?
Entrevistado: Carmem, acho que já respondi na resposta anterior.

Mauricio: Você acha correto a diferenciação entre o conteúdo para acesso interno e externo?
Entrevistado: De forma crescente, as empresas através do uso de portais corporativos avançados estão criando um único repositório de informações e conhecimento. A distribuição para diversos públicos pode ser feita de forma seletiva, tanto interna quanto externamente.

osanchez: Bom dia a todos. Prezado Terra, trabalho aqui mesmo no IPT (no Laboratório de Óptica). Gostaria de saber, na sua opinião, que peculiaridades haveria num sistema para Gestão do Conhecimento para entidades tecnológicas ou empresas (instituições) que aprendem sobre tecnologia e realizam interlocução tanto com o poder público quanto com o setor privado.
Entrevistado: No caso de uma instituição pública, é maior o volume de informações que podem ser disponibilizadas para o público externo. Em alguns países, por exemplo como o Canadá, existe algo como "information access policy" pela qual todos os cidadãos têm acesso a qualquer tipo de informação gerada por servidores públicos, inclusive e-mail.

mario: qual a diferença entre intranet e portais corporativos?
Entrevistado: Estamos falando de um Fusca e de uma Ferrari. Uma intranet tipicamente envolve apenas a publicação de páginas em HTML e a inclusão de alguns aplicativos desenvolvidos "na mão". Um portal corporativo envolve níveis elevados de segurança, single sign-on, personalização, acesso através de diversos tipos de equipamentos (PDA, celular, etc.), acesso a sistemas legados da empresa, etc.

Carmem: Você acha estratégico para a organização, disponibilizar aplicativos e conteúdos para o público externo?
Entrevistado: Isto é feito de forma seletiva, mas sem dúvida nenhuma na medida que a economia é cada vez mais voltada para a venda de serviços, a venda e/ou disponibilização para partes externas é estratégica.

Mauricio: E isto se daria através de senhas?
Entrevistado: Sim.

Mauricio: Normalmente o padrão de comunicação de um portal corporativo seria o protocolo TCP/IP?
Entrevistado: Sim.

osanchez: Na sua opinião, é possível sistematizar tantas informações para um único canal de acesso? O precesso criador, tão necessário para instituições que aprendem, não demandaria ações através de outros elementos a serem institucionalizados?
Entrevistado: Um portal é apenas uma infra-estrutura avançada. A sua implementação pode ser tão avançada ou descentralizada quanto necessário

BG/Joinville: Administro um portal acadêmico, cuja demanda vem aumentando vertiginosamente à medida em que novos cursos vão sendo criados na Instituição. Minha preocupação é a seguinte: gostaria de corresponder a essa demanda, ampliar a envergadura do portal e seus recursos, sem, no entanto, sucumbir ao padrão tecnológico que vem se impondo através dos portais comerciais. Você sabe de experiências alternativas neste sentido?
Entrevistado: Eu sinceramente tenho mais contato com os portais de grandes empresas, mas também sei de empresas que desenvolvem soluções abertas, ou seja, com transferência de código. Isto tem vantagens e desvantagens.

conhecimento: O setor da construção civil com um alto grau de desperdício, não conformidades de produtos e processos construtivos, mão de obra desqualificada, cadeia de fornecedores e intervenientes no processo da construção pulverizados,etc.. Como os portais corporativos e a gestão do conhecimento poderiam ajudar a melhorar o quadro atual da construção civil brasileira.
Entrevistado: Estou convicto que a gestão do conhecimento pode ter um papel fundamental para o desenvolvimento do país. O país tem ilhas de excelência, o que falta são estratégias para disseminação do conhecimento. A Iternet e portais corporativos são um caminho natural, mas não único. Uma das grandes vantagens de portais é a utilização de personalização avançada, que permite usar uma mesma base de conhecimento, mas distribuindo-a de forma seletiva e adequada às necessidades dos usuários.

Débora: Qual a sua opinião sobre a chegada dos Web Services?
Entrevistado: Existe um grande investimento nessa área. Contudo, não tenho condições de afirmar se isto de fato vai decolar. É porém uma idéia excelente.

Mauricio: Já temos uma relação dos aplciativos e informações que disponibilizaremos no portal. Existe algum software de gerenciamento e controle do fluxo de informações e acessos? Qual é?
Entrevistado: Maurício, normalmente essa função de gerenciamento já faz parte integrada dos portais corporativos avançados.

Carmem: Qual a relação entre Gestão da Informação e Gestão de Pessoas com a Gestão do Conhecimento?
Entrevistado: A gestão do conhecimento se beneficia de várias disciplinas: gestão da informação, gestão de pessoas, gestão estratégica, métodos avançados de resultados empresariais, etc. Conhecimento se encontra principalmente nas pessoas, mas os sistemas de informação são canais para o processo de aprendizado e de aumento de conectividade entre as pessoas. A estratégia empresarial define as áreas de conhecimento que realmente precisam ser gerenciadas.

