AVALIAÇÃO DOS PROCEDIMENTOS DE
ENSAIOS PARA CARACTERIZAÇÃO DE ROCHAS ORNAMENTAIS
José Lins Rolim Filho1*, Júlio César de Souza2*,
Belarmino Barbosa Lira3*, Márcio Luiz de S. C. Barros4*, Felisbela Maria da C. Oliveira5*
1*,2*,3*,5*DSc.
UFPE/DEMINAS
4*MSc.
UFPE/DEMINAS
*Av. Prof.
Moraes Rêgo, 1235 – Cidade Universitária – 50.670-901 – Recife – PE
Fone: (81)
3271-8245/3271-8246 – E-mail: mlbarros@npd.ufpe.br; jcsouza@npd.ufpe.br
RESUMO
No presente trabalho são apresentados e discutidos os
principais procedimentos de ensaios de caracterização tecnológica de rochas
ornamentais encontrados nas normas internacionais e na Associação Brasileira de
Normas Técnicas – ABNT. Também é
apresentada uma avaliação dos valores limites dos ensaios contidos nas normas e
uma sugestão de interpretação dos resultados adotada como padrão no Laboratório
de Caracterização de Rochas Ornamentais do DEMINAS/CTG/UFPE.
São também apresentados sugestões de modificações nas normas
atuais da ABNT referentes aos ensaios de determinação de índices físicos,
desgaste por abrasão Amsler e ensaios de resistência mecânica, visando uma
maior padronização das metodologias laboratoriais.
Por fim são apresentados novos procedimentos de ensaios de
rochas ornamentais desenvolvidos no DEMINAS/CTG/UFPE para determinação da
resistência ao impacto através da utilização do equipamento de duplo pêndulo,
sugestão de procedimento para realização de ensaios de alterabilidade química e
ensaio de resistência ao cisalhamento no ponto de aplicação dos inserts
metálicos para fixação de placas em fachadas aeradas/ ventiladas
INTRODUÇÃO
No
Brasil, as normas existentes para caracterização tecnológica de rochas
ornamentais são baseadas nas normas americanas, principalmente normas da ASTM
(American Standard of Testing and Materials). Isto tem gerado alguns
desconfortos por parte dos pesquisadores que fazem parte do grupo de Rochas
Ornamentais vinculado ao DEMINAS/CTG/UFPE. Algumas normas já existentes e
padronizadas pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas)
indicam valores padrão
para alguns ensaios e também existem algumas sugestões do
IPT (Instituto de Pesquisa Tecnológica). Mesmo assim os procedimentos na
realização de alguns ensaios incorrem em algumas metodologias, que na visão do
grupo, estariam inadequadas para a realização destes ensaios. Devido a isso o
grupo vem sugerir algumas mudanças nestas metodologias e nos valores padrão
para os ensaios tecnológicos de Rochas Ornamentais.
ÍNDICES FÍSICOS
Para a análise de Índices Físicos (Porosidade, Absorção e
Massa específica (seca e saturada), as normas da ABNT sugerem o procedimento em
que a rocha sofre aquecimento em estufa para a retirada de água para
posteriormente ser submetida a uma saturação em água a temperatura ambiente. Em
análises nos laboratórios do DEMINAS/CTG/UFPE, chegamos a conclusão de que não
havia lógica neste procedimento, haja vista a saturação ser demorada e imperfeita.
Além disso a ação de temperatura na
secagem reabre as microfissuras naturais das rochas, o que leva a resultados
falsos.
Sugerimos para tais análises
(índices físicos): saturação da rocha no seu estado natural em água fervente a
fim de extrair o ar aprisionado na porosidade e microfissuras. Posteriormente,
ao esfriar estes espaços estão completamente preenchidos com água, dando desta
forma uma maior confiabilidade nos resultados.
