Caracterização
Petrográfica como Ferramenta para a Previsão do Comportamento Físico e Mecânico
de Granitos Ornamentais: uma Discussão
1 Doutorando do
Curso de Pós-Graduação em Geociências IGCE/UNESP
Av. 24A, 1515, B. Bela Vista, 13506-900 - Rio Claro, SP
Fone: (19) 526-2824/ Fax: (19) 524-9644/ e-mail:
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2 Depto de
Petrologia e Metalogenia - DPM/IGCE/UNESP
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Fone: (19) 526-2824/ Fax: (19) 524-9644/ e-mail:
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O presente trabalho discute a
aplicabilidade e importância da utilização de parâmetros petrográficos como
ferramenta para a previsão do comportamento tecnológico de granitos
ornamentais. Para isso utiliza-se de dados inéditos e de trabalhos anteriores
dos autores, onde são apresentados informações petrográficas e tecnológicas de
rochas ornamentais com diferentes composições, texturas e estruturas
provenientes dos estados de São Paulo, Espírito Santo e Bahia, os quais foram
correlacionados através de métodos estatísticos de análise multivariada. Com
isso foram hierarquizadas as variáveis petrográficas mais relevantes para cada
um dos ensaios tecnológicos considerados (porosidade aparente, desgaste abrasivo
Amsler, resistência à compressão uniaxial e módulo de ruptura), e
posteriormente discutido os significados estatístico e tecnológico dessas
variáveis. As equações matemáticas definidas foram testadas através da
aplicação de parâmetros petrográficos obtidos em rochas tecnologicamente não
catalogadas. Os resultados obtidos confirmam a eficiência dos parâmetros
petrográficos como um instrumento favorável na previsão do comportamento físico
e mecânico de granitos ornamentais strictu
sensu, representando um método rápido e de baixo custo. Além disso,
reconheceu-se a necessidade de aperfeiçoamento desses modelos através de
estudos que considerem parâmetros petrográficos adicionais, tais como
orientações cristalográficas e a orientação das diferentes famílias de
fraturas.
Introdução
A crescente utilização de rochas ornamentais e de revestimento no cenário mundial, e sobretudo de granitos no Brasil ao longo dos últimos anos (ABIROCHAS, 2001), tem diversificado as situações de uso/adequação e, conseqüentemente, acarretado maior probabilidade de ocorrência de patologias por emprego inadequado da rocha. Situações dessa natureza conduzem ao prejuízo estético, econômico e cultural de uma obra arquitetônica ou civil, sendo recomendável estudos prévios de caracterização petrográfica e tecnológica desses materiais afim de fornecer subsídios para a correta aplicação da rocha, procedimentos esses que previnem a especificação inadequada dos materiais.
A atuação de um mercado consumidor cada vez mais exigente
quanto aos padrões de qualidade e critérios de manuseio e aplicação de rochas,
tem motivado pesquisadores no mundo todo ao estudo das propriedades físicas,
mecânicas e químicas desses materiais. Nesse sentido um dos caminhos para a
qualificação das rochas tem sido a procura de índices de qualidade expressos
por equações matemáticas (Tuğrul & Zarif, 1999; Navarro et al., 1999; Navarro & Artur, 2001;
Navarro, 2002) e métodos não destrutivos (Weiss et al., 2000; Artur et al.,
2001) para o reconhecimento das propriedades das rochas, visando com isso a
previsão do comportamento tecnológico e o planejamento e caracterização
adequada do material a custos mais acessíveis.
Sob este foco a contribuição do presente trabalho com
relação à aplicação de estudos petrográficos para a previsão do comportamento
tecnológico de granitos ornamentais, se faz pela discussão de equações
apresentadas e discutidas nos trabalhos de Navarro & Artur (2001) e também
testadas por Navarro (2002). Essas equações, se baseiam em parâmetros
petrográficos (composição mineral, texturas e estruturas) e se propõem à
previsão de parâmetros físicos e mecânicos (porosidade, desgaste abrasivo,
resistência à compressão e módulo de ruptura) em rochas granitóides utilizadas
como material de revestimento.
