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A indústria do couro no Ceará

Cândido Couto Filho (do livro "Ceará, a civilização do couro)

Na idade do gelo, 100.000 anos a.C., o "homo sapiens" encontrou na caça o alimento para substituição dos vegetais que se tornavam escassos. Ao alimentar-se de carnes conheceu o emprego da 'ele usando-a como portas das cavernas, vestimentas, velas de emlarcações, armas etc., o homem encontrou no couro o elemento de alvação natural.

No transcurso dos tempos, gradual e lentamente foram desenvolvendo-se métodos mais eficazes de preservar a pele e permitir maior duração até chegar aos modernos métodos dos dias de hoje.

O primeiro curtume de que se tem notícia é também a primeira indústria cearense, instalada em Aracati em 1744. Com sistema de curtimento artesanal, utilizando-se de tanques e tinas e madeira unidas por taliscas de madeira (pau-d'arco e andiroba), usando cinza, pedra ume e casca de angico para industrializar as peles de cabra, carneiro e boi surgiu a nossa indústria de couro.

De 1744 até o início de 1900, não se tem notícia de novas indústrias de couro no Ceará, e sim a proliferação de pequenos curtumes de sola para artigos como arreios, celas, baús, mobílias etc., nas cidades de Crateús, Acaraú, Sobral, Fortaleza e Juazeiro do Norte.

1910 - O Ceará tinha no mercado de couro a grande atração para investimentos estrangeiros (ou de famílias estrangeiras). 

Em Fortaleza havia o Curtume Cearense, localizado no bairro de Jacarecanga, pertencente ao empresário Francisco Lorda (uruguaio);

Em Quixadá havia o Curtume Quixadá, de uma família sírio-libanesa. Esse curtume, a partir de 1952, passa a pertencer a José Capelo Filho.

1942 - Instala-se no bairro Floresta, em Fortaleza, o Curtume Santa Luzia, pertencente aos irmãos José c Cipriano Capelo, filhos de José Capelo (espanhol), que detinha o maior comércio de couros e calçados (sapataria Belém) c curtumes do norte do Brasil.

1942 - O alemão Hermann Shimelpheng (Sr. Mofo) instala um curtume em Fortaleza, no bairro Pé-de-Galinha (hoje Aeroporto), mas por ocasião da Segunda Grande Guerra, é obrigado a transferir-se para local distante das vias de acesso, e reinstala seu curtume. em Tianguá. Após a guerra, foi transferido novamente para Sobral, onde se manteve até 1980, ano do seu fechamento.

1944 - O Curtume Santa Luzia faz vir um técnico austríaco para desenvolver novas técnicas, principalmente para a produção de camurça (produto feito a partir do carnal da pele), com o objetivo de aproveitar melhor as peles da nossa região, que tem muitos riscos e defeitos. A palavra camurça é o nome de um animal montanhês que por ter muitos defeitos na flor da pele só é utilizado o seu carnal.

Esse técnico enfrentou muitas dificuldades, não conseguiu atingir o resultado desejado, pois a sua técnica precisava usar água a 18'C (a nossa água tem em média 28ºC), e com menos de um ano desistiu e foi ser agricultor em Pernambuco.

1955 - Instala-se em Fortaleza, no bairro da Floresta, o Curtume Santo António, de propriedade do jovem espanhol José Recamonde Alonso, que aqui chegou da Espanha em 1935 à casa de um tio que morava na Paraíba. Depois veio a Fortaleza para visitar sua irmã (casada com o Sr. José Capelo). Aqui chegando, trabalhou como ascensorista no Exelcesior Hotel e depois na indústria do cunhado, onde aprendeu a administrar esse ramo de negócio além das técnicas usadas. Essa indústria foi a base de toda a formação do Grupo Recamonde, que hoje tem um sólido curtume, lojas de comércio de couro, indústria de material de segurança, construtora, centros comerciais, etc. O nome usado em seus investimentos é pela grande devoção do Sr. José Recamonde, Santo António.

Na região do Cariri, em Juazeiro do Norte, é inaugurado o Curtume Padre Cícero, tendo como proprietários Ary Queiroz e Colma Cruz Queirós, de família tradicional da região, produzindo couros de boi para o mercado interno.

1969 - Instala-se em Juazeiro o Curtume Santo Agostinho, tendo como sócios os empresários António Agostinho Lemos e Antony Cruz Lemos, também com o intuito de produzir couros de boi para o mercado interno.

