Pecém: um domínio muito maior do que o imaginado!
Fernando
Távora Filho - Engenheiro
De tanto ouvir controversas opiniões sobre o Porto do Pecém
decidi ir até a orla poente e olhar com os meus olhos a grande
obra que o governador Tasso Jereissati decidiu realizar. Sendo profissional
do setor dos transportes e tendo participado do projeto, licitação,
construção e inauguração efetiva do Complexo
Portuário e Industrial de Sepetiba, como diretor da Companhia Docas
do Rio de Janeiro, esse encontro permitiu algumas comparações
e avaliações sobre o moderno conceito de terminal marítimo,
especialmente nesse longo trecho de litoral nordestino, que vai da foz
do Potengi (Natal) até Belém, onde são rarefeitas
as favorabilidades naturais para ancoradouros em águas profundas
e abrigadas.
Não irei enveredar neste momento e neste registro pela interminável
e quase sempre problemática discussão ambientalista, que
se tem motivos para clamar contra os crimes ecológicos, notadamente
em face das macro-devastações na Amazônia, em muitos
outros casos exacerba-se em seus critérios de avaliação
e de ponderação do que seja a preservação
do meio ambiente em detrimento da sobrevivência ou conveniência
estrutural da coletividade humana. No caso da implantação
do porto do Pecém e das suas áreas industriais ciliares
ao terminal, as críticas que tenho escutado são pouco substantivas.
Dá-me a impressão de muxoxo de ciúme mal resolvido
em face da realidade surpreendentemente bem acomodada da natureza e das
obras que se sucedem, associadas à leituras otimistas que personalidades
inquestionavelmente competentes fazem sobre os seus efeitos na economia
do estado e da região. O conjunto de obras e instalações
que visitei na aprazível região de São Gonçalo
do Amarante certamente longe de críticas poderia ser referenciado
como modelo de salvaguardas e de assimilação das peculiaridades
ambientais à interface do litoral dunoso e concordante com o território
de transição do agreste e os seus carnaubais de alagados.
Não consigo, como atento defensor da natureza e seu estudioso,
na qualidade de geólogo, encontrar razões sérias
e sensatas para atacar o trabalho da Cearáportos, seus planos e
programas que lá estão.
O Pecém é, inquestionavelmente, uma obra para o Terceiro
Milênio. A potencialidade do Pecém neste século XXI
talvez ainda não tenha sido visto na sua escala verdadeira, mas
se nos afigura invejável em múltiplos aspectos.
Terminais portuários e aeroportuários são os novos
portais fisicamente tangíveis da economia global. A eles estará
destinada a tarefa de integrar, manter em atividade permanente os fluxos
de bens de capital e de consumo, primários e manufaturados, semi-acabados
e ''turn-key'' ao redor do mundo.
Pontos notáveis estão sendo redescobertos e uma nova malha
de conexões começa a tomar forma em todos os continentes
para acomodar os jumbos do mar e do ar, com tempos mínimos e custos
otimizados, numa competição que não ensejará
favores ou condescendências, com a improdutividade.
Foi isso que eu senti ao pisar o solo das praias do Pecém e de
andar no pier do terminal, sentindo as lufadas fortes do vento nordeste.
O conjunto portuário e industrial do Pecém tem tudo para
converter-se no portal principal do Cone Sul, convertendo-se em porto
escala das rotas estruturais do golfo do México e da CEE que se
destinem ao Oriente Médio e Extremo Oriente e vice-versa.
Essas rotas já estão sendo praticadas pelos grandes ''full-container
ships'' de última geração, com capacidades superiores
a 6000TEU's. Esses leviatãs dos mares, velozes e sofisticados,
fogem de portos lentos, congestionados, antigos, burocratizados. Outro
ponto importante: esses supernavios dispõem de equipamentos de
automação extensiva e precisam tirar o máximo proveito
de sua agilidade operacional e velocidade de cruzeiro e a otimização
de sua operação passa, necessariamente, pelas interfaces
portuárias estrategicamente localizadas, ágeis, modernos
e com tarifas amigáveis. Também são considerados
como elementos de preferência: potencial visível de áreas
de expansão portuária para estocagem sempre crescente de
cargas, ambiente portuário e retro-portuário não
agressivo e confiabilidade e integridade operacional.
Não deve estar conurbado com o tecido urbano de grandes cidades,
mas também não deve estar demasiadamente isolado. Sua estrutura
de acesso deve ser moderna e permitir fluxos ''just-in-time'' do terminal
para as malhas terrestres de distribuição e destas para
o terminal. O Pecém reúne todas estas características.
E, se ainda está recente no mercado, esse aspecto não representa
ônus maior para que se transforme em terminal favorito no continente
meridional para os armadores internacionais. Em outras palavras: todas
as cargas para o Cone Sul Atlântico, procedentes do Oriente, da
Comunidade Européia e da América do Norte e outras para
essas zonas destinadas poderão encontrar um terminal de consolidação
privilegiado e um ''buffer'' para fluxos que eventualmente sinalizem congestionamentos
circunstanciais nos destinos. Os seus planos de expansão não
são excludentes ou vinculados a propostas limitativas. Novos processos
e novas tecnologias podem se acomodar no terminal com razoável
facilidade, criando berços dedicados e especializados.
O futuro dirá, e com propriedade, que a Cearáportos construiu
um novo ''trampolim da vitória'', a noroeste de Parnamirim e com
características e projeções que o tornam à
prova de desobediência. É preciso olhar pra frente e para
o alto quando se imagina o futuro com otimismo consistente. O governbador
Tasso deu mais um passo acertado em busca dele. Tal como no passado Virgílio
Távora teimou em ligar a energia de Paulo Afonso, ao arrepio dos
pareceres técnicos da Chesf, essa nova arremetida do Ceará
é prova cabal de que o estado está emancipado para viver
o século XXI com sintonia fina na economia globalizada.
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