Os dados apresentados por esses autores, permitem a
discussão da eficácia da utilização de informações petrográficas para a
previsão de parâmetros tecnológicos de rochas ornamentais correspondentes à
granitos strictu sensu segundo a
classificação de Streckeisen (1976).
Petrografia
e Parâmetros Tecnológicos: Problemática e Métodos de Correlação
A investigação da influência das características
petrográficas nos parâmetros físicos e mecânicos das rochas é objeto de estudos
técnicos e científicos a longa data, visto a importante contribuição que essas
informações podem fornecer para a construção de obras e o aproveitamento da
rocha como material de construção e revestimento (Mello Mendes et al. 1966; Mello Mendes, 1968;
Rzhevsky & Novik, 1971; Yoshida, 1972; Whittaker et al., 1992; entre outros).
A interação entre a composição, texturas e estruturas que as
rochas podem apresentar, é o fator que define a resistência aos agentes
químicos, físicos e mecânicos de toda rocha, ou seja é o resultado da
combinação das características petrofísicas do material (Rzhevsky & Novik,
1971).
Entretanto deve-se assinalar que a adequada caracterização
de todas as variáveis petrográficas determinantes do comportamento tecnológico
das rochas está ligada a dificuldades de quantificação de alguns desses
parâmetros, tais como o grau de microfissuramento e o grau de alteração
(Rzhevsky & Novik 1971; Yoshida, 1972). Tais dificuldades, obviamente
influenciam a obtenção de modelos ou índices para a previsão da qualidade de
rochas baseados em características petrográficas. Decorre desse fato a prática
freqüente de se correlacionar pares de dados tecnológicos, tais como velocidade
de propagação de ondas ultra-sônicas e parâmetros mecânicos; porosidade e
parâmetros mecânicos, entre tantas outras combinações (Mello Mendes, 1968;
Whittaker et al., 1992). Do ponto de
vista técnico e econômico essa prática é bastante adequada, pois permite que se
utilize um resultado de ensaio tecnológico de baixo custo e rápida obtenção
para a previsão do resultado de outro ensaio mais caro e demorado, com parâmetros
confiáveis.
Entretanto, diversos autores correlacionaram dados
petrográficos e tecnológicos através de métodos estatísticos baseados na
análise de regressão simples (Vutukuri et
al., 1974; Lama & Vutukuri, 1978; entre outros).
Para o setor de rochas ornamentais ao nível nacional, as
primeiras contribuições sobre a importância dos estudos petrográficos foram
feitas por Frazão & Farjallat (1995), Rodrigues et al. (1996) e Navarro (1998). Todos esses trabalhos discorrem
qualitativamente acerca da importância dos estudos petrográficos e do nível de
informação detalhada que é possível obter através dessa técnica, e com isso
aprimorar a compreensão dos resultados tecnológicos e assegurar uma melhor
aplicação da rocha.
Posteriormente alguns trabalhos procuraram estabelecer
relações entre parâmetros petrográficos e tecnológicos de maneira que pudessem
ser expressas em equações matemáticas, e portanto passíveis de serem utilizadas
como instrumento de previsão. Tuğrul & Zarif (1999) estudaram amostras
de granitos turcos e apresentaram diversas equações de regressão simples,
correlacionando pares de parâmetros tecnológicos e pares de parâmetros
tecnológicos e petrográficos. Através dos dados obtidos esses autores concluíram
que a composição mineral, nomeadamente a variação de feldspato e quartzo, são
os fatores que mais influenciam as propriedades mecânicas das rochas
analisadas, havendo ainda certas complicações quando se compara o grau de
engrenamento (tipos e relações de contatos) desses minerais, cabendo para essas
situações estudos específicos.
Navarro et al.
