:: 07.12.09 :: |
No futuro, até Internet e pelo esgoto |
As voltas de mountain bike resultaram no menisco quebrado e o "escambau". Mas a cabeça só foi afetada - como diz -, pelos próprios delírios, que contribuem para o pensamento de futuro, formação do que tende a ser. O engenheiro elétrico, mestre em informática, PHD em computação (e batuqueiro de maracatu) Silvio Meira, expõe seus "delírios" no presente: "Eu sou das pessoas que acredita piamente, de uma forma intensa, quase única, que devemos trabalhar de manhã, de tarde e de noite para construir o futuro, porque nós vamos viver o resto das nossas vidas lá."
Nascido em Taperoá, interior da Paraíba, mora, na realidade, nos seus endereços de email e nas redes sociais da Internet. Não a toa que registrou um domínio de correio eletrônico com o próprio sobrenome: silvio@meira.com.br. E a responsabilidade de compor o futuro é grande. Também por isso, o mundo virtual é o cotidiano do cinqüentão de sotaque arrastado, fala apressada, ideias justíssimas e sem o estereótipo de intelectual CDF. Sem medo de dizer o que sua formação lhe deixou como legado, Meira amplia o debate sobre inclusão digital e fala apenas em "inclusão, ponto!", seja literária, seja sanitária ou econômica. Está na ponta da língua do professor de informática o caminho para ampliar a banda larga no País: o esgoto. Isso é o que um extenso projeto de saneamento poderia levar à população, além dos impactos positivos na saúde. A obviedade passa longe dos dizeres "meiristas", mas, como todos que tendem a genialidade, nem sempre é escutado. "Eu já propus isso mais de uma vez. Conecta o País inteiro". Em uma sala e, a contragosto longe da movimentação -, com o computador ligado, conectado à internet, Meira deu entrevista exclusiva ao O POVO em sua rápida passagem pela Capital. O conteúdo dá sequência à reportagem especial "O desenvolvimento passa pela internet", que aborda a universalização da internet como fundamental para "a economia do conhecimento". O POVO - Que momento passa o Brasil em termos tecnológicos? Silvio Meira - O Brasil vive um momento de abundância de recursos no setor Federal e na maioria dos setores estaduais de ciência e tecnologia, que representa, talvez o pico de percentual em relação ao PIB (Produto Interno Bruto). O nosso principal problema é fazer bom uso desses recursos, investir na qualidade das propostas de uso dos recursos para o que a gente chama de ciência, tecnologia e inovação, de tal maneira que, quando você quiser investir em ciência, saiba no que e porque está investindo. Ninguém faz desenvolvimento tecnológico porque é bonito. Ninguém faz tecnologia porque é necessidade da sociedade de uma maneira abstrata. Você faz desenvolvimento, na minha interpretação, porque é uma forma de tornar as empresas mais aptas a sobreviver. O POVO - Como o Brasil está em relação ao mundo no aspecto de ciência e tecnologia? Silvio Meira - Muito mal, muito mal. Está mal pelo seguinte: o problema do desenvolvimento tecnológico não é a tecnologia. A gente tem que desmitificar isso. Não existe um negócio chamado "pequena empresa de base tecnológica" ou "empresa de base" tecnológica. Existem empresas, e as empresas funcionam num lugar específico da sociedade chamado mercado. O maior problema do Brasil é que o Brasil tem muitos grandes empreendimentos multinacionais no mercado brasileiro. Todo mundo que é relevante em alguma área no mundo está no Brasil, e pouquíssimas empresas brasileiras são relevantes no mercado mundial. Então tem um descompasso aqui quando você fala em empreendimento. O POVO - E o Nordeste, segue o estágio de desenvolvimento tecnológico do Brasil? Silvio Meira - O Nordeste é uma região periférica do ponto de vista não só de tecnologia, mas de inovação, do uso das melhores práticas de