Na Tabela 1 são apresentados os valores para os índices
físicos propostos pelas normas técnicas ASTM, IPT e pelo grupo de rochas ornamentais do DEMINAS/CTG/UFPE.
COMPRESSÃO SIMPLES E TRAÇÃO PARA
FLEXÃO
Nestes ensaios, observamos que as normas não levam em
consideração as dimensões dos cristais formados, ficando assim, as dimensões
dos corpos de prova inflexíveis. Geram-se problemas quando existem, nos corpos de prova ensaiados, amostras que
apresentam cristais com dimensões maiores do que 40% de uma das dimensões do
corpo de prova, caracterizando amostras não homogêneas, isto é, corpos de
provas anisotrópicos.
Nesses casos é interessante que sejam realizados ensaios com
corpos de prova de maior tamanho e que os resultados sejam posteriormente
tratados com fatores de correção para comparação com os resultados obtidos com
a norma.
Na
Tabela 1, observamos os valores sugeridos pelo grupo de rochas ornamentais para
os ensaios de Compressão Simples e de Tração para Flexão.
IMPACTO DE CORPO DURO
Observamos nas normas existentes, equipamentos cuja proposta
de fabricação não apresenta altura satisfatória. Em diversos testes realizados
em rochas no DEMINAS/CTG/UFPE, a altura de queda, em experimentos reais, foi de
até 0,85 metros. O equipamento dimensionado pela norma da ABNT para ensaio de
corpo duro apresenta uma altura máxima de 0,40 metros, o que contradiz com a
realidade da maioria das rochas existentes.
Na Tabela 1, estão expostos os valores sugeridos pelo grupo
de rochas ornamentais para o ensaio de Impacto de Corpo Duro.
DESGASTE AMSLER
Neste item foi observado que a especificação do material
abrasivo (areia silicosa), não é precisa, haja vista, tratar-se de um material
natural e que apresenta abrasividade variável e depende da sua composição
mineralógica.
Sugerimos que tal ensaio seja realizado e normatizado com
cristais de quartzo, ou vidro branco transparente com resistências e dureza
precisa. Os materiais utilizados como abrasivo quando normatizados tendem a
apresentar uma maior representatividade e conseqüentemente uma maior
repetitividade nos ensaios.
Na Tabela 1, estão representados os valores sugeridos pelo
grupo de rochas ornamentais para o ensaio de Desgaste por Abrasão Amsler.
RESISTÊNCIA AO CISALHAMENTO PARA
APLICAÇÃO DE INSERT METÁLICO
Sugere-se a aplicação de mais um tipo de ensaio tecnológico
que refere-se à resistência ao cisalhamento no ponto de fixação na placa
(furação), quando utilizado o sistema de aplicação de placas em fachadas
aeradas/ventiladas através de inserts metálicos. O objetivo deste ensaio é
determinar a capacidade de suporte da placa nos locais de aplicação dos
elementos de fixação metálicos em fachadas aeradas/ventiladas, através de
ensaio de cisalhamento direto com quatro pontos, Figura 1.

Figura 1 - Esquema do
ensaio de determinação da resistência ao cisalhamento
A ruptura ocorre nos pontos de aplicação dos pinos na placa,
por mecanismo de cisalhamento. A tensão de ruptura é indicada pela força “P”,
tensão máxima de suporte da placa. Através desse valor pode-se determinar o
tamanho máximo da placa que poderá ser utilizada em uma fachada
ventilada/aerada, levando em consideração a pressão do vento determinada para o
local onde será executada a obra, função do sistema de vento predominante na
área.
ALTERABILIDADE QUÍMICA
Este ensaio, que talvez seja o principal para a utilização
de rochas ornamentais em ambientes domésticos, é realizado de uma maneira até
agora bastante simples e sem parâmetros técnicos eficientes, sendo mais
avaliado subjetiva do que objetivamente. Nele são requeridos quatro placas de
rochas ornamentais prontas para a utilização, de dimensões 30 x 30 x 3 cm.