(1999) utilizaram dados de análises petrográficas obtidos em um conjunto de 66
amostras provenientes dos estados de São Paulo, Espírito Santo e Bahia, os
quais foram correlacionados aplicando-se o coeficiente de Pearson com dados
tecnológicos referentes a essas amostras. Como resultado propuseram três
equações para previsão do desgaste abrasivo Amsler e quatro equações para
previsão do módulo de ruptura, todas fundamentadas nos parâmetros petrográficos
apontados pelo tratamento estatístico como as variáveis mais importantes para a
previsão de cada um dos ensaios considerados. Dessa maneira, o coeficiente de
correlação de Pearson mostrou que as porcentagens de quartzo e biotita e o
número médio de fraturas por unidade de área são os parâmetros mais importantes
para a previsão do desgaste abrasivo. Analogamente para o ensaio de resistência
à flexão, esses autores reconheceram que as porcentagens de biotita e feldspato
potássico e as granulações de feldspato potássico e plagioclásio, são as
feições que mais influenciam essa propriedade.
Na evolução desses trabalhos, Navarro & Artur (2001)
também apresentam equações matemáticas baseadas em dados petrográficos para a
previsão do comportamento tecnológico de alguns ensaios. Tais equações
mostram-se mais refinadas e foram conseguidas pela aplicação de técnicas de
análise estatística multivariada.
Conforme comentado por Navarro (2002), as variáveis
petrográficas podem ser agrupadas genericamente em três categorias (composição
mineral, texturas e estruturas), definindo um trinômio de complexa
inter-relação, que responde pelo comportamento físico e mecânico da rocha
(Figura 1). Do ponto de vista estatístico, compõe um universo multidimensional
bastante complexo, uma vez que muitas rochas com feições composicionais,
texturais e estruturais diferentes podem apresentar propriedades físicas e
mecânicas semelhantes, ou ainda rochas com composição, texturas e estruturas
semelhantes podem apresentar comportamentos tecnológicos distintos.
Dessa maneira é correto admitir que cada variável
petrográfica seja responsável por parte da variabilidade presente em um dado
tecnológico, e que a somatória dessas variáveis definem o comportamento físico
e mecânico da rocha (Navarro, 2002).
Pelo exposto acima, concluí-se que o comportamento
tecnológico de uma rocha, seja ele físico, químico ou mecânico, é o resultado
da interação de diversos fatores e, portanto, sob o ponto de vista estatístico
pode ser entendido nas concepções de Davis (1981) como um sistema multivariado.
Isso quer dizer que algumas variáveis desse sistema, assumidas como dependentes
e representadas pelos parâmetros tecnológicos, podem ser explicadas por um
conjunto de variáveis petrográficas, ditas independentes.
Por permitir a correlação de diversos dados simultaneamente,
hierarquizando as variáveis segundo o grau de variabilidade presente em cada
uma (Davis, 1986), entende-se que a aplicação das diversas técnicas de análise
multivariada seja o método estatístico mais indicado para o tratamento desses
dados, conforme será discutido a seguir.

FIGURA 1: Esquema ilustrando o comportamento físico e mecânico de uma rocha, como resultado da interação entre os de aspectos petrográficos definidos pela mineralogia, texturas e estruturas (modificado de Navarro, 2002)
Avaliação
da Caracterização Petrográfica como Ferramenta para Previsão do Comportamento
Tecnológico de Granitos Ornamentais
Com base nas informações contidas nos trabalhos de Navarro
& Artur (2001) e Navarro (2002), é possível discorrer com certo detalhe
sobre a validade da caracterização petrográfica como ferramenta para previsão
do comportamento tecnológico de granitos ornamentais.
Para tanto, serão reproduzidos aqui parte dos dados
apresentados por esses autores. Navarro & Artur (2001) submeteram à análise
petrográfica 66 amostras de rochas comercialmente designadas como granitos, e
provenientes dos estados de São Paulo, Espírito Santo e Bahia. As rochas
utilizadas correspondem petrograficamente a sienogranitos, monzogranitos,
sieno- e monzogranitos porfiros, charnoquitos, ortognaisses, gabros/dioritos e
sienitos.