processo de qualidade de serviço, o que tornam ainda mais impressionantes os sucessos que o Nordeste tem. Mas você não pode dizer que existe um patamar de competitividade que dependa de inovação e tecnologia aqui que a gente possa estar confortável com ele. Então, o que a gente precisa entender é o que é inovação. Inovação é uma coisa que acontece no mercado, e só no mercado. Inovação tem um número muito grande de insumos. Um dos insumos de inovação é tecnologia, mas é um dos insumos. Modelo de negócio é insumo, cultura é insumo, regras de mercado é insumo, educação do consumidor é insumo, financiamento pro desenvolvimento é insumo, crédito é insumo, ambiente de uso das coisas que você está propondo é insumo, janela de oportunidade é insumo. Eu sou contra (eu sou de tecnologia, então eu posso ser contra, aspas, mim mesmo, minha própria área) eu sou contra essa ideia da gente achar que a tecnologia vai resolver algum problema. Tecnologia é meio, tecnologia é meio. Quando você senta e diz: "Vamos melhorar a qualidade da saúda da população". Tecnologia tem a ver com isso. Tecnologia de muitos tipos. Tecnologia da farmos, tecnologia de informação, melhor controle dos processos de aplicação de vacina, maior entendimento das endemias, etc, etc, etc. O POVO - Os projetos de inclusão digital são suficientes para o que eles são propostos? Qual a importância da inclusão digital? Silvio Meira - Qual é a importância de um projeto de alfabetização? Só 25% da população brasileira é alfabetizada. Alfabetizada no sentido de que, se ela ler um parágrafo e você fizer uma pergunta sobre o parágrafo, ela consegue responder. Qual a importância da inclusão literária das pessoas? É infinita, mas ela agrega o que de valor para todo mundo depois? Não, isso é um given, todo mundo tem que ter isso. Todo mundo tem que ser alfabetizado, da mesma forma que todo mundo tem que ser incluído digitalmente. Na hora que você botar todo mundo dentro do sistema, a diferença competitiva para todos é nenhuma, o sistema melhora como um todo, o País melhora como um todo, mas ninguém vai fazer mais ou fazer menos, porque vai todo mundo para o mesmo patamar. Na Suécia, a inclusão digital é 100%, assim como a inclusão literária é 100%. Qual a importância da inclusão matemática? Oitenta por cento dos alunos que terminam o segundo grau não sabem que 80% é oito em cada dez. Então qual a importância da inclusão matemática? É infinita. Mas uma vez você chegar lá ela é irrelevante, porque quando todo mundo tem alguma coisa, o que você faz é modificar o patamar da sociedade como um todo. Isso (inclusão) vai melhorar a capacidade das pessoas de chegar em um lugar, vir uma pesquisa eleitoral na televisão e não ser enganado. O POVO - O Brasil acompanha a inclusão digital mundial? Silvio Meira - O Brasil está atrasado, como está atrasado em esgoto. Você pode até dizer: "E eu posso combinar as duas coisas ao mesmo tempo?" Pode. Você pode pegar o projeto de levar esgoto para todas as casas e, dentro do esgoto, você colocar fibra ótica, por exemplo. Eu já propus isso mais de uma vez. O custo marginal de você botar fibra dentro do esgoto é irrelevante, porque o grande custo de levar fibra ótica é cavar o buraco e botar o duto. Então, bota no esgoto que está lá. Conecta o País inteiro. O fato é que a gente está atrasadíssimo. O Brasil tem uma das piores qualidades de banda para acesso a internet de todo o mundo. O problema da inclusão não é só incluir digitalmente as pessoas. Eu não vou a uma agência de banco há uns cinco anos. Quem está excluído digitalmente tem ir ao banco. O banco entrou em greve. Eu não estou nem aí, nunca vou num banco! Se não desligarem o sistema de informação, eu não estou nem aí. Banco é irrelevante. Se você destruir todas as agências de banco e ele continuar