Deep Fritz: Quais empresas estão utilizando soluções abertas? Elas estão utilizando Linux e aplicações open source?
Entrevistado: Conheço uma de São Carlos, chamada Radium Systems, que não chega a ser um portal corporativo, mas trabalha bem com conceitos de gestão do conhecimento.

guedes: Qual a melhor estratégia para conseguir a informações das competências da empresa para que haja disponibilização da informação com precisão?
Entrevistado: A melhor forma de conseguir informação não estruturada do tipo competências é perguntando ou facilitando que os próprios funcionários explicitem suas áreas de interesse, competência, experiência. Sou muito crítico de grandes projetos que duram anos tentando mapear competência das empresas. Em geral, quando acabam as competências mapeadas já estão obsoletas porque foram feitas de forma centralizada, burocrática e não por pessoas que realmente detêm o conhecimento.

Luiz Ribeiro: A internet e os portais corporativos são ótimas ferramentas para gestão do conhecimento, mas existem formas mais simples e eficazes dependendo do tipo de negócio, você concorda?
Entrevistado: Com certeza, dependendo do tipo de negócio e do tamanho da empresa, soluções que não envolvem o uso da Internet também fazem muito sentido.

osanchez: Acho que dar transparência para o o conhecimento dominado (tácito e explícito) pelos colaboradores de uma instituição aumenta o seu potencial e alcance, porém não garante nenhum milagre. Na sua opinião quais devem ser as ações coadjuvantes para um melhor aproveitamento dos recursos de um portal no sentido de acelerar sua inserção no dia-a-dia de uma instituição?
Entrevistado: A inserção no dia-a-dia é o objetivo final da implementação de um portal corporativo. Com isto quero dizer que este é um processo que não acaba nunca. Diferentemente de aplicações do passado, um projeto de portal corporativo exige grande atenção ao uso pelos diferentes grupos de usuários da empresa e de fora dela. Neste sentido todas as organizações se tornam empresas de mídia.

Carmem: Quais os primeiros passos para implantação de um projeto de Gestão do Conhecimento na organização?
Entrevistado: Primeiro passo: qual a estratégia da empresa e qual são as bases de conhecimento que sustentam essa estratégia?

Deep Fritz: Já que "Portais Corporativos e Gestão do Conhecimento" lidam c/ a "dessiminação e uso de conhecimento" vc não acha q o uso de soluções open source seria o caminho natural p/ esse tipo de aplicação e que deveria ser mais incentivado?
Entrevistado: Não necessariamente. A tecnologia de informação é apenas um dos componentes. Não necessariamente o mais importante. O conhecimento não está nos aplicativos, mas na estratégia de implementação, no alinhamento organizacional, no compromentimento das pessoas, na estratégia de segmentação dos públicos-alvo, etc. Você pode ter duas empresas com exatamente a mesma tecnologia de portal e resultados absolutamente distintos. A escolha de uma tecnologia ou outra depende de inúmeros fatores: que tipos de aplicativos já existem na empresa? qual a habilidade existente nos profissionais de informática da empresa? qual a propensão ao risco? qual o timing esperado da implementação? etc.

Carmem: Geralmente, há uma certa resistência das pessoas, quanto a disseminação do conhecimento tácito, por vários motivos. Estive lendo alguns artigos e cases de empresas que dão prêmios em dinheiro visando "motivar" os colaboradores / especialista que detêm o conhecimento. Qual a sua opinião?
Entrevistado: Também escrevi sobre isso. A remuneração financeira pela contribuição de objetos de conhecimento individuais para o repositório geral da empresa é uma área emergente. De maneira geral, isto ainda não está arraigado nos processos gerenciais e culturais das pessoas e empresas. Contudo, servem mais, na minha opinião, como um sinalizador do tipo de atitude que se espera dos colaboradores e também uma forma de reconhecimento daqueles que normalmente já contribuiam com seu conhecimento mas não eram reconhecidos.

newgc: Como você situa a Gestão do Conhecimento frente a outras formas e paradigmas de gestão: por resultados, de negócios, sistemas da qualidade, etc.
Entrevistado: Não há dúvida que a gestão do conhecimento significa uma evolução de várias teorias e ferramentas gerenciais do passado, como por exemplo gestão da qualidade. O que há de relativamente bastante novo é o fato de que nos últimos anos a economia informacional se tornou muito mais relevante. O maior valor dos ativos intangíveis frente aos demais ativos da empresa também fez com que as empresas focassem de forma mais sistemática e METÓDICA nos processos de criação desses ativos, o que geralmente envolve criação e disseminação de conhecimento. É um pouco como o marketing. No passado esta função não existia de forma sistematizada nas empresas. Hoje você não encontra uma empresa de porte razoável que não tenha uma função de marketing.