Os parâmetros petrográficos avaliados foram a porcentagem
mineral, granulação média dos minerais essenciais, número médio de fraturas com
e sem preenchimento por unidade de área, comprimento médio das fraturas com e
sem preenchimento, porcentagem de área alterada e número médio de contatos
minerais subdivididos nas categorias plano, côncavo-convexo e serrilhado. Os
dados de caracterização tecnológica considerados foram a porosidade, o desgaste
abrasivo Amsler, módulo de ruptura, resistência à compressão uniaxial e
coeficiente de dilatação térmica linear, todos obtidos de catálogos publicados
por IPT (1990), IPT (1993) e SGM (1994).
Esse extenso banco de dados foi tratado estatisticamente em
duas etapas. Na primeira foi aplicado um método de análise multivariada conhecido
como análise discriminante, visando o reconhecimento de agrupamentos
litológicos com afinidades petrográficas e tecnológicas. Através dessa técnica
os autores reconheceram dois conjuntos de amostras, sendo um representado por
todas as amostras consideradas e outro excluindo-se as amostras classificadas
como gabros/dioritos e sienitos.
Nas amostras desses dois agrupamentos os autores aplicaram a
análise de regressão múltipla visando com isso a obtenção de equações matemáticas
para previsão dos cinco ensaios tecnológicos por eles considerados.
Adicionalmente, apresentaram a porcentagem de variabilidade explicada pelas
variáveis petrográficas consideradas, para cada um dos ensaios assumidos, ou
seja, o quanto as variáveis petrográficas explicam os parâmetros tecnológicos
utilizados.
Em continuidade a esse trabalho, Navarro (2002, páginas 46 a
48) aplica o teste estatístico F, e sugere a exclusão das variáveis comprimento
de fraturas e comprimento de fraturas com preenchimento das equações propostas.
Essa informação é importante e será considerada adiante para a sugestão da
adequação do método de obtenção dos dados referentes ao microfissuramento.
Navarro (2002) apresenta cinco conjuntos de equações, e
conclui que os conjuntos de equações 1 e 2 são mais indicados para a previsão
do comportamento físico e mecânico de granitos strictu sensu (campos 3A e 3B no diagrama de Streckeisen, 1976).
O conjunto de equações 1 foi obtido utilizando-se todas as
amostras estudadas e o conjunto de equações 2 utilizando-se apenas as amostras
de composição granítica.
Na Tabela 1 é apresentada a porcentagem de variabilidade
explicada para cada ensaio tecnológico considerado por esse autor, o que
permite algumas considerações. Para o ensaio de porosidade, pode-se concluir que as porcentagens de quartzo (Qz) e
biotita (Bt), no conjunto de equações 1, e a granulação média de feldspato
potássico (grFK) e a porcentagem de plagioclásio (PL), no conjunto de equações
2, são os fatores que explicam melhor a variabilidade dos resultados de
porosidade. Isso não significa dizer que as demais variáveis não são significativas,
mas sim que influenciam em menores proporções os resultados desse parâmetro
para o universo de amostras estudado.
Além disso, o tratamento apresentado não considera as
relações e porcentagem de correlação entre dois parâmetros petrográficos. Como
exemplo cita-se a influência que a porcentagem de quartzo pode apresentar sobre
a maior ou menor ocorrência de contatos côncavo-convexos e serrilhados, como
por exemplo ocorre em rochas com quartzo intersticial. Ou ainda admitir que a
granulação e porcentagem dos feldspatos podem significar maior grau de alteração,
conseqüentemente influenciando a porosidade.
Considerando os valores correspondentes para o desgaste abrasivo Amsler apresentado na
Tabela 1, observamos que para o conjunto de equações 1 as variáveis número
médio de fraturas preenchidas (ftp) e porcentagem de feldspato potássico (FK)
são as mais significativas. Observa-se ainda para este caso que as variáveis
alteração (Alt), porcentagem de quartzo (Qz), feições estas importantes para o
desgaste, estão entre as últimas a serem excluídas do modelo. Para o conjunto
de equações 2 as variáveis mais significativas são a porcentagem de feldspato
potássico (FK) e o grau de alteração (Alt), cabendo destaque para as variáveis
representadas pelas três categorias de contatos adotadas.