1970 - Instala-se em Fortaleza, no bairro Barra do Ceará, em uma área litorânea de 10 hectares, a maior indústria de peles da América Latina, com o objetivo de industrializar peles de cabra, carneiro, cobra, lagarto, queixada, caititu, onça e gato selvagem, teju e camaleão. Com produção de 10 mil peles por dia, a CINPELCO era modelo na arquitetura, equipamentos computadorizados e tecnologia alemã, a mais moderna existente. Toda voltada para exportação, seus acionistas majoritários, Manuel e Risalvo Pinheiro, eram experientes exportadores dessas peles in nature. Os irmãos Pinheiro, uma família de 13 filhos, sendo dois do primeiro casamento e 11 do segundo, vieram do município de Cachoeira do Riacho do Sangue (hoje Solonópole) para a cidade vizinha de Senador Pompeu, e  lá trabalharam com um tio, Bernardo Cavalcante Pinheiro. Na seca de 1932, o tio Bernardo torna-se o maior comerciante da região, abastecendo de cereais todas as frentes de serviços e inicia o comércio de couros e peles. Em 1945, os irmãos Pinheiro transferem-se para Fortaleza e vão trabalhar na empresa Norte Exportação, dos empresários Jaime Pinheiro e Luís Nogueira. Em 1947, fundam a Exportadora Americana e logo são os maiores comerciantes do norte do Brasil e destacam-se com métodos novos de conservação e comercialização. Enviam para o exterior (EUA e Alemanha), a fim de aperfeiçoar-se nas línguas inglesa e alemã, o irmão mais novo, Rulian, que morre num desastre na Alemanha. Conhecedores do mercado de exportação, criam a empresa CINPELCO com a participação dos maiores exportadores de peles (Irmãos Fontenele, Quirino Rodrigues e L. Fernandes). Em decorrência da proibição da exportação de peles silvestres, esta indústria não sobreviveu, pois todos os investimentos tinham como base a alta lucratividade dessas peles. Mesmo com a adaptação das peles de cabra e carneiro às maquinas, não foi possível ir além de dez anos o funcionamento. Depois o prédio foi invadido e foi construído no seu lugar um conjunto habitacional.         

1972 - Instala-se uma grande indústria de couro de boi no bairro Floresta, em Fortaleza, no lugar ond.e funcionara o curtume Santa Luzia. Essa indústria é equipada com equipamentos de tecnologia tão moderna quanto a CINPELCO, mas usando tecnologia e equipamento francês. A indústria é controlada pelo conceituado empresário cearense Adjacir Cidrão. Essa indústria é comprada em 1980 por um grupo lugoslavo da família Arambasic e Masirevic, e em seguida, no ano de 1984, assume a empresa o experiente empresário Humberto Fontenele, exportador de peles e couros in nature, que na época já tinha se iniciado no comércio de castanha de caju (ele detém maior tecnologia no setor). Seu curtume porém, esta atravessando um período de dificuldades.

1973 - O grupo Machado, proprietário do Banco do Ceará, instala na cidade de Sobral o Curtume Machado (produção de 2000 couros vacum/dia acabado). Nos anos de 1987-1991 torna-se o maior exportador de couro industrializado do Norte e Nordeste do Brasil. A diretoria do curtume era composta por: Manoel Machado de Araújo, José Machado de Araújo, José Maia Machado e Luís Carlos Farias Bezerra. (1978).

1978 - O grupo Humberto Fontenele instala no Distrito Industrial de Maracanaú a indústria CURCEL (industrializando 5000 peles/dia (cabras e carneiros) em Wet Blue).

1980 - E criada a CV Couros e Peles, pequena empresa industrial criada pelo engenheiro químico. Cândido Couto Filho, consorciado com o industrial de óleo Marcilio Brown (sogro na época de Cândido Filho), para produzir peles de cabra e carneiro para exportação. Essa empresa hoje é produtora das melhores peles acabadas brasileiras, produzindo 3000 peças por dia.

1981 - E fundada a PECOL — Peles e Couros Ltda. Empresa produtora de roupas de couros que tem como sócio principal o engenheiro químico, Cândido Couto Filho. Instala-se no local da primeira indústria de couro de Fortaleza, emJacarecanga, o Curtume Lorda. Com produção diária de 1000 peles/dia acabado. Esta empresa torna-se famosa no ano de 1985 por produzir pela primeira vez no Brasil peles de peixe (tilápia e cangulo, entre outros) para os mercados interno e externo. Em 1997, transfere-se para o município de Caucaia, em função de exigências do meio ambiente.

1999 - Instala-se no município de Cascavel uma grande empresa mista de capital brasileiro e italiano para industrializar 4000 couros vacum acabados/dia com visão exclusiva para a exportação, couros acabados para estufamento. Detentora de várias outras empresas no exterior, com processo super moderno e automatizado, a Bermas Ind. e Com. Ltda., veio para transformar os couros do nordeste em produto de exportação acabado. Estes empresários mudaram o perfil dos conceitos de tratamento das águas fluviais, para couros em Wet Blue. Essa empresa compra também uma indústria de couro no Distrito Industrial de Maracanaú, pertencente ao empresário Humberto Fontenele, e assume o Curtume Machado, que estava desativado na cidade de Sobral.