funcionando na internet, para mim não vai fazer a menor diferença. E eu acho que isso é um dos futuros possíveis do banco: não ter agência nenhum, porque não tem nada para você fazer lá, porque não circula dinheiro físico. Do ponto de vista do desenvolvimento tecnológico para habilitar esse sonho que eu acabei de dizer agora, isso tem um caminho muito grande para a gente percorrer e todo o negócio tecnológico que tem um caminho muito grande para percorrer e é revolucionário tem impacto muito grande. Qual o impacto social de você acabar com todas as agências bancárias? Centenas de milhares de pessoas vão para as ruas procurar outra coisa para fazer, certo? Em compensação, haverá uma montanha de outras coisas para fazer, justamente porque você "azeitou" a economia, você lubrificou a economia para ela funcionar de uma forma que eu não preciso ir no banco porque tem um negócio que eu só pago no banco. O POVO - Aqui no Ceará, tem um projeto do Governo do Estado chamado Cinturão Digital, que prevê levar banda larga, a princípio, para 86% da população urbana do Estado. Você acha que o Governo Federal também deve intervir na geração de banda larga para a população? Silvio Meira - O governo faz intervenções variadas, em lugares variados, por razões variadas. Vamos voltar para a Suécia. Quem botou banda larga, fibra ótica em Estocolmo, foi a prefeitura. Perguntei para o prefeito porque eles querem fazer isso na Suécia. "A gente chegou a conclusão de que, se a gente deixasse a iniciativa privada fazer, três em cada quatro cidadãos em Estocolmo ia ter 100 megabits/segundo (Mbps) na porta. Um ia ficar sem. Vinte e cinco por cento da população ia ficar sem banda larga. Larga mesmo. Porque banda larga, para mim, é 100 Mbps, no mínimo. Abaixo disso, é outra coisa. Nesse sentido, o Brasil tem zero de banda larga. A prefeitura montou a banda larga na cidade inteira, criou uma companhia, e depois que estava tudo funcionando, ela vendeu essa companhia e ficou como acionista. Isso é uma maneira muito inteligente de fazer a coisa. Se você imaginar o Governo do Ceará vai - aspas - dar banda larga para 86% da população, isso significa que ele vai criar um mega centro de custos, onde, mesmo que essas pessoas saiam da categoria de renda ou localização, onde elas não precisam mais daquele espelho retrovisor, ele vai continuar oferecendo esse negócio. Então, tem que se julgar, quando você faz qualquer projeto de compensação. "O setor privado não está fazendo, eu vou fazer". Você tem que medir o seguinte: Isso é ou não é papel do Estado? É papel do Estado, na minha opinião, enquanto a iniciativa privada não puder fazer por variadas razões. Por falta de interesse; por falta de possibilidade de rentabilizar um investimento naquele espaço econômico em particular, seja lá o que for. Mas você tem que botar o olho naquele negócios e dizer: "Como é que eu saio disso aqui?", porque senão você tem um estado que você vai fazendo cada vez mais coisa e cada vez menos renda. Cada coisa a mais que o Estado faz, você tem que perguntar de onde é que vem o imposto que vai pagar aquele negócios ali. Se o Estado for fazer tudo, quem é que vai pagar o imposto? O POVO - O momento então é de o Governo Federal pensar em intervir na inclusão digital através da implantação de banda larga de abrangência nacional? Silvio Meira - O momento é do Governo olhar e se articular com o plano nacional de banda larga, de pensar ao mesmo tempo como é que ele vai olhar para o futuro e organizar a possibilidade para que, no Ceará ou em qualquer outro lugar, sejam criados empreendimentos que obtenham renda a partir disso. O problema de exclusão digital é um problema de exclusão econômica, ou da pessoa ou da empresa ou da região onde o cara está. Às vezes você tem um cara que até tem renda