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Agora, Luiz Inácio Lula da Silva deve encarar o fato de que seus aliados de ocasião jogam para as costas do governo o preço político dos vícios do sistema partidário tradicional

Alexandre Pereira

O governo tem sérios problemas. É melhor que não os minimize. O desgaste de parecer enfraquecido perante a opinião pública, depois de sucessivas derrotas parlamentares, não é nada perto do preço que paga pelas mazelas dos partidos aliados.

Já na sua origem, o Executivo petista lida com uma contradição fundamental, de ser o governo de um partido de esquerda em coalizão com a direita. O centro parlamentar foi esterilizado pela oposição, que gravita em torno do PSDB. Agora, Luiz Inácio Lula da Silva deve encarar o fato de que seus aliados de ocasião jogam para as costas do governo o preço político dos vícios do sistema partidário tradicional: o clientelismo, o favor e a corrupção.

Premido pela necessidade de maiorias, o Planalto faz acordo nos termos tradicionais, usando as armas do clientelismo e dos favores, que condenava. Consegue maiorias difusas e vira refém de um jogo político movido a chantagens: o governo ameaça os partidos com demissões e os ''aliados'' o chantageiam com votos contrários no Congresso, se não ceder mais espaço em
cargos de primeiro e segundo escalões - ou se, simplesmente, não acobertar os seus pecados.

Nessa queda de braço, o Planalto ganha uma, perde outras. O País só perde, com o espaço à corrupção e com as incertezas políticas advindas da dúvida que fica no ar: o governo escolhido nas urnas é, afinal, honesto ou não? O Executivo, por seu lado, vira alvo constante de chantagens abertas ou veladas.

Um exemplo disso é o próprio presidente do PTB, Roberto Jefferson (RJ), denunciado como um dos beneficiários de um esquema de corrupção nos Correios, onde mantém nomeados, exigiu proteção do governo. Lembrou que defendeu o ministro José Dirceu, quando das denúncias contra seu assessor Waldomiro Diniz. O deputado estadual Campos Machado, um dos vice-presidentes do partido, foi mais claro: o Planalto tem que proteger Jefferson porque o partido
defendeu Dirceu ''em situação muito mais grave''.

Outro presidente de um partido aliado, Pedro Correia (PP), foi denunciado no relatório final da CPI que investigou a pirataria.

E tem o PMDB. O pedaço do partido que apóia o ministro Romero Jucá (RO) - uma das alas, que nunca se junta a outra - ameaça - retaliar o governo caso ''abandone'' o ministro, cravejado por denúncias quase diárias de improbidade administrativa e mau uso de dinheiro público.

O governo deve assumir suas culpas. Curvou-se a chantagens - inclusive para evitar a apuração das denúncias envolvendo Waldomiro Diniz, então assessor do ministro José Dirceu. É melhor zerar o jogo: apure-se todas as mazelas, do governo e de seus aliados, livre-se das chantagens e restitua-se às instituições a compostura.

ALEXANDRE PEREIRA é Presidente do Centro Industrial do Ceará

Fonte: O Povo

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