A primeira placa é a placa de referência, pois nenhuma
substância química é colocada sobre ela. Nas outras três placas são colocados
reagentes de utilização domésticas como: detergentes líquidos, sabões,
desinfetantes, vinagres, etc. Após determinado tempo de reação, as placas são
limpas e comparadas com a primeira placa de forma subjetiva em função do seu
aspecto estético. Os tempos usuais de reação são: a segunda placa com 24 horas,
a terceira com 48 horas e quarta com 72 horas.
Propõem-se a utilização de colorimetria como forma de
leitura destas comparações, o que determinará o grau de alterabilidade face a
cada substância química em função das diferenças cromáticas observadas no
colorímetro para as cores primárias. Além do colorímetro sugere-se a utilização
de gloss-meter (reflectômetro) para avaliação das possíveis alterações
superficiais que pode-se determinar através de mudanças na reflectância da
amostra.
RESISTÊNCIA AO IMPACTO UTILIZANDO
O DUPLO PÊNDULO
A determinação da resistência ao impacto é fundamental na
especificação dos materiais para sua aplicação na engenharia. A normatização de ensaio tecnológico para
esta determinação nas rochas que se destinam ao uso como matérias de
pavimentação de edificações, tais como, o granito, utiliza o método de queda
livre, para definir a resistência ao impacto. O dispositivo para ensaios é
padronizado pela ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. Neste teste
apenas parte da energia é absorvida
pelo granito e parte passa para o substrato de suporte do granito. Esta energia
que passa para o substrato deve ser determinada para obter a energia real
correspondente a resistência ao impacto da peça. Entretanto o ensaio de queda
livre não permite a determinação da energia absorvida pelo substrato.
O duplo pendulo pode ser utilizado para determinação da energia absorvida pelo substrato no ensaio
de resistência ao impacto. Desta forma a energia especifica absorvida pelo
corpo de prova, pode ser estabelecida e como conseqüência a resistência ao
impacto pode ser definida com maior precisão.
Este artigo propõe uma técnica simples e operacional para se
determinar a resistência ao impacto de granitos e cerâmicas através de um duplo
pêndulo, conforme se ilustra na Figura II. A
quantidade de energia transferida no impacto dos pêndulos pode ser
calculada, medindo-se a velocidade com
que o “ïnput”-pêndulo recua após o impacto nos choques elásticos e a energia
cinética inicial pós-impacto do “rebound”-pêndulo, que corresponde à maior
parte da energia transferida. A proposta deste trabalho é apresentar uma
solução que se utilize deste fato para a medição das energias envolvida no
processo para estabelecer a resistência das rochas ao impacto.
DESCRIÇÃO DO DUPLO PÊNDULO
O duplo pêndulo é composto por dois pêndulos
suspensos por cordão de algodão, a saber:
·
“Input”-pêndulo
constituído por uma bola pesando 2.919,00 g e com diâmetro de 87,1mm;
·
“Rebound”-pêndulo
composto de uma parte cilíndrica de 100mm de diâmetro e 85,4mm de comprimento,
pesando 5.374,9g.
Sob o “Rebound”-pêndulo há dois anteparos, cuja distância
entre eles é fixa e conhecida. O fotodetector e o emissor de radiação
infravermelho, são posicionados ao lado destes anteparos, de modo que este
esteja impedindo a passagem da radiação. Neste ponto inicial, o detector terá
um sinal nulo na sua saída (vide figura a). Ao ser liberado, o “Input”-pêndulo,
com altura inicial conhecida, irá colidir com o “Rebound”-pêndulo. Imediatamente
após o impacto, o anteparo não mais irá impedir a radiação (figura b) e o
detector irá sinalizar para o circuito contador, iniciando a cronometragem da
passagem do pêndulo Rebound, até a luz seja obstruída pelo segundo anteparo,
parando a contagem de tempo (figura c). temos então armazenado nos contadores o
tempo que o “rebound”-pêndulo levou para percorrer a distância entre os
anteparos. Este dado é coletado pela interface paralela e lido pela porta
paralela do computador.
a
b
c
FIGURA 2
– Ilustração da seqüência do teste
de impacto no duplo pendulo
a – Posição inicial; b – Impacto; c
- Monitoramento do “rebound”- pêndulo
Os testes no duplo pêndulo são ilustrados na Figura 2 e
conduzidos do seguinte modo:
1.