para ter acesso a internet, eventualmente de banda larga, numa região a 500 quilômetros de Fortalezas - Senador Pompeu, Iguatu, sei lá - mas a economia como um todo naquela região não torna razoável que um agente privado ache que não vale a pena colocar banda larga em Iguatu, onde, por acaso, eu morei já. Então, o governo tem que intervir, mas ele tem que saber a hora dele sair. O governo tem que fazer o que é essencial combinado com o que não pode ser feito pela iniciativa privada. O POVO - Professor, ainda nesse contexto de intervenção governamental, também ampliando o debate sobre a pesquisa científica e tecnológica, quais os principais desafio para adequar tecnologia, desenvolvimento científico e aplicação à população? Silvio Meira - O principal desafio para você fazer com que resultados científicos e tecnológicos que melhores a qualidade de vida da população cheguem ao mercado é empreendedorismo. O Brasil tem uma deficiência absurda de capacidade empreendedora, tanto que a gente aponta estado por estado, cidade por cidade, as poucas pessoas empreendedoras. A maior parte dos empreendedores que a gente tem no Brasil não depende de ideias geniais ou de alta tecnologia, são pessoas capazes de fazer. As pessoas são muito trabalhadoras, em coisas existentes. Ao contrário do que muita gente quer propagar, não é um povo preguiçoso coisa nenhuma. A gente trabalha que nem louco nesse país. O Brasileiro trabalha muito mais horas por semana do que os franceses, do que os ingleses, os portugueses, os europeus em geral e a vasta maioria dos americanos. O problema é que nós temos um déficit fundamental de infraestrutura em várias categorias, e uma delas são as infraestrutura para empreender. É difícil, é complexo e não há uma educação para empreender. A gente tinha tecnologia para resolver o problema de polio (poliomielite) há décadas no Brasil. Gastou um conjunto de empreendedores cívicos, uma espécie de mobilização nacional, que existe até hoje, que prova que o Brasil pode sim fazer coisas muito complexas em âmbito nacional e continuamente. Faz décadas que o Brasil vacina sua população inteira contra poli. O Brasil foi um dos primeiros países em desenvolvimento a erradicar totalmente a poli. Porque? Porque entendeu o problema e fez os usos apropriados das tecnologias para resolver o problema. Se você disse: "Está aqui a vacina". Certo! Como é que você distribui isso na sociedade? Como é que você transforma isso num problema de segurança nacional ou um problema de saúde pública? Que ver um outro exemplo? Aids. Está aí, você tem países da África que tem 50% da população adulta de HIV positivo. A tecnologia está lá. Por que eles não resolveram o problema como a gente resolveu aqui no Brasil? Qual foi o último dia que vocês publicaram uma notícia no O POVO de que alguém tenha morrido de Aids? Vai fazer uns quatro ou cinco anos, certo? Por que? Porque a gente criou um programa nacional para tratar - não é para combater Aids - a epidemia de Aids. O cara só morre de Aids hoje no Brasil em duas situações: ou ele é azarado ou ele não quer se tratar. Azarado significa ele está naquele grupo de ultrarrisco que o coquetel não age em cima dele. O POVO - A vinda da Copa do Mundo de 2014 para o Brasil pode colaborar para avançar a ciência e tecnologia no País? Silvio Meira - Qual foi o resultado Pan (Jogos Panamericanos) no Rio de Janeiro? Qual foi a mudança empreendedora que teve no Rio de Janeiro por causa do Pan? A Copa do Mundo não é um negócio que surge do nada. A gente tem uma história bem recente do Pan no Rio. Me diga qual foi o resultado do Pan. Surgiram quantas empresas matadoras no Rio de Janeiro por causa disso? Se a gente não tomar cuidado, a Copa do Mundo e depois as Olimpíadas vão ser meros investimentos em infraestrutura seguidos