Os valores referentes ao ensaio de resistência à compressão uniaxial obtidos para o conjunto de
equações 1 mostram maior influência das variáveis número de fraturas (ft),
número médio de fraturas com preenchimento (ftp) e granulação de quartzo
(grQz), com certa contribuição dos tipos de contato, sobretudo do tipo
serrilhado (cse) e porcentagem de biotita (Bt). Para o conjunto de equações 2,
as variáveis reconhecidas como mais influentes para esse ensaio foram os
contatos planos (cpl) e a granulação de quartzo (grQz). A alteração (Alt) e o número
médio de fraturas (ft) também mostram contribuições significativas.
No que se refere ao ensaio de módulo de ruptura, nota-se que as
variáveis mais importantes para definir este parâmetro no conjunto de equações
1 são as porcentagens de biotita (Bt) e (FK), e também a granulação média do
plagioclásio (grPL). Para o conjunto de equações 2, as variáveis petrográficas
reconhecidas como mais significativas foram a granulação de feldspato potássico
(grFK), os contatos côncavo-convexos (ccc), a porcentagem de área alterada
(Alt) e o número médio de fraturas preenchidas (ftp). Deve-se deixar claro que
o fato de considerar alguns parâmetros como mais relevantes para a explicação
e/ou previsão de um resultado tecnológico não desqualifica os demais
parâmetros, visto que uma propriedade tecnológica nada mais é que o resultado
da inter-relação de todos os parâmetros analisados.
Comentários adicionais devem ser feitos com relação a certas
variáveis como a porcentagem de área alterada e os tipos de contatos minerais
considerados. É de senso comum que tais parâmetros são determinantes para a
obtenção de uma dado tecnológico, especialmente as propriedades mecânicas.
Entretanto essas variáveis não se destacaram muito em relação às demais no
tratamento aplicado. Segundo comentários de Navarro (2002), pode-se atribuir
essas peculiaridades ao banco de dados utilizado, onde observa-se que todas
amostras consideradas nesses tratamentos apresentam valores de resistência à
compressão uniaxial entre 93,2 e 255,6 MPa, os quais permitem classificá-las
quanto ao grau de coerência, conforme critérios propostos pela ISRM (1978) como
“muito resistentes” (classe R5) a “extremamente resistentes” (classe R6). Esse
fato pode, portanto, mascarar as verdadeiras influências desses parâmetros
petrográficos sobre os resultados tecnológicos.
Em seguida, Navarro (2002) apresenta dois conjuntos de
equações para os ensaios considerados na Tabela 1, e aqui reproduzidos na
Tabela 2.
De posse dessas equações esse autor seleciona cinco rochas
com diferentes composições, texturas e estruturas, representadas na Tabela 3.
Aplicando as equações aos dados petrográficos obtidos para essas amostras,
obteve dois conjuntos de resultados calculados, os quais foram comparados com
os dados obtidos em laboratório (Tabela 4).
Os valores apresentados nessa tabela mostram que em alguns
casos os valores calculados se aproximam bastante dos valores obtidos em
laboratório, o que dá credibilidade ao método utilizado. Entretanto, algumas
situações merecem ser consideradas.
Para a porosidade observa-se que alguns resultados
calculados situam-se relativamente distantes dos valores obtidos em
laboratório. Em termos teóricos, a porosidade deve ser mais intensamente
influenciada pelo grau de alteração e pela presença de fraturas e,
secundariamente, pelos tipos de contato e granulação média (Lama &
Vutukuri, 1978). Ressalta-se que o método de avaliação da porcentagem de área
alterada utilizado por Navarro (2002) é a medição através do uso de analisador
de imagens, uma técnica que diminui a subjetividade das avaliações, mas não
contempla a intensidade da alteração, fato que pode induzir distorções nos
modelos propostos. No que se refere às fraturas, há uma questão crucial a ser
considerada que é a comunicabilidade entre os planos de fratura, uma feição sem
metodologia para quantificação em termos petrográficos, embora existam os
ensaios de capilaridade e permeabilidade, que podem ser utilizados como
parâmetros de referência para essas feições.