Mauricio: Na implementação da Gestão de Conhecimento, quais as barreiras mais comuns que você teve de enfrentar ou que teve conhecimento que outras empresas enfrentaram?
Entrevistado: É evidente que a falta de compromisso da alta administração é um impecílio. Mas em muitos casos tenho percebido que várias empresas se engajam neste processo com uma estratégia de "varejo". Quero dizer com isto que como querem abraçar o mundo, acabam não conseguindo ter foco e mostrar como a gestão do conhecimento impacta diretamente o negócio. Outro erro importante é não comunicar a importância de gestão de conhecimento para os próprios funcionários.

Carmem: Qual a metodologia mais usada para implementação da Gestão do Conhecimento em empresas de médio porte?
Entrevistado: São poucas as empresas de médio porte com estratégia de gestão de conhecimento já bem estruturada. Numa empresa com poucas unidades geograficamente separadas, é possível focar mais na socialização e mentoria como uma estratégia de transferência de conhecimento.

Luiz Ribeiro: Nas áreas de chão de fábrica também se faz necessário a disseminação do conhecimento, qual a maior dificuldade que você vê em implantar projetos de gestão de conhecimento nos setores da empresa em que as pessoas são qualificadas específicamente pra uma função mas deixam a desejar no nível de conhecimentos gerais?
Entrevistado: Luiz, não acho que isso seja um impedimento. O conhecimento para crescer, frutificar e ser útil precisa de um contexto específico. Pessoas, mesmo de formação menos avançada, também detém muito conhecimento aplicado. O próprio movimento de círculos de qualidade já trabalhava com a tentativa de explicitar parte da base de conhecimento de chão de fábrica. Ao contrário da gestão do conhecimento, no entanto, não tinha ferramental para uma distribuição mais dinâmica, personalizada, das lições aprendidas.

osanchez: Quer dizer que a idéia é tornar o portal um vício, não é? Tal como o vício de bater um papo depois do almoço, no café, com a comunidade local ou com pessoas que compartilham de visões convergentes ou, pelo menos, não excludentes. OK! Aqui no IPT os trabalhos normalmente são desenvolvidos por projetos. Para compartilhar os resultados há que se pensar no sigilo (principalmente com a mudança do perfil de nossos clientes) mas há o desafio de motivar os gestores e colaboradores dos projetos a "reformatorem" suas ferramentas de gestão para usufruir do compartilhamento das informações que geram. A saída, se houver, deve trazer ganhos "de conhecimento" para obter a adesão da comunidade. Qual a sua sugestão para o IPT?
Entrevistado: Sim, de fato é importante que o portal se torne um vício. Mas para se tornar um vício, ele precisa ser muito amigável para os usuários, porque senão as pessoas vão encontrar outros caminhos para compartilhar ou codificar seu conhecimento. Quanto ao sigilo, isto de fato pode ser totalmente gerenciado a partir da disseminação de informações de forma diferenciada para diferentes públicos. A estratégia de implementação de gestão do conhecimento no IPT, de fato passa pelo conceito de comunidades, que tem interesses de negócio de aprendizado comum. Isto quer dizer que a perspectiva não é funcional ou a partir de unidade técnica, mas a partir dos usuários que participam da construção coletiva do conhecimento organizacional do IPT.

Carmem: Em empresas de consultoria há arquivos eletrônicos de "dossiês técnicos" de todos os processos. Esses arquivos geralmente estão em servidores. O tratamento dessas informações (registro, catalogação e disseminação) contempla alguma etapa do projeto de Gestão do Conhecimento?
Entrevistado: Não sei se entendi muito bem sua pergunta.

Carmem: Favor indicar leitura (revista técnica) sobre o assunto para os interessados em acompanhas as novidades nesta áreas.
Entrevistado: Logicamente, eu tenderia a sugerir a leitura dos meus próprios livros. Na Internet também há um grande número de sites relacionados a gestão do conhecimento. Basta você digitar "gestão do conhecimento" em português ou em inglês e encontrará ampla literatura.

visitante: Qual a importância do GED nesse processo?
Entrevistado: Os documentos da empresa fazem parte do acervo de capital estrutural da empresa. Agora, a importância do GED varia muito dependendo do tipo de negócio. Exemplo: na área farmacêutica é muito importante.

newgc: Gostaria de informar que aqui no IPT temos alguns projetos em maturação na área de gestão do conhecimento. A utilização de software livre será a diretriz de pelo menos alguns deles. Aliás, nosso site - que hoje trata uma parte de nosso conhecimento e através do qual se dá este bate-papo - foi todo construído em ambiente de software livre...
Entrevistado: Newgc obrigado pela informação.

osanchez: Obrigado pela oportunidade da entrevista e parabéns pelo seu trabalho. Gostaria de conversar mais sobre o papel das redes inter-institucionais. Fica para a próxima!
Entrevistado: Foi um prazer estar aqui com vocês. Acredito que alguns de vocês se tiverem dúvidas mais específicas poderão me procurar. Sou consultor aqui da casa e terei o maior prazer em trocar novas idéias com vocês. Abraços, até uma próxima. Terra.

 

Fonte: www.ipt.br/

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