depois de anos e anos e anos de reclamação e pagamento de contas. O Brasil ainda tem esse negócio messiânico: "Fulano ou um tal evento vai salvar o país". A gente tem que desmitificar isso. Não tem nenhuma coisa que vá salvar o Brasil. O Brasil é um lugar muito complexo.A gente tem que passar a acreditar que a vida não é uma loteria, que a vida não é um conjunto de eventos isolados. Tecnologia e ciência têm muito a ver com isso. Para você gerar uma base científica capaz de ter um impacto razoável na economia leva décadas. Vai ter um impacto, mas para que esse impacto seja de longo prazo, a gente tem que estruturar um conjunto de processos antes, durante e depois, para que esse impacto seja estrutura e não conjuntural. Tirando os ultramegaengarrafamentos que vão ter, vai sobrar o que depois? Um megaestádio par quem jogar? O POVO - Você morou em Iguatu, no Interior do Ceará... Silvio Meira - (interrompendo) Em 1968 e 1969. Morei em Fortaleza também em 1969 e 1970. Para você ver como tecnologia é um insumo essencial para o desenvolvimento, mas que você tem que estruturar para que ela efetivamente aconteça. A eletricidade é um negócio século XIX. Eu cheguei em Iguatu em junho de 1968. A energia elétrica chegou em maio de 1968. Eu cheguei junto com a energia elétrica. A minha casa tinha uma televisão que a gente tinha trazido do interior de Pernambuco. Quando eu fui para o Iguatu, a televisão ficava na janela da casa da gente para fora para o pessoal da rua ver. Juntava dezenas, às vezes, centenas de pessoas. O fato de você ter, não só a ciência e a tecnologia, mas às vezes o fato de ter a indústria, não significa que você vá universalizá-la não. Pernambuco foi o primeiro estado brasileiro, isso aconteceu só ano passado, que universalizou a distribuição de energia elétrica. Você pode até não ter energia elétrica na sua cada, mas todas as casas de Pernambuco, inclusive na Zona Rural, têm uma distribuição de energia elétrica na frente. O cara pode desligar, mas todas as casas têm a possibilidade de se conectar e ter energia elétrica, cento e tantos anos depois da tecnologia está disponível. Esse negócio de inclusão, não é de inclusão digital. Nós não estamos falando de inclusão tecnológica ou inclusão digital. Estamos falando de inclusão, ponto! O Brasil precisa ter uma inclusão de esgoto, inclusão educacional, o Brasil precisa ter inclusão digital. Inclusão digital, por acaso, pode ser um mecanismos essencial para você diminuir o custo, aumentar o alcance e diminuir o tempo para fazer uma inclusão literária, econômica... é o que a gente chama de inclusão habilitadora. Vamos apostar no desenvolvimento tecnológico. Não! Vamos apostar no desenvolvimento. Você precisa de um projeto de criação de empreendedores. Tem que ser possível as pessoas terem uma visão ortogonal da sociedade que não é só concurso público. Se eu jogar todo mundo dentro do Estado, quem vai pagar o imposto para sustentar esse pessoal? Vão viver tudo de transferência de Brasília? É um problema tenso na sociedade. Quem vai dirigir ônibus em Fortaleza no futuro? Tecnologia. Por que? Porque nós aqui não conhecemos ninguém que tem um filho dizendo: "Eu queria que meu filho, quando crescesse, fosse motorista de ônibus". Ninguém conhece. Se tem qualquer coisa que você não quer que seu filho vá ser, esse negócios vai ser feito por um robô. Detalhe: já é possível hoje, você soltar um carro no meio da rua e dizer: "Vá para o aeroporto". E ele vai sozinho no meu do trânsito. Inteligência artificial. O que falta fazer? Falta a inovação, acultura o processo, educar as pessoas. Você já anda em um avião que não ter piloto. O piloto está lá se acontecer alguma coisa. O POVO - Fala-se muito em democratização da informação por meio da internet, também através das mídias sociais