CE |
Dependentes |
(R2)
% DA VARIABILIDADE EXPLICADA PELAS VARIÁVEIS INDEPENDENTES ANALISADAS |
||||||||||||||
TOTAL
|
FK |
grFK |
PL |
grPL |
Qz |
grQz |
Bt |
Alt |
ft |
ftp |
cpl |
ccc |
cse |
|||
|
CE 1 |
Todas Amostras |
Porosidade |
38,0 |
4,390 11 |
2,8509 |
2,57512 |
1,5827 |
16,50113 |
0,2033 |
6,27010 |
0,2615 |
0,0242 |
1,0016 |
0,0001 |
0,2254 |
2,0888 |
|
Desgaste |
60,4 |
35,56813 |
0,0934 |
0,3315 |
1,0788 |
4,79711 |
0,0351 |
0,0873 |
1,62210 |
1,7749 |
13,70512 |
0,1052 |
0,7377 |
0,487) |
||
|
Compressão |
30,6 |
0,144 3 |
0,0252 |
0,376 |
0,0021 |
0,1294 |
6,66713 |
1,7599 |
0,3275 |
4,82211 |
9,97612 |
0,9957 |
1,8178 |
3,61010 |
||
|
Módulo Ruptura |
43,7 |
17,64312 |
0,4254 |
1,3117 |
15,00613 |
1,9348 |
0,5735 |
3,50111 |
1,0776 |
0,3093 |
0,2482 |
0,9439 |
0,65910 |
0,1101 |
||
|
CE 2 |
Rochas Graníticas |
Porosidade |
26,8 |
1,8619 |
3,76012 |
10,15313 |
1,7438 |
1,5367 |
0,4426 |
1,42110 |
0,4564 |
0,1563 |
0,3925 |
0,1002 |
0,0091 |
4,78211 |
|
Desgaste |
35,9 |
12,98412 |
0,3342 |
0,3695 |
0,5978 |
0,0221 |
0,7466 |
0,6404 |
14,68313 |
0,6467 |
0,3513 |
0,25110 |
1,4889 |
2,75311 |
||
|
Compressão |
26,3 |
1,1058 |
1,5216 |
0,0001 |
2,7739 |
0,5744 |
6,09213 |
1,8217 |
4,67312 |
1,36010 |
0,5835 |
5,57711 |
0,2083 |
0,0032 |
||
|
Módulo Ruptura |
44,8 |
1,3527 |
5,69310 |
0,1184 |
1,2665 |
0,0091 |
0,0212 |
5,4009 |
5,98112 |
2,2248 |
14,12113 |
1,4506 |
7,15111 |
0,0473 |
||
TABELA 2: Modelos matemáticos propostos
para a previsão dos resultados dos ensaios tecnológicos relativos à porosidade
aparente, desgaste abrasivo, resistência à compressão uniaxial, módulo de
ruptura propostos por Navarro (2002). Modelos obtidos com base nos dados
petrográficos de todas amostras (conjunto 1) e das amostras de composição
granítica (conjunto 2). Legenda para as variáveis petrográficas, vide legenda
da Tabela 1
|
EQUAÇÕES
PROPOSTAS |
||
|
ensaios |
conjunto de equações 1 |
conjunto de
equações 2 |
|
porosidade |
= - 0,432 + 0,0108 FK + 0,0217 grFK + 0,0129 PL -
0,0276 grPL + 0,0116 Qz + 0,0082 grQz + 0,0149 Bt - 0,00183 Alt - 0,0031 ft -
0,0251 ftp + 0,000 cpl - 0,0180 ccc - 0,058 cse |
= - 0,396 + 0,00899 FK + 0,0229 grFK + 0,0177 PL -
0,0320 grPL + 0,00817 Qz + 0,0159 grQz + 0,0147 Bt - 0,00183 Alt - 0,0097 ft