Posicionamento da
partícula teste no “rebound”-pêndulo;
2.
Lançamento do input
pêndulo de alturas diferenciadas e conhecidas, permitindo a colisão com o
“rebound”-pêndulo e fragmentação do granito;
3.
Interrupção do
movimento do input pêndulo manualmente após o impacto;
4.
Monitoramento do
”rebound”-pendulo através do sistema computacional após o impacto
5.
Coleta do minério
para análise granulométrica após a fragmentação.
A determinação das alturas de lançamento do input pêndulo
permite determinar a energia especifica disponível para o ensaio. Por aplicação
dos princípios da conservação do momento na colisão do pêndulo, a velocidade do
input pêndulo no momento imediatamente anterior ao impacto e conseqüentemente
sua energia residual pode ser calculada.
O balanço energético durante a colisão do input pêndulo com
rocha é dado pela seguinte expressão:
(1)
Onde:
Ei = Energia disponível (energia potencial)
Et = Energia transmitida ao “rebound”-pêndulo
Er = Energia residual no “input”-pêndulo após a
colisão (calculada pelo princípio da conservação do momento)
Ec = Energia consumida na fragmentação das
partículas, no qual inclui energia dissipada, térmica, acústica, etc.
O circuito de monitoramento do rebound-pendulo pode ser
sumarizado em três módulos principais, associado a um microcomputador, conforme
diagrama abaixo:
FIGURA 3
– Circuito de monitoramento do pêndulo
Ensaios com granito foram realizados para determinação da resistência a fragmentação no pendulo e no de queda livre padronizado pela ABNT. Os níveis de especifica de cominuição utilizado no pendulo são apresentados na Tabela 2.
|
Níveis de energia |
Energia disponível (Joules) |
Energia específica de fragmentação
(Joules/ton) |
|
1 |
50 |
37,24 |
|
2 |
54,7 |
40,74 |
|
3 |
58,7 |
43,7 |
Os
testes de queda livre em uma placa de granito com as dimensões de 20 cm x 20 cm
x 2,0 cm, pesando 2,10 kilogramas, apresentou uma resistência a fragmentação de
3.270,0 Joules/ton. Este dado é na realidade a energia específica disponível.
Entretanto, a energia específica de fragmentação pode ser determinada a partir
da equação (2), que foi determinada a partir dos ensaios de fragmentação no
duplo-pendulo para os níveis de energia apresentados na Tabela 2:
Ecs = 1,19 + 0,723 Eis (2)
Onde,
Ecs é a energia específica de fragmentação e Eis a energia específica
disponível.
CONCLUSÕES
Existe uma clara necessidade de revisão dos procedimentos e
alteração das normas técnicas para caracterização de rochas ornamentais da
ABNT, devendo-se ter o cuidado de adequá-las a realidade nacional e
procedimentos de especificação do setor.
São apresentadas duas propostas de normatização novas para o
ensaio de placas que serão utilizadas em aplicações através de inserts
metálicos em fachadas de edificações e ensaio complementar para avaliação da
resistência ao impacto de corpos duros sobre placas de rochas ornamentais
através do aparelho de duplo pêndulo.
Apresentam-se também diversos parâmetros para interpretação
dos ensaios tecnológicos para rochas com fins ornamentais, comparando-os com as
indicações da ASTM e com os valores sugeridos pelo IPT.
BIBLIOGRAFIA

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