virtuais. Mas há poucos filtros na circulação das informações. Corre o risco da gente está entrando em uma era da descrença na informação pela internet? Silvio Meira - O boato não é uma coisa nova. A mentira também não. Inclusive é glorificado na literatura mundial, quando todo mundo acha que o Cavalo de Troia é um negócio arretado. O Cavalo de Tróia é uma grande mentira. Boa parte do que a gente leu ou ouviu na história da humanidade é ficção. Isso o nosso folclore popular também. O POVO - Mas eu falo em termos de notícia, comunicação social? Silvio Meira - Eu estou falando de informação. Você convencer há dois mil anos atrás que teve um cara que morreu, ressuscitou e subiu aos céus, isso é informação, informação de importância psicológica, social e econômica impressionante. Taí pelos últimos dois mil anos, quando você cita esse "meme"... Tu conhece o conceito de "meme", né? Informação, empacotada, com a capacidade de se replicar. É uma espécie de DNA de informação. Mimetizar alguma coisa. Eu crio a informação: morreu, era filho de Deus, ressuscitou ao terceiro dia e está lá sentado à direita de Deus pai. Isso é informação. Saiu nos jornal da época. Foi contado de boca a boca numa rede social imensa. O POVO - Mas é possível mesmo fazer essa comparação com o que acontece hoje em dia em termos de comunicação? As pessoas não estão muito mais atentas hoje? Silvio Meira - Estão? Então me explica como é que tanta igreja evangélica assaltando o povo de manhã, de tarde e de noite, e as pessoas pagando. Todo dia. Explica aí o que é que mudou. Nunca foi tão rentável ter uma igreja. Isso é baseado no meme, é baseado nas informações, é baseado em redes sociais. Redes sociais existem desde que o mundo é mundo. A informação sempre foi mediada por interesses. Vai continuar sendo mediada por interesses. Inclusive, no negócio que a gente está falando aqui, jornais ou editores, grupos empresariais de comunicação, sempre tiveram interesses. No passado, inclusive, eles eram bem mais explícitos. Você fundava um jornal e chamava Jornal Republicano, O Abolicionista. O Abolicionista tinha uma agenda e dizia: "Esse jornal vai ser publicado para promover essas ideias aqui". Então, você já sabia desde o começo que ele tinha um viés. Depois a gente inventou um negócio de imprensa livre e independente. Não existe imprensa livre e independente. Não existe opinião livre e independente. O conjunto de opiniões que eu estou emitindo nesta entrevista aqui é resultado de um processo de educação, formação e de um monte de pré-conceito, que todos nós temos, porque somos falíveis. O POVO - Você confirmou que hoje é mais provável, mais fácil, que as pessoas filtrem as informações. Silvio Meira - É muito mais fácil espalhar também. O POVO - Aos que já estão inclusos digitalmente... Silvio Meira - (interrompendo a entrevista) Tu tem mais quinze minutos, porque eu tenho um debate às cinco e meia. Foi para isso que eu vim aqui para Fortaleza. Conseguiu fazer meu check in? (perguntando para a assessora que acompanhava a entrevista) - Consegui. - Salvou a minha vida. O POVO - No final deste ano, completam dois anos que tiveram início as transmissões da TV digital. Silvio Meira - Isso não deu certo. O POVO - Houve muita repercussão no lançamento, mas pouco se difundiu em amplitude maior. Porque não deu certo? Existe ainda o desafio da TV digital no Brasil? Silvio Meira - Não tem desafio não, não tem modelo de negócio! Pense na Globo local. Eles têm repetidora no Interior. Eu chego e digo: "Aqui está um proposta comercial interessantíssima. Você dobra seus custos de operação e matem a receita". Se tu fosse o dono, iria dizer o quê? "Você não tem uma proposta melhor?". Você cria uma operação que é absolutamente necessária, porque a tecnologia analógica para transmissão