- 0,0203 ftp + 0,011 cpl + 0,008 ccc - 0,205 cse |
|
desgaste abrasivo |
= 1,20 - 0,00782 FK + 0,00412 grFK + 0,00182 PL -
0,0144 grPL - 0,00459 Qz - 0,0030 grQz - 0,00192 Bt - 0,00444 Alt - 0,0127 ft
+ 0,0486 ftp + 0,0268 cpl - 0,0545 ccc + 0,0460 cse |
= 1,04 - 0,00748 FK + 0,00433 grFK + 0,00242 PL -
0,0220 grPL + 0,00077 Qz + 0,0102 grQz + 0,00316 Bt - 0,00734 Alt - 0,0084 ft
– 0,0136 ftp + 0,0798 cpl - 0,0509 ccc - 0,131 cse |
|
compressão uniaxial |
= 175 - 0,188 FK - 0,16 grFK - 0,350 PL - 0,10 grPL -
0,210 Qz - 3,21 grQz + 0,481 Bt + 0,213 Alt + 4,10 ft - 7,99 ftp + 9,7 cpl -
11,3 ccc + 9,1 cse |
= 123 + 0,511 FK - 1,23 grFK + 0,007 PL + 4,04 grPL -
0,367 Qz - 6,26 grQz + 0,902 Bt + 0,852 Alt + 2,73 ft - 2,58 ftp + 12,4 cpl -
3,31 ccc + 0,6 cse |
|
módulo de ruptura |
= 28,2 - 0,158 FK - 0,126 grFK - 0,0725 PL - 0,581
grPL - 0,0952 Qz + 0,204 grQz + 0,0888 Bt + 0,0425 Alt - 0,109 ft + 0,126 ftp
- 1,75 cpl + 1,56 ccc + 0,42 cse |
= 19,0 - 0,0788 FK - 0,234 grFK - 0,0241 PL - 0,232
grPL - 0,008 Qz + 0,025 grQz + 0,113 Bt + 0,116 Alt - 0,324 ft + 1,28 ftp -
1,42 cpl + 1,98 ccc + 0,25 cse |
TABELA 3: Nome comercial, tipo petrográfico e procedência dos materiais selecionados por Navarro (2002) para o teste das equações matemáticas apresentadas na Tabela 2.
|
Nome Comercial |
Tipo Petrográfico |
Procedência |
|
Lilas Gerais |
gnaisse
sienogranítico róseo |
Itapecirica, MG |
|
Verde Lavras |
gnaisse
charnoquítico cinza-esverdeado |
Lavras, MG |
|
Marrom Caldas |
álcali-feldspato
quartzo sienito |
Caldas, MG |
|
Preto Piracema |
gabro com quartzo |
Piracema, MG |
|
Ibiúna Amêndoa Vermelha* |
biotita-hornblenda
monzogranito porfiróide com matriz granodiorítica |
Ibiúna, SP |
* nome comercial sugerido por Navarro (2002).
Tabela 4: Comparação entre os resultados tecnológicos calculados pela aplicação das equações selecionadas e os dados obtidos em laboratório para os cinco litotipos selecionados LG (Lilas Gerais), VL (Verde Lavras), MC (Marrom Caldas), PP (Preto Piracema) e IBV (Ibiúna Amêndoa Vermelha). Legenda: por - porosidade aparente (%); abs - absorção d’água aparente (%); desg - desgaste abrasivo Amsler (mm); unix - resistência à compressão uniaxial (MPa); rupt - módulo de ruptura (MPa).
|
|
RESULTADOS
CALCULADOS |
|||||||||||
|
amostras |
resultados
de ensaios |
conjunto
de equações 1 |
conjunto
de equações 2 |
|||||||||
|
por |
desg |
unix |
rupt |
por |
desg |
unix |
rupt |
por |
desg |
unix |
rupt |
|
|
Lilas
Gerais |
0,27 |
0,50 |
177,8 |
19,0 |
0,74 |
0,66 |
158,9 |
17,6 |
0,72 |
0,73 |
148,1 |
16,7 |
|
Verde
Lavras |
0,35 |
0,51 |
232,6 |
22,6 |
0,57 |
0,44 |
120,1 |
17,4 |
0,62 |
0,44 |
164,6 |
22,4 |
|
Marrom
Caldas |
1,08 |
0,74 |
172,3 |
12,8 |
0,28 |
0,54 |
179,2 |
17,8 |
0,17 |
0,33 |
186,0 |
16,2 |
|
Preto
Piracema |
0,18 |
0,62 |
223,7 |
23,2 |
0,05 |
1,17 |
156,9 |
24,3 |
0,29 |
0,73 |
172,4 |
24,9 |
|
Ibiúna
Amêndoa Vermelha |
0,67 |
0,60 |
149,6 |
13,5 |
1,02 |
0,86 |
158,5 |
12,0 |
0,88 |
0,57 |
140,5 |
10,5 |
Comparando os resultados de desgaste Amsler calculados com
os obtidos através de ensaios, observa-se bastante coerência com os mesmos,
tanto aplicando-se as equações do conjunto 1, quanto do conjunto 2, com exceção
para as amostras Marrom Caldas (MC) e Preto Piracema (PP). Isso fornece um
indicativo da melhor utilização dos modelos desenvolvidos em rochas granitóides
(campos 3A e 3B de Streckeisen, 1976) do que aquelas de composição tendendo a
ácida (sienitos em geral) ou básica (gabros, dioritos, tonalitos, etc.). Nesses
casos modelos matemáticos específicos devem ser especialmente desenvolvidos.
Os valores calculados e obtidos por ensaio para as
propriedades mecânicas, representados pelos ensaios de resistência à compressão
uniaxial e módulo de ruptura, mostram resultados bastante próximos, havendo
algumas exceções para as amostras Lilas Gerais (LG), Verde Lavras (VL) e Preto
Piracema (PP). Segundo Lama & Vutukuri (1978), é coerente admitir que a
resistência mecânica das rochas são um reflexo dos aspectos macroscópicos
representados pela granulação e tipos de contatos. Essas variáveis têm um
significado maior nas equações do conjunto 1 (Tabela 1), que mostram resultados
mais próximos dos valores obtidos por ensaio, do que os dados calculados com as
equações do conjunto 2, onde essas variáveis tem participação menor (Tabela 1).
Além desses parâmetros sabe-se que as fraturas tem papel
determinante para a resistência mecânica, fato não muito evidente nos valores
da Tabela 1, onde essas variáveis apresentam baixos valores da porcentagem de
variabilidade.
Os comentários acima mostram que a petrografia pode ser
utilizada como um método para a previsão de resultados de ensaios tecnológicos
de granitos ornamentais. Constitui ainda um método expedito, de baixo custo e
não destrutivo, que fornece informações únicas a respeito das características
das rochas.
Contudo, é necessário destacar que o atual estágio do
conhecimento nesse assunto, pelo menos ao nível nacional, ainda é incipiente,
sendo de extrema importância estudos complementares visando a qualificação e
quantificação de determinados parâmetros petrográficos através de metodologias
específicas. Como exemplo, salienta-se a importância de estudos com platina
universal, para o reconhecimento e quantificação de orientações
cristalográficas, que embora não visíveis a olho nu, constituem-se planos de
anisotropia, e portanto zonas de menor resistência que influenciam o
comportamento tecnológico das rochas (Siegesmund et al., 2000; Weiss et al.,
2000).
As fraturas devem ser consideradas como número médio por
unidade de área e também como famílias ou sistemas presentes, os quais
dependendo do arranjo geométrico que apresentem, respondem com comportamentos
mecânicos diferentes (Gueguen et al.,
1990). Para isso métodos como a velocidade de propagação de ondas e análise das
orientações relativas dos planos de fraturas presentes, através de platina
universal podem contribuir de modo decisivo (Weiss et al., 2001).
Outros parâmetros tais como contatos minerais e planos de
clivagem representam planos de baixa energia que podem alterar o
desenvolvimento dos planos de fratura através de mecanismo de deflexão de
fraturas, durante a aplicação da carga (Freiman & Swanson, 1990), o que
evidentemente afeta a resistência mecânica da rocha. Neste caso o estudo das
orientações através da platina universal também podem contribuir para o aprimoramento
dos modelos.
Os autores agradecem à FAPESP (processo nº 00/00762-8) pelo financiamento do projeto de mestrado do primeiro autor.
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