de televisão está depois do apogeu vai desaparecer, vai deixar de ser fabricada. Mas, ao invés de você dizer que você vai fazer esse negócio de uma maneira que você está substituindo uma coisa por outra, você doura essa pílula com um conjunto de possibilidade tão grande que parece que vai chegar um novo messias eletrônico para salvar o País. Sempre, de novo, aquela vertente do Brasil: "Agora vai mudar tudo, vamos salvar tudo". E se esqueceu de combinar com o pessoal da televisão. Faltou pensar em um modelo de negócio que transformaria TV digital em uma coisa amplamente aceitável pelas pessoas. Como não se transmite uma programação diferente da TV digital, eu, usuário, não tenho nenhuma razão para comprar uma TV digital. O POVO - Então foi um fiasco a TV digital no Brasil? Silvio Meira - Não, foi um sucesso. Os objetivos da TV digital no Brasil eram dois. Um, era impedir a entrada de novas emissoras no espectro (largura de faixa eletromagnética que se usa passar o sinal). Para isso, era essencial que fosse mantida a divisão de espectro como ela é. Isso aconteceu. Cada estação tem hoje exatamente a quantidade de espectro que ela tinha antes. Então, os canais lutaram bravamente e conseguiram uma grande vitória que foi manter cada um a sua largura de banda. Dessa forma, não dá para entrar ninguém novo. A segunda foi excluir os operadores de telefonia móvel da TV digital no celular. Isso também foi conseguido. Tendo sido conseguido essas duas coisas, o projeto é um sucesso. E é mesmo. O POVO - Não havia então a intenção de levar sinal de televisão mais ampla e com maior qualidade para a população? Silvio Meira - Tem também. O POVO - Mas esse não foi um sucesso? Silvio Meira - Vai ser, daqui a uns quinze anos. Quando eu for trocar minha televisão, só vai ter televisão digital para comprar. Como eu troco televisão uma vez a cada dez anos. Daqui para lá, a minha televisão vai ser digital. Além do mais, televisão digital já existe, ela está dentro da internet. Isso vai resolver o problema. A medida que você botar banda larga mesmo, todo mundo vai ter televisão em casa por dentro da internet, como já existe. Isso é uma questão de tempo. O POVO - O Governo Federal autorizou o uso irrestrito da internet para as campanhas eleitorais. Em que medida isso pode mudar a dinâmica das campanhas no Brasil? Silvio Meira - É outra coisa que as pessoas dizem: "Vai mudar tudo". Não vai mudar, porque muito menos do que 20% da população tem acesso diuturno, contínuo e constante à rede. Tem quatro milhões de brasileiros no "youtube". Isso é 2% da população do Brasil. Normalmente, a porcentagem do Brasil que está incluída digitalmente e conectada o tempo todo é dificílima a probabilidade de mudar a opinião dele sobre qualquer coisa. Não é a massa de manobra que está lá. Uma eleição é definida pela massa de manobra. Tem um pessoal que está ideologicamente fixo no lado A, outro no lado B, lado C, lado D e lado E. Então, tem um pessoal variável aqui no meio. A quantidade de gente variável que está solta na internet é pequena de mais para a internet agora ter um impacto fundamental sobre a eleição. Mas, quem começar a praticar mídias sociais na internet, quem começar a entender como a rede funciona, quem usar a rede como laboratório, quem usar a internet como laboratório, vai se tornar imbatível. Mais cedo do que tarde, todo mundo vai estar na rede. O impedimento fundamental não é as pessoas não quererem estar lá. O impedimento fundamental é a capacidade de pagar para estar lá. Você vê hoje, a meninada pobre da periferia, que eles estão gastando uma fortuna nas lans houses. Tem 130 mil lans houses no Brasil. Taperoá tem 30 para 12 mil habitantes. Dá uma lan house para cada 400 pessoas. Esse pessoal que já nasceu na rede, mesmo parcialmente na rede, ele não vai sair de lá. O POVO - A música na internet é um processo inevitável e já real. Como utilizar a ferramenta internet para a música e isso ser meio de sobrevivência do mercado fonográfico? Silvio Meira - Década de 80 do século passado. Você digitaliza a música. Nasce o CD. Na hora que você faz isso, você cria a semente de destruição do modelo de negócio, desse negócio da música gravada. Quando eu digitalizo, eu crio a possibilidade de fazer cópias iguais, absolutamente iguais. Antigamente a gente emprestava disco. Eu morria de ódio, porque eu tinha um prazer infinito com meus LPs e as pessoas chegavam pedindo um disco meu e às vezes o cara era amigo de mais para eu não emprestar. No CD, na hora que o cara te pede emprestado, você diz: "Te dou essa cópia". Na hora que você colocou internet na equação, eu posso fazer o seguinte: eu copio o CD e jogo na internet. Você pede emprestado, eu entrego para você. O link é essa aqui, baixe aqui. Quando você generaliza isso, você diz. Porra, eu posso fazer esse bem para todo mundo. E melhor, eu não preciso pedir licença para o cara que gravou. O modelo de negócio foi para o espaço e não adianta tentar controlar isso. Esse modelo de negócios tem uma semente de destruição, aí, sim habilitada por tecnologia. Cópia digital combinada com internet banda larga. A gente está ainda para o seguinte modelo. O próximo estágio é o seguinte: por que eu tenho que ter os arquivos? Qual o inferno que tem hoje para todos os envolvidos? Você chupa cinco mil músicas, põe no disco, o disco colapsa, você perde todas. Lá vai você de novo atrás da sua coleção. A gente está indo para um lugar onde não tem mais o arquivo. Você tem o serviço. Nós vamos sair da cultura como arquivo para a cultura como serviço. Isso vai afetar não só o mercado de áudio e vídeo, mas vai afetar ainda mais radical e catastroficamente o mercado de literatura. O fato de que você tem leitores capazes de apresentar para você uma qualidade de livro e jornal em uma página em que tem uma bateria que dura quinze dias, como Amazon Kinder, como o Sony Reader, como Table da Aplle, vai desmontar em uma velocidade ainda maior a indústria do livro. Isso vai acontecer de uma hora para outra. Então conteúdo vai virar serviço. Agora, tentar prender essa fase intermediária da indústria de conteúdo nas amarras, nos arcabouços da geração passada é a mesma coisa de voltar para a época da partitura. Em toda transição tem esse conflito. O pessoal da geração passada se sente traída pelo futuro. Está cheio de gente aí que não consegue entender o que muita banda de forró aqui do Ceará, do interior de Pernambuco, do Pará, entenderam. Como é que Calipso consegue juntar 50 mil pessoas para um show em Recife. Cara, 50 mil pessoas em um show deve ser apavorante. Eu queria está em cima de um palco desse para olhar a multidão fazendo barulho. Todo aquele povo que estava lá pegou as músicas deles na internet e depois pagou R$ 50 por ingresso. Dá R$ 2,5 milhões em um show. E esse foi um dos 50 shows que eles devem ter feito ano passado com o mesmo público. O que você tem que entender é que ninguém nunca ganhou dinheiro com disco, só as gravadoras. E é impressionante o número gigantesco de artistas que ficam o tempo todo se lamentando em um passado em que não ganhavam dinheiro. Olha para o futuro, porra! O passado não vai voltar. Tem uma coisa garantida: o passado não vai voltar. Essa é a única garantia que a gente tem. Por isso que eu vivo permanentemente no futuro. O presente já está passando, e se você não está aproveitando ele, tenta entender qual é o conjunto de plataformas, de usos, de mecanismos que vai fazer com que a economia, a sociedade, a educação, a cultura, funcionem no futuro, porque é lá que as coisas vão acontecer. |
| Fonte: